Fim de acordo Boeing-Embraer é chance de Brasil ter cautela com privatizações, dizem militares do governo

Núcleo fardado do Planalto vê setor de tecnologia aeroespacial como estratégico

Brasília

O cancelamento da compra pela Boeing da área de avião civil da Embraer não foi considerado catastrófico por todo o governo federal.

A cúpula militar, que nunca foi unânime sobre o acordo, avalia que a desistência é uma oportunidade para que o presidente Jair Bolsonaro adote mais cautela na atual política de privatizações.

No sábado (25), a Boeing anunciou a suspensão do acordo, de US$ 4,2 bilhões (R$ 23,5 bilhões na sexta) –era o maior negócio da indústria aeroespacial brasileira.

Segundo a empresa americana, a Embraer não teria cumprido todas as obrigações para executar a separação da linha de aviões regionais. Houve troca de acusação entre as companhias.

Para o núcleo fardado do Palácio do Planalto, o setor de tecnologia aeroespacial é estratégico para a proteção do país. Por isso, o compartilhamento de tecnologia poderia fragilizar a defesa aérea.

Os militares ouvidos pela Folha ponderam, no entanto, que a quebra do acordo em meio a uma crise econômica causada pelo novo coronavírus não é animador.

O cenário, para eles, demonstra que outras empresas brasileiras correm o risco de perder grande valor de mercado ao longo da pandemia. Para alguns militares, o não prosseguimento do acordo fortalece o discurso de parcela do governo sobre a necessidade de uma flexibilização do ajuste fiscal e de um aumento do investimento público enquanto perdurar o alastramento da doença.

Apesar do discurso de parcimônia com o plano de privatizações da ala liberal do governo, os militares não defendem a reestatização da empresa, vendida em 1994.

Neste sábado, o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos aproveitou o negócio frustrado para emitir uma nota pedindo a reestatização da Embraer.

A rescisão do acordo de compra da Embraer pela Boeing, anunciada neste sábado (25) pela empresa norte-americana, é uma reviravolta em uma transação marcada pelo desprezo aos interesses nacionais e dos trabalhadores brasileiros", diz trecho do comunicado enviado pelo sindicato.

A entidade também diz que se posicionou contrário à venda. "A Embraer é um patrimônio nacional estratégico para o país e não precisa de aliança com parceiros internacionais para sobreviver."

A gestão Jair Bolsonaro, ao contrário dos representantes da empresa, aprovou o negócio.

Esse aval foi necessário porque o governo detém a chamada "golden share" que lhe permitiria vetar qualquer tratativa. A ação era um resquício do processo de privatização da Embraer.

O acordo teve o apoio do Planalto sob Michel Temer (MDB). Ele foi ratificado por Bolsonaro no começo de 2019.

O negócio entre Boeing e Embraer começou a ser costurado em 2017, quando a maior rival da fabricante americana, a europeia Airbus, comprou a linha de jatos regionais C-Series, da canadense Bombardier.

No começo da tarde de sábado, a Embraer divulgou nota com acusações contra a Boeing. "A Embraer acredita firmemente que a Boeing rescindiu indevidamente o MTA (Acordo Global da Operação) e fabricou falsas alegações", diz o texto.

A decisão foi tomada, segundo a nota, "como pretexto para tentar evitar seus compromissos de fechar a transação e pagar à Embraer o preço de compra de U$ 4,2 bilhões".​

"A empresa acredita que a Boeing adotou um padrão sistemático de atraso e violações repetidas ao MTA, devido à falta de vontade em concluir a transação, sua condição financeira, ao 737 MAX e outros problemas comerciais e de reputação", afirma a Embraer, que disse ter cumprido todas as condições necessárias para o negócio.

A fabricante brasileira afirmou que irá tomar "todas as medidas cabíveis contra a Boeing pelos danos sofridos como resultado do cancelamento indevido e da violação do MTA".

O próprio CEO da empresa, Francisco Gomes Neto, gravou um vídeo dando essa versão dos fatos.

"Vamos buscar compensação", disse, afirmando que "lamenta a decisão", mas que a Embraer já superou crises no passado. "Seguimos firmes e fortes", disse.

As dificuldades financeiras da Boeing citadas são conhecidas, embora a empresa negue que sejam o motivo da rescisão.

São uma crise interna, com a paralisação da produção do best-seller 737 MAX por problemas técnicos que geraram acidentes fatais, e a queda de demanda mundial de aeronaves pela pandemia do novo coronavírus.

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