Com salários já reduzidos, pilotos de avião e comissários temem crise do coronavírus

Categoria aprovou propostas da Gol e da Latam que, na prática, diminuem a renda em 80%

Interior de cockpit de avião modelo Airbus A320 operado pela Latam; janela é vedada para proteger painel de luz solar enquanto aeronave ficar desativada Eduardo Knapp/Folhapress

São Paulo

Quase 25 anos depois de se formar como piloto de aviões comerciais, frente à situação do setor em meio à pandemia do coronavírus, Alexandre se lembrou da primeira crise pela qual passou na aviação, em 2001, ano do 11 de Setembro e do fim da Transbrasil. Seu nome e o de outros funcionários de aéreas são fictícios, mas as histórias, reais.

Hoje na Azul, o piloto passa os dias em quarentena dentro casa, no interior de São Paulo. Ele está de licença não remunerada, como a maioria dos 14 mil funcionários da empresa, única das três grandes do setor que ainda não fez cortes de salário.

No mês passado, a categoria aprovou propostas da Gol e da Latam de redução de jornada e salários que, na prática, diminuem a renda dos profissionais em 80%.

Isso porque pilotos e copilotos recebem, além do salário-base, uma renda variável que depende diretamente do número de horas de voo realizadas no mês.

Entre partidas de jogos de tabuleiro com a filha e raras idas ao supermercado com a esposa, Alexandre faz duas contas: a de quanto tempo durará sua reserva financeira e a de quantos dias faltam para voltar a pilotar os voos domésticos na Azul.

Ele sabe que a queda da remuneração será sentida mesmo na volta ao trabalho.

Segundo Alexandre, um mês normal rende em torno de R$ 16.000 líquidos a um comandante em meio de carreira, e R$ 7.000 a um copiloto.

Ele diz estar certo de que, mesmo após o coronavírus, a volta às atividades será lenta, já que muitas empresas devem reduzir viagens corporativas e os turistas ainda terão medo do vírus.

Henrique, que tem 20 anos de profissão e 15 como piloto na Latam, diz nunca ter visto crise tão acentuada.

Ele costuma fazer entre 70 e 80 horas de voo em um mês, com uma remuneração bruta que chega a R$ 33 mil. Em abril, contudo, vai voar só duas ou três vezes. Como resultado, sua renda passará a R$ 11 mil.

No ano passado, o piloto chegou a receber ofertas de trabalho em companhias no Oriente Médio e na Europa. Em meio à pandemia, contudo, o cenário da aviação é de retração no mundo todo.

Comissário da Gol há cerca de 15 anos, João vive situação similar. Ele segue em regime de plantão em casa, na Grande São Paulo, à espera de convocações para trabalhar. Seu último voo foi há mais de um mês.

Ele conta que o adicional que recebe por voo representa quase 70% de sua renda.

Hoje, seu salário-base gira em torno dos R$ 4.000, que terão redução escalonada de 30% a 50% até junho, devido ao acordo coletivo aprovado pela Gol junto à categoria com a promessa de manter os empregos.

Seu maior desejo hoje, diz, é voltar a voar.

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