Fruta apodrece no pé com a queda da demanda no Nordeste

Fechamento de restaurantes e, principalmente, das feiras livres impactaram os produtores do Nordeste

Salvador e Recife

Em Bom Jesus da Lapa (780 km de Salvador), município que se destaca pela produção de bananas, o fruto sequer chega a ser colhido e apodrece no pé. Em Petrolina (526 km do Recife), no vale do São Francisco, produtores de frutas começam a dar férias coletivas para funcionários.

O fechamento de restaurantes e, principalmente, das feiras livres impactaram os produtores do Nordeste que focam o mercado regional.

Em Bom Jesus da Lapa, cerca de 800 agricultores produzem frutas no perímetro irrigado de Formoso. A banana é o carro-chefe, com uma produção que chega a 10,8 mil toneladas por mês e que segue diariamente em caminhões para Brasília, Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro.

Em geral, as bananas deixam o campo ainda verdes. Com a queda na demanda, contudo, boa parte das frutas amadurece e apodrece antes mesmo de ser colhida.

Os produtores baixaram os preços do atacado em até 30%. O quilo da banana-nanica está sendo vendido a R$ 1. O da banana-prata, a R$ 2. A redução do preço, contudo, nem sempre chega ao consumidor final, diz Evino Kogler, presidente da Associação de Produtores de Banana da Bahia.

“O cenário está muito doloroso para a cultura. Baixamos os preços na esperança de que o consumo aumentasse, mas isso não aconteceu porque o valor não caiu na ponta”, afirma Evino. Com a queda nas vendas, diz, produtores já demitem funcionários.

No vale do São Francisco, que engloba 16 municípios de Pernambuco e da Bahia —destaque na produção nacional de manga e uva, com 44 mil hectares plantados—, a situação também é preocupante.

Josival Coelho de Amorim fechou temporariamente sua fazenda de manga e goiaba em Petrolina (PE). “Dei férias a 44% dos funcionários. É importante também para o isolamento. Não entra e não sai ninguém”, afirma.

Ele diz que a situação não é pior porque tem muita gente saindo da entressafra. “A produção e a procura caíram demais. Um indicador forte é a procura menor dos intermediários. Agora, de abril em diante, é que vai arrochar o nó.”

Grandes produtores voltados à exportação possuem câmaras frias que podem estocar de 30 a 40 dias as uvas colhidas, por exemplo, sem que elas percam suas características.

O presidente nacional da Associação Brasileira dos Exportadores de Frutas e Derivados, Guilherme Coelho, afirma que as exportações não foram afetadas de maneira significativa, já que grande parte deixa o país por via marítima, e não aérea.

No entanto, a venda de algumas frutas especiais também sofreram impactos no mercado externo. Há uma manga pronta para o consumo, produzida com bastante rigor, que é exportada por avião. Como os voos sofreram uma forte diminuição, o escoamento específico deste produto, que representa 10% das mangas exportadas, caiu 90%.

Na região da Chapada Diamantina, na Bahia, produtores de banana, mamão, manga, maracujá e hortaliças também começam a ver os frutos apodrecerem no pé.

Presidente da Associação Comunitária dos Irrigantes do Vale do Rio Utinga, o produtor Nelson Matias dos Santos, 65, afirma que o movimento de caminhões vindos de fora da região caiu mais de 60% e os produtores têm tido dificuldade para escoar a colheita.

Se antes vendiam carregamentos semanais até para o Paraná, agora têm praticamente só o mercado baiano. E mesmo assim, com dificuldades, porque parte das prefeituras proibiu a realização de feiras livres para tentar controlar a pandemia.

“Os preços caíram drasticamente”, diz Nelson. O quilo do mamão formosa, que deixava as fazendas a R$ 1,20 antes da crise do novo coronavírus, agora está saindo a R$ 0,30.

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