Momento é de oportunidade para investir em Bolsa de Valores, afirma Luiz Barsi Filho

Principal estratégia do megainvestidor é alocar recursos em empresas consolidadas e boas pagadoras de dividendos

São Paulo

O investidor Luiz Barsi Filho foi às compras na Bolsa de Valores brasileira na primeira quinzena de março, no momento em que o pregão sofreu quatro circuit breakers, termo em inglês para denominar o mecanismo que interrompe as negociações quando o Ibovespa cai 10%.

Com mais de R$ 2 bilhões investidos em ações, Barsi afirma que agora o seu momento é de espera e olhar atento, pois o sobe e desce na cotação das ações vai se manter. Ele aguarda os resultados do primeiro trimestre para mexer no que chama de carteira previdênciária: investimento em empresas consolidadas e boas pagadoras de dividendos. A estratégia, mantida há mais de 50 anos, é sua marca pessoal como investidor no mercado acionário.

Luiz Barsi Filho, megainvestidor e presidente do CoreconSP (Conselho Regional de Economia de São Paulo)
Luiz Barsi Filho, 81; É vice-presidente do conselho de administração da Unipar Carbocloro, presidente do Conselho Regional de Economia e investidor profissional. Formado em Direito pela Faculdade de Direito de Varginha e em Economia pela Faculdade de Economia, Finanças e Administração de São Paulo. - Divulgação/Ações Garantem o Futuro

Cumprindo as ordens de isolamento social por causa da pandemia do coronavírus em um sítio da família, no interior de São Paulo, Barsi contou à Folha em troca de emails que acredita haver boas opções de papéis para quem quer investir na Bolsa agora, mas defende a necessidade de educação financeira e de um preparo econômico e psicológico para passar pela turbulência do mercado.

O senhor sempre deixou claro que considera importante investir em empresas que pagam bons dividendos. Essa ainda é uma estratégia válida ante o atual momento, no qual as empresas tendem a diminuir sua distribuição de lucros em prol de ter caixa suficiente para passar por esse período de crise?
Reduzir a estratégia apenas a empresas que paguem dividendos é um tanto quanto simplista. Não sou um caçador de dividendos a qualquer custo. Eu me torno parceiro de empresas que não apenas distribuem boa parte dos seus lucros, mas que também pertençam a setores perenes. O objetivo é a parceria de longo prazo. Isso implica manter a consistência ao longo do tempo.

O grande problema do brasileiro na hora de investir é o imediatismo. Não é assim que funciona na economia real para as empresas, que justamente em tempos de crise precisam se resguardar para sobreviver e garantir o dividendo futuro.

É exatamente em momentos de pânico, quando a queda nos preços das ações se torna tão exagerada, que os investidores deixam de fazer as contas.

Muitas empresas estão cotadas hoje em patamares que não víamos há muito tempo. Lá na frente vão dar resultados na forma de dividendos muito superiores a qualquer outra modalidade de investimento. Portanto, não só o momento atual é favorável à formação de uma carteira previdenciária, como reúne todas as condições ideais: boas empresas com ações a bons preços e que voltarão a pagar bons dividendos.

Como enxerga o atual momento da Bolsa brasileira? E a reação dos investidores a ele?
O momento é de oportunidade, mas, infelizmente, poucos estão preparados para passar por momentos de turbulência como este —tanto financeira quanto psicologicamente.

Não existe outra solução se não a educação financeira e, quanto a isso, tenho enxergado alguma reação nos últimos anos.

Recentemente, minha própria trajetória se tornou objeto desse movimento.

Minha filha, Louise, e outros dois sócios, Fábio e Felipe, fundaram o Ações Garantem o Futuro, mesmo nome do projeto que idealizei na década de 70 e que deu vida à estratégia que sigo há mais de 50 anos: a carteira previdenciária.

Nunca imaginei que meu legado ecoaria tão forte, quanto mais ter milhares de visualizações na internet.

A missão é justamente democratizar e desmistificar o investimento em Bolsa de Valores.

O senhor aproveitou o momento de circuit breaker, em março, para “ir às compras” na Bolsa? Quais ações comprou?
Sim, comprei tudo o que podia, inclusive empresas que antes não me interessavam, como Petrobras e Braskem, que estavam a preços interessantes. Fora isso, nenhuma novidade.

Comprei o que podia de ISA Cteep [de transmissão de energia], Unipar, Itaúsa, Banco Santander, Cemig e Klabin.

No período pré-crise do coronavírus, a Bolsa de Valores brasileira se aproximava dos 120 mil pontos. O senhor considera que aquela seria uma alta sustentável caso o vírus não tivesse acontecido?
Não. Inclusive, em algumas palestras, cogitei diversas vezes que a bexiga estava chegando no alfinete. Não sei mais do que ninguém e nem tenho vocação para futurólogo, mas 50 anos de mercado me ensinaram muitas coisas.

Toda vez que o investimento em ações se torna tão óbvio que qualquer um que não esteja na Bolsa é chamado de tolo, é sinal de que você está pagando caro.

Outro sinal é o dividend yield (indicador que mede a rentabilidade dos dividendos de uma empresa). Quando o retorno em dividendos começa a ficar comprimido, isto pode indicar que os preços das ações subiram desproporcionalmente aos lucros e, portanto, à distribuição de dividendos.

O gestor de um grande fundo, na época, havia comentado que a entrada do investidor pessoa física na Bolsa poderia causar uma “bolha” em momentos de turbulência, uma vez que aqueles que não estavam acostumados com risco poderiam vender papéis abruptamente em momentos de turbulência. O que o senhor pensa sobre o assunto?
Respeito muitíssimo o Luiz Stuhlberger, é uma figura importante no mercado e, neste quesito, estávamos alinhados. Infelizmente, o excesso de otimismo pode levar ao excesso de confiança. Perder dinheiro na Bolsa é muito fácil, basta investir o que você não tem, ou seja, se alavancar. Quanto maior o salto, pior a queda.

Como o atual ambiente político e de crise do coronavírus influenciam sua decisão na compra de papéis?
Já sobrevivemos a outras crises, como a do Collorvírus, FHCvírus, Lulavírus, Dilmavírus. Sobreviveremos a mais este, sairemos mais forte como sociedade e é isto que importa. Se estes ruídos influenciarem nos preços das ações, ótimo, poderei investir nas mesmas boas empresas por muito menos.

Como está distribuído o seu patrimônio hoje? O senhor ainda recomenda a compra de ações? Quais as empresas que o senhor enxerga como oportunidade hoje?
Eu não recomendo, apenas falo abertamente minhas opiniões. Se o investidor estiver disposto a estudar e concordar comigo, ótimo.

Meu patrimônio hoje está distribuído basicamente em ações, é o melhor investimento que conheço.

Na “perda fixa” [como ele chama o investimento em renda fixa] ficam apenas os recursos provenientes dos meus dividendos, que uso como caixa. Não fiz nenhuma compra significativa desde o último circuit breaker porque não acredito nesta alta das últimas semanas.

Estou aguardando os resultados do primeiro trimestre, é nisso que baseio a minha tomada de decisões.

Quando pequeno, o sr. chegou a ser engraxate e a morar em um cortiço, no Brás. Começou a investir na Bolsa com o que sobrava de seu salário na época, quando começou a trabalhar em uma corretora. Quando e como percebeu que a melhor estratégia para aumentar seu patrimônio seria investir em boas empresas que pagavam bons dividendos?

Via a minha volta pessoas muito melhor de vida do que eu especulando. Ganhavam o carro em um dia e, no outro, não tinham dinheiro para pôr gasolina.

Não comecei a investir na Bolsa para ficar rico, mas para nunca mais voltar a ser pobre. Simplesmente me espelhei no que os empresários bem-sucedidos fazem, eu investi em negócios.

Todos eles foram vitoriosos porque abriram um negócio sólido e viveram de seus lucros. Eu fiz exatamente a mesma coisa, mas com um terço do trabalho que eles tiveram.

Por que vou abrir uma fábrica de celulose se posso ser sócio da família Klabin, que faz isso com competência por mais de 100 anos?

Por isso digo que o que eu fiz é replicável para qualquer um, basta escolher as parceiras certas e investir com paciência e disciplina.

Chegou a alocar dinheiro em outros tipos de investimentos?

Sim. Já tive diversos imóveis e, certa vez, há muito tempo, em um fundo imobiliário, para ajudar meu gerente. Nunca mais, são péssimos investimentos.

Se seu objetivo é acumular patrimônio suficiente, que te gere uma renda digna, não há investimento melhor do que as ações.

O que o investidor deve considerar se quiser adotar essa estratégia? Como fazer as melhores escolhas?

Antes de mais nada, investimento em Bolsa de Valores só deverá ser realizado com os recursos que não serão necessários no curto prazo —de fato aquele dinheiro destinado para a sua aposentadoria ou qualquer outro objetivo de longo prazo.

Partindo dessa premissa, a estratégia de carteira previdenciária só fará sentido se as empresas dentro dela sobreviverem pelos próximos 20, 30 ou 40 anos. Como garantir que isso ocorra? Olhando apenas para setores perenes, que costumo chamar de “à prova de balas”, cujo produto ou serviço seja tão essencial para a sociedade e para a economia que sua demanda será sempre crescente ou pelo menos estável em tempos de crise.

São eles: bancos, seguros, telecomunicações, saneamento e energia.

O segundo passo é selecionar quais empresas dentro destes setores se encaixam melhor. Pare e reflita: o que você faria ao se tornar sócio de um negócio? Quais quesitos você analisaria?

Terceiro, o que a empresa faz, quais as características desse negócio, sua rentabilidade, seus concorrentes, quem são os outros sócios, enfim, você se empenha em conhecer profundamente tudo que te interessa.

Quarto, você avalia se esta boa empresa é um bom investimento. Isto só ocorrerá se o seu preço for atrativo e sua distribuição de proventos satisfatória.

Se uma ação não me retorna no presente ou não me dá indícios de que um dia retornará no mínimo 6% ao ano em dividendos, eu descarto.

Quão longo deve ser o prazo que o investidor precisa pensar para alocar esses recursos?

Longo o suficiente para gerar uma renda satisfatória. Suponha que uma empresa tenha o histórico de pagar R$ 1 por ação. Se seu objetivo for conquistar uma renda anual de R$ 60 mil, você precisará então de 60 mil ações.

Isso poderá te custar R$ 600 mil se cada ação custar R$ 10 ou R$ 1,2 milhão se esta mesma ação for comprada por R$ 20.

Se o investidor puder investir apenas R$ 1.500 por mês, chegará ao seu objetivo em 33 anos no primeiro exemplo, e em 66 anos no segundo exemplo.

Por isso, o preço é tão importante e momentos como o atual são oportunidades.

Você pode comprar ações que valem R$ 20 por R$ 5 e assim chegar ao seu objetivo em número de ações mais rapidamente, com os mesmos recursos.

O investidor precisa exorcizar seu objetivo em valor de patrimônio. Eu olho a rentabilidade da minha carteira, por exemplo, uma vez ao ano.

O que realmente importa é a quantidade de ações.

Quais as principais dicas que o senhor daria para os investidores agora?

Digo o mesmo que repito há mais de 50 anos: controle seu ego e invista com humildade. Se você se aventurar a tentar adivinhar para onde o mercado vai, você corre grandes chances de perder dinheiro.

Pouco importa para onde irá o índice, afinal você não investirá no mercado, mas investirá em empresas.

Foque no longo prazo e tenha cautela para escolher suas parcerias.

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