Descrição de chapéu Coronavírus

Economia dos EUA cai 4,8% no 1º tri, o maior tombo desde a Grande Recessão

Economistas estimam que tombo no 2º trimestre pode chegar a 30% por medidas de controle da Covid-19

Washington | Reuters

A economia norte-americana teve, no primeiro trimestre de 2020, o seu maior tombo desde a Grande Recessão, reflexo das medidas de paralisação de atividades para conter o surto do novo coronavírus.

O tombo de 4,8% no trimestre, em termos anualizados, colocou fim ao maior ciclo de crescimento econômico registrado na história dos Estados Unidos. A divulgação do PIB (Produto Interno Bruto) norte-americano, em taxa anualizada, é diferente da leitura da economia brasileira, que é feita sempre pela variação no trimestre.

Pela leitura trimestral, o PIB dos EUA recuou 1,2% no período de janeiro e março, quando comparado com outubro a dezembro de 2019.

A queda reportada pelo Departamento de Comércio americano foi ainda maior que a prevista por economistas ouvidos pela agência Reuters. Eles projetavam uma contração de 4% no período de janeiro a março, ainda que as estimativas fossem amplas a ponto de englobar previsões de queda de até 15%.

O pior, segundo economistas, ainda está por vir: o PIB pode despencar 30% ou mais no segundo trimestre.

Na China, onde começou o coronavírus e que teve paralisações desde janeiro, o tombo do PIB no primeiro trimestre foi de 6,8%. O Brasil divulgará seus dados no final de maio.

Bandeira norte-americana em Nova York, Estados Unidos - Johannes Eisele/AFP

A retração do PIB reflete o mergulho da economia do país nas duas últimas semanas de março, período em que milhões de norte-americanos solicitaram seguro-desemprego. Desde o começo da crise do coronavírus, mais de 26 milhões de trabalhadores do país pediram o auxílio.

Esse indicador reforçava a visão de analistas de que a economia do país já estava em uma profunda recessão.

O agravamento do quadro virá porque serviços não essenciais continuam fechados e o desemprego aumenta semana após semana, cortando a renda e o potencial de consumo das famílias.

O motor da economia americana na última década foi justamente o consumo, responsável por dois terços do PIB.

Em março, as vendas do varejo americano recuaram 8,7%, a mais profunda queda desde 1992.

“A economia está em queda livre, podemos estar nos aproximando de algo muito pior que a grande recessão”, disse Sung Won Sohn, professor na Universidade Loyola Marymount, em Los Angeles.

“É prematuro falar sobre recuperação neste momento, ainda vamos ver muita falência de pequenas e médias empresas.”

Em uma tentativa de minimizar os danos da quarentena, o governo americano aprovou um pacote de US$ 2,2 trilhões (R$ 12,3 trilhões) para ajudar empresas e famílias. Como transferência de renda, está pagando US$ 1.200 aos afetados pela pandemia. O governo também ampliou os trabalhadores elegíveis ao seguro-desemprego, incluindo os informais de aplicativos, como motoristas e entregadores.

O tombo do primeiro trimestre deste ano foi o mais profundo desde a queda registrada no primeiro trimestre de 2009, quando a economia norte-americana atravessava a crise iniciada em 2008.

Muitas fábricas e negócios considerados não essenciais, como restaurantes, foram fechados ou obrigados a operar abaixo da capacidade em meio a quarentenas impostas para conter a pandemia de Covid-19.

E uma parcela daqueles que não perderam o emprego passou a fazer home office, o que, na avaliação de especialistas, reduz a produtividade. Isso porque é preciso conciliar o trabalho com as tarefas da casa e a educação dos filhos, por exemplo.

“Para trabalhadores que passaram a trabalhar de casa, é altamente improvável que a produtividade tenha se mantido a 100%”, afirmou Kwok Ping Tsang, professor associado da Virginia Tech College of Science.

Fed alerta para queda ‘sem precedentes’ do PIB no 2º tri ao manter juro próximo de zero

Nesta quarta (29), o Fed, banco central americano, manteve a taxa básica de juros dos Estados Unidos próximo de zero, conforme esperado pelo mercado. A faixa de 0 a 0,25% foi implementada, de forma extraordinária, no dia 15 de março, para conter os impactos do coronavírus na economia americana.

Ao comentar a decisão, o presidente do Fed, Jerome Powell, alertou para a probabilidade de que a atividade econômica dos EUA "caia em um nível sem precedentes no segundo trimestre".

“Enquanto muitas estatísticas econômicas ainda têm que alcançar a realidade que estamos vivendo, já está claro que os efeitos do coronavírus na economia são severos”, disse Powell em entrevista coletiva.

Diante do cenário negativo, o Fed espera manter o juros neste patamar "até ter certeza de que a economia resistiu a eventos recentes e esteja a caminho de atingir suas metas máximas de emprego e estabilidade de preços", diz o comunicado da decisão.

Segundo Powell, contudo, o juro baixo deve ser repassado a famílias e empresas para surtir efeito.

“É claro que o juro não pode parar a rápida desaceleração da atividade econômica causada por fechamento de comércio e fábricas e outras formas de distanciamento social e não vai suportar a economia de maneira efetiva se não foram ampliadas as condições financeiras ou se famílias e negócios não conseguir ter acesso ao crédito.”

O Fed voltou a assegurar que fará o necessário para dar suporte à economia americana, destacando que a pandemia de Covid-19 e as medidas para contê-la vão ter um grande impacto no curto prazo e "riscos consideráveis" no médio prazo.

“Haverá necessidade de fazer mais? Creio que sim. Vimos uma forte resposta do Congresso, mas diria que pode ser o caso da economia precisar de mais estímulos de todos nós para que a retomada seja robusta”, disse Powell em referência ao pacote de estímulo trilionário implementado pelo governo americano.

As medidas econômicas levantaram críticas por parte dos republicanos em razão da piora na situação fiscal do país.

“Há muitos anos sou um defensor de que os Estados Unidos voltem a um caminho saudável na questão fiscal, e estamos fora desse caminho há algum tempo, com a dívida crescendo mais rápido do que a economia, mas essa não é a hora de atuar diante dessas preocupações”, disse Powell, em defesa do aumento de gastos no combate aos efeitos econômicos da pandemia de Covid-19.

“Agora é a hora de usar o grande poder fiscal dos EUA para fazermos o possível para dar suporte à economia e tentar sobreviver a isso com o menor estrago possível na capacidade produtiva futura da economia americana. O momento virá, e acredito que em breve, para pensarmos em uma maneira, a longo prazo, de colocar a questão fiscal em ordem. É algo que precisamos fazer, mas esse não é o momento de deixar essa preocupação, que é muito séria, interferir na nossa vitória nessa batalha.”

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