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Coronavírus Coronavírus, o debate econômico

Evitando efeitos em cascata

País ficará mais pobre ainda que as medidas econômicas sejam efetivas

Sergio Firpo

O isolamento social forçou milhões de trabalhadores a se afastarem de suas atividades remuneradas.

Durante esse período, o Governo Federal prometeu sustentar parcialmente a renda do trabalho daqueles que têm sido afetados pelas medidas sanitárias impostas pelos governos locais para a redução da velocidade do contágio do Covid-19.

Ambas medidas são necessárias e urgentes: as sanitárias, sem as quais a nossa rede hospitalar entrará em colapso precocemente; e as econômicas, sem as quais a população mais vulnerável ficará sem capacidade de manter sua subsistência.

Se as medidas econômicas forem efetivas e conseguirmos evitar uma tragédia social, o país como um todo, ainda assim, ficará mais pobre. A maior parte dos trabalhadores e dos empresários terá perda de renda. Mas alguns setores sofrerão mais do que outros.

O impacto da crise, embora generalizado, não será uniforme. Alguns profissionais já têm visto sua renda cair a zero rapidamente (profissionais liberais e microempreendedores), enquanto outros pouco têm sentido, do ponto de vista financeiro, os efeitos da crise (servidores públicos).

Embora os efeitos sobre a renda sejam heterogêneos, há um clamor pela uniformização dos efeitos da pandemia sobre as relações de consumo, sobretudo no setor de serviços.

Há dezenas de projetos de lei no Congresso e nas Assembleias Estaduais que, se aprovados, obrigarão empresas de setores específicos a continuar a oferecer serviços para os inadimplentes e a reduzir os preços a todos os seus clientes durante a duração da pandemia.

A principal motivação desses projetos de lei é a de se garantir que serviços, alguns essenciais, continuem a ser prestados para aqueles consumidores que não mais poderão, por conta da crise, honrar os pagamentos de aluguel, água, luz, gás, telefonia, internet, educação e planos de saúde.

Mas se a crise terá efeitos diferentes sobre as pessoas, por que as tratar da mesma forma? Por que permitir que alguém deixe de pagar suas contas, sem prejuízo qualquer a si, mesmo não tendo sido sua renda afetada negativamente?

Por que reduzir os valores dos serviços para todos os clientes, mesmo quando, muitas vezes, os custos operacionais têm aumentado? Como lidar com redução das receitas, decretada por lei, e ainda manter em dia o pagamento da folha de salários e de fornecedores?

Há diversas empresas que veem uma importância estratégica em manter seus clientes mesmo que eles não possam pagar pelos serviços prestados durante a crise. Elas estariam dispostas a conceder ‘crédito’ temporário a esses clientes que não terão escolha a não ser a inadimplência.

Mas é obvio que várias delas não terão fôlego financeiro para oferecer esse tipo de benefício a todo e qualquer cliente. Separar quem precisa de quem não precisa de algum prazo para pagar ou de redução de preços poderá ser custoso para a empresa, mas será bem menos do que conceder prazos e isenções uniformes.

A crise impactará todos nós. Sairemos dela mais unidos do que entramos. Mas isso não significa que devamos tratar igualmente os desiguais, sob pena de sairmos dela ainda mais desiguais do que entramos.

Sergio Firpo é professor de Economia do Insper

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