Descrição de chapéu The Wall Street Journal

Reabertura econômica após coronavírus será frágil, parcial e lenta

De companhias aéreas a montadoras, empresas planejam se reconfigurar; o novo normal será diferente de tudo

Los Angeles, Chicago e Houston | The Wall Street Journal

A Walt Disney Co. atingiu uma espécie de marco do coronavírus no mês passado, quando reabriu uma parte do Disney Resort em Xangai, na China, porque a pandemia começou a recuar no país.
Mas uma viagem à Terra do Amanhã talvez nunca mais seja a mesma.

Os hóspedes do resort em Xangai devem usar máscaras o tempo todo, removendo-as apenas para comer. Horários e capacidade são limitados. E para entrar os visitantes devem se submeter a uma verificação de temperatura e apresentar um código QR controlado pelo governo em seu telefone, indicando que não têm o vírus.

Executivos em todo o mundo que reformularam rapidamente suas operações quando o coronavírus atacou, e os políticos que os levaram a fazer isso, agora estão enfocados em reiniciar a economia e seus próprios negócios. Esse reinício, de acordo com entrevistas com líderes de diversos setores, sugere que a volta ao normal será algo muito diferente.

O ressurgimento nas próximas semanas e meses será instável, frágil e parcial —e um pouco distópico, com frequentes checagens de temperatura corporal, maior monitoramento de funcionários e clientes e, potencialmente, exames de sangue para determinar se os trabalhadores têm provável imunidade ao vírus.

Autoridades e líderes empresariais preveem que as operações não retornarão totalmente ao normal até que uma vacina eficaz chegue ao mercado, prazo estimado em pelo menos um ano.

Algumas empresas poderão trazer de volta os funcionários de escritório em grupos alternados, para permitir o distanciamento social em espaços sem divisórias. As redes de restaurantes poderão operar com meia capacidade, instalando escudos de acrílico entre as mesas, enquanto as lojas poderão acabar com as amostras de cosméticos e higienizar os itens depois que os clientes os experimentarem. A liga principal de beisebol discutiu uma temporada sem espectadores, realizada em uma parte do país onde ela poderá basicamente sequestrar os jogadores por semanas a fio.

"Quando, onde e em que etapas fazê-lo", disse Rich Lesser, executivo-chefe do Boston Consulting Group, que conversou com vários presidentes sobre esse assunto. "É muito importante."

De várias maneiras, as empresas estão à mercê dos governos locais e nacionais para garantir que a reabertura não revigore o vírus, que até agora infectou quase 1,8 milhão de pessoas em todo o mundo e causou pelo menos 110 mil mortes. Programas de teste e rastreamento em larga escala se tornarão a norma, colocando a pessoa média sob um escrutínio muito maior do Estado.

O governo federal dos Estados Unidos ainda não lançou uma estratégia nacional de teste e rastreamento para identificar e isolar os portadores do vírus e seus contatos, embora alguns governos estaduais estejam discutindo isso. Muitos outros países desenvolvidos estão colocando esses programas no centro de seus esforços para manter o vírus sob controle, usando a tecnologia para identificar pessoas em risco de infecção. Um terço da população da Islândia já baixou um novo aplicativo aprovado pelo governo que usa GPS para rastrear usuários, que poderá dar às autoridades acesso a seus dados e contatos caso apresentem resultados positivos para o vírus.

A China conseguiu sair do confinamento graças a seus esforços agressivos para localizar e pôr em quarentena os infectados, embora tenha usado políticas de isolamento draconianas que as democracias acham difícil adotar.

As próprias empresas têm um papel a desempenhar, e muitas estão planejando fazer sua parte. Dezenas de empresas notificaram a Administração de Medicamentos e Alimentos dos EUA (FDA) de que estão desenvolvendo testes que indicam se alguém já teve —e provavelmente é imune ao— coronavírus, embora alguns esforços iniciais tenham encontrado obstáculos em outros países.

"A capacidade de teste, que ainda precisamos desenvolver, será a ponte de onde estamos hoje para a nova economia", disse o governador de Nova York, Andrew Cuomo, na quarta-feira (8). "Será uma transição baseada em testes para a nova economia."

As principais companhias aéreas estão discutindo a viabilidade de fazer que os passageiros se submetam a verificações de temperatura antes de embarcar nos voos. Ainda não está claro se as companhias ou a segurança do aeroporto assumiriam essa tarefa. Há duas semanas, o American Airlines Group Inc. começou a perguntar aos passageiros frequentes e aos principais clientes corporativos o que seria necessário para deixá-los em segurança para voar novamente. A resposta deles? Aviões limpos.

A companhia aérea está desinfetando as cabines com maior frequência, entre outras medidas; agora, parte de sua tarefa é garantir que os clientes saibam o que ela está fazendo, disse Kurt Stache, vice-presidente sênior de experiência do cliente na American Airlines. Ela também está analisando como limitar o contato entre os viajantes durante o embarque e o voo.

Os passageiros poderiam pegar suas próprias bebidas e lanches ao embarcar pelas pontes de acesso, nos voos mais curtos. A tradição de comissárias de bordo servindo nozes quentes em bandejas na primeira classe poderá se tornar uma relíquia de épocas passadas.

Os clientes contatados pela American dizem acreditar que a crise recuará dentro de três a seis meses, e a metade dos clientes pesquisados disseram que considerariam voar novamente cerca de seis semanas após a dissipação do vírus.

As indústrias reorganizaram os espaços nas fábricas e implementaram processos como turnos de trabalho, ou pedir que os funcionários se revezem para almoçar em seus carros, evitando a aglomeração em refeitórios, práticas que poderão se tornar padrão à medida que mais fábricas voltem a funcionar.

A Tyson, maior empresa de carnes dos EUA em vendas, está instalando rastreadores de temperatura em suas fábricas em todo o país e mandando para casa os trabalhadores com possíveis sintomas da Covid-19, disse Hector Gonzalez, chefe de recursos humanos da Tyson nos EUA. Os termômetros poderão permanecer no local depois da pandemia, disse ele, ajudando a reduzir resfriados e gripes entre os funcionários.

"Eles poderão ser uma vantagem que não tínhamos antes", disse.

Quando as linhas de montagem de automóveis americanas da Toyota Motor Corp. forem reiniciadas, provavelmente rodarão em velocidade mais lenta do que o normal devido à queda acentuada na demanda do consumidor. A desaceleração também ajudará a manter o distanciamento social nas fábricas, disse Chris Reynolds, administrador-chefe de fabricação da divisão americana da empresa.

A montadora japonesa, que começou a produzir protetores faciais enquanto suas linhas de montagem estão paradas, integrará aos negócios essa iniciativa de equipamentos de proteção individual emergenciais, disse Reynolds.

A Toyota também está testando protocolos como exames de saúde no local para trabalhadores envolvidos na produção de suprimentos médicos que poderão ser ampliados quando a empresa retomar a produção de automóveis. "Nunca desperdiçamos um programa piloto", afirmou.

A empresa consideraria o teste de anticorpos para os trabalhadores, se necessário, mas acha difícil sua implementação, disse Reynolds.

"Ele significa essencialmente colher amostras de sangue dos membros da nossa equipe", disse ele. "É um pouco mais intrusivo do que colocar um termômetro na testa e fazer algumas perguntas."

A General Motors está considerando várias opções para testar os trabalhadores contra o vírus, e prioriza os testes com retorno mais rápido dos resultados, disse Jim Glynn, chefe global de segurança no trabalho da montadora. Isso pode incluir testes de anticorpos, disse ele.

"Se for escalonável, fácil, não invasivo e as pessoas estiverem dispostas a fazê-lo, é claro que descobriremos como implementá-lo", disse Glynn sobre o teste de anticorpos.

Alguns planos parecem de ficção-científica. A Liga Principal de Beisebol está explorando a ideia de organizar alguma forma de temporada de jogos estabelecendo um bioma, ou sistema ecológico fechado, na área de Phoenix e isolando os jogadores e outros atores essenciais, segundo várias pessoas inteiradas do assunto.

Os jogos seriam realizados no Chase Field, no Arizona Diamondbacks, no centro de Phoenix, nos locais de treinos de primavera nas proximidades e em campus das universidades locais. A liga afirmou em comunicado que, embora tenha discutido a ideia de realizar jogos em um único local, "não decidimos por essa opção nem desenvolvemos um plano detalhado".

Muitas operações multinacionais estão procurando um manual nas suas unidades chinesas.

Os executivos da Starbucks nos EUA mantiveram conversas com chefes da divisão chinesa da empresa, a partir do final de janeiro, para entender a propagação do vírus por lá. Em fevereiro, a cadeia de café importou os procedimentos que vinha adotando na China para os EUA, incluindo limpeza intensificada, pagamento de funcionários durante a quarentena e promoção de ofertas delivery, antes de fechar o serviço de refeições na maioria de suas 8.870 lojas próprias no mês passado.

Mais de 95% das lojas da empresa na China agora estão abertas com horário limitado e assentos reduzidos, restrições que a Starbucks também poderia implementar nos EUA, quando retornar ao serviço mais normal. A Starbucks China "basicamente criou um modelo que agora estamos usando em todo o mundo", disse o executivo-chefe, Kevin Johnson.

A atração da Disney em Xangai pode oferecer algumas lições para os outros parques temáticos da empresa. A Disneyland e o Walt Disney World já estão fechados há mais dias do que todos os fechamentos da história somados. A Disney está avaliando várias mudanças em suas operações em parques globais antes de reabrir ao público, incluindo verificações de temperatura para os visitantes, de acordo com pessoas familiarizadas com a situação.

"Para retornar a uma aparência normal, as pessoas terão que se sentir confortáveis e seguras", disse Robert Iger, presidente-executivo e ex-diretor-executivo da Disney, em entrevista à Barron's, discutindo planos preliminares de reabrir em outros lugares. "Nós nos perguntamos: vamos nos preparar para um mundo em que nossos clientes exijam que examinemos todos? Mesmo que isso crie um pouco de dificuldade, como demorar um pouco mais para as pessoas entrarem."

Empregadores com grandes forças de trabalho em escritórios estão pensando em maneiras de trazer os funcionários de volta sem aumentar o contágio.

"Já estamos recebendo muitas perguntas dos clientes sobre 'como criar esse distanciamento físico com nossos funcionários', especialmente em planos abertos, onde eles podem ficar bem próximos", disse Janet Pogue McLaurin, diretora da Gensler, empresa global de design e arquitetura.

Algumas empresas poderão trazer de volta os funcionários de escritório em ondas, para manter os números baixos, ou incentivar os funcionários a trabalhar em casa alguns dias por semana em rodízio, permitindo a "desdensificação", segundo ela.

A empresa de corretagem e serviços imobiliários Cushman & Wakefield, que administra 74 milhões de metros quadrados de imóveis na China, criou um manual de 300 páginas sobre a reabertura de escritórios com segurança, incluindo conselhos para todas as partes do dia de trabalho desde o momento em que um funcionário sai de casa, disse o executivo-chefe, Brett White.

O escritório da Cushman em Amsterdã (Holanda) está testando uma configuração de local de trabalho projetada para o distanciamento social. No "Escritório de 1,80 Metro", escudos transparentes separam as mesas, marcadores direcionam o tráfego de pedestres e forros para mesas que captam os germes podem ser descartados quando o trabalhador vai embora. "Nas próximas quatro, seis ou oito semanas, quando as pessoas voltarem ao trabalho, as empresas não terão tempo ou capacidade de modificar os escritórios", disse White.

Amol Sarva, executivo-chefe da empresa de escritórios flexíveis Knotel, disse que planeja adicionar recursos ao aplicativo da empresa para locatários de escritórios, que dariam aos empregadores a opção de seguir alguns movimentos dos funcionários e rastrear seus contatos para evitar a propagação de doenças.

"A segurança mudou para sempre após o 11 de Setembro, e agora isso vai acontecer no local de trabalho", disse Sarva.

Enquanto as empresas que cortaram parte da força de trabalho pensam em contratar pessoal para a recuperação, Lesser, do BCG, disse que é provável que comece recontratando os funcionários que demitiram. Como a economia não vai crescer tão depressa quanto antes, muitas dessas pessoas voltarão, ele previu. "Não haverá tantas vagas que os trabalhadores possam escolher novos empregadores", afirmou.

Fora do trabalho, rituais como jantar e ver um filme ou viagens de compras serão retomados, embora de forma bastante alterada.

A cadeia de churrascarias Texas Roadhouse Inc. provavelmente reabrirá com capacidade reduzida por meio de assentos escalonados, de acordo com Travis Doster, porta-voz da rede em Louisville. A empresa poderá instalar divisórias de plexiglás ou madeira entre as mesas e exigir que os clientes aguardem a vez do lado de fora ou permaneçam em seus carros, explicou ele.

"Você simplesmente não sabe como as pessoas vão voltar", disse Doster.

O executivo-chefe da Panera Bread, Niren Chaudhary, disse a seus funcionários durante uma reunião virtual da empresa na quarta-feira que a marca "fast-casual", que dependia em grande parte de clientes que se alimentavam no local, precisa encontrar novas fontes de receita. "Teremos que reconstruir com muito cuidado a marca para um novo mundo", afirmou.

A cadeia planeja manter os negócios junto à calçada iniciados em resposta ao coronavírus, junto com os mercados improvisados que vendem itens básicos como pão e leite e produzir 90% de seus cafés —com opções de entrega. A rede de 2.200 unidades pertencente à JAB, empresa controladora da Krispy Kreme, também está considerando a construção de locais com áreas de refeições menores para dar mais espaço aos prováveis maiores negócios de delivery.

Os comensais no restaurante Kith/Kin, em Washington, D.C., poderão encontrar menus descartáveis e talheres envoltos em plástico, em vez de tecido, disse o chefe Kwame Onwuachi. Cartazes no restaurante vão detalhar como as superfícies são higienizadas. Os garçons poderão usar luvas na sala de refeições.
"Vamos precisar de mais transparência em nossas práticas", disse Onwuachi.

Mark O'Meara diz que espera abrir seus dois cinemas independentes em Fairfax, na Virgínia, até junho ou julho. Além da limpeza intensificada, ele está considerando limitar a capacidade a 50% na reabertura. Como os principais estúdios de Hollywood tiraram muitos dos títulos altamente aguardados do calendário de verão, O'Meara diz que está aberto a preços flexíveis por um curto período de tempo, para atrair espectadores a assistir filmes menos divulgados, embora ele não possa tomar a decisão por conta própria.

"Estamos pensando em fazer coisas que nunca pensamos", disse O'Meara.
Tim Leiweke, executivo-chefe do Oak View Group, que opera e aconselha os principais locais de shows e esportes em todo o mundo, diz que "o saneamento e a limpeza das instalações serão um problema contínuo para o resto da minha carreira".

Os locais adicionarão um novo turno para higienizar os locais depois que os zeladores terminarem a limpeza após os eventos, e transações sem dinheiro e com barreiras de proteção em todos os pontos de compra serão a norma, disse ele. Alimentos e mercadorias serão vendidos "para viagem".
Os sistemas escolares e faculdades estão planejando cenários para um retorno esperado ao campus no outono, se não antes. David Greene, presidente do Colby College, faculdade particular de ciências humanas em Waterville, no Maine, com 2.000 estudantes de graduação, disse que recentemente começou a considerar como a instituição poderia operar se a ordem de distanciamento social continuar no futuro.

"Diminuímos o número de pessoas no campus? Isso significa mais aulas online? Estamos nos planejando para toda e qualquer coisa, incluindo um tipo muito diferente de ano no próximo ano", disse Greene.
Colby teve discussões iniciais sobre a necessidade de dormitórios para acomodar ocupantes solteiros nesse cenário, ou de pedir que os estudantes vão ao campus para módulos de curto prazo, alternando os alunos dentro e fora do campus.

"Nossos alunos vêm de 90 países diferentes e de todos os Estados", afirmou. "Não é tão simples de imaginar."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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