Retomada pode aumentar desigualdade nos EUA

Categorias de trabalhadores mais expostas ao coronavírus são as formadas pelos latinos e negros

Washington | The New York Times

Os esforços para reiniciar rapidamente as atividades econômicas trazem o risco de dividir ainda mais os americanos em dois grandes grupos, separados por linhas socioeconômicas: as pessoas que têm o poder de controlar sua exposição ao surto do coronavírus e as pessoas que se veem forçadas a escolher entre possivelmente adoecer ou sofrer devastação financeira.

As autoridades federais e estaduais dos Estados Unidos estão longe de contar com a capacidade de teste necessária para rastrear e limitar a difusão do vírus, e ainda não existe uma vacina. Mas alguns estados já estão reabrindo, instados pelo presidente Donald Trump, que está ansioso para que a economia dos Estados Unidos retome as atividades.

As pessoas que têm salários mais baixos, nível de escolaridade menor e cujos empregos não permitem trabalho remoto enfrentam uma escolha sombria se os estados suspenderem suas restrições e os empregadores ordenarem que voltem ao trabalho: se expor à pandemia ou correr o risco de perder o emprego.

As categorias de trabalhadores mais expostas a essa situação são as formadas pelos latinos e negros, ainda que incluam também trabalhadores brancos de baixa renda.

Os governadores da Geórgia e da Carolina do Sul começaram a autorizar algumas empresas a reabrir, ainda que ambos os estados continuem a registrar novos contágios e o que o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês), tenha definido a difusão do vírus em suas comunidades como “generalizada”. Colorado, Minnesota, Mississipi e Ohio também estão permitindo que algumas empresas recomecem a operar.

Nem todas as empresas decidirão reabrir mesmo que estejam autorizadas a fazê-lo. Muitas optarão por se manterem fechadas , temendo que não recebam clientes suficientes para justificar o custo de reabrir.

Rashad Robinson, presidente da Color of Change, uma organização que defende a justiça racial, disse que o governador da Geórgia havia “selecionado todo um grupo de empresas nas quais pessoas negras trabalham e das quais pessoas negras são clientes”. Para os trabalhadores e clientes dessas empresas, a decisão “é uma absoluta sentença de morte”.

Ainda que possam enfrentar riscos maiores em caso de reabertura, um grupo pequeno mas significativo de trabalhadores financeiramente prejudicados pela paralisação está reivindicando voltar ao trabalho. Um em cada 11 americanos, de acordo com dados de um levantamento nacional pela Civil Analytics, uma empresa de pesquisas, perdeu o emprego, teve sua jornada de trabalho reduzida ou perdeu renda —ou tem um parente nessa situação— durante a pandemia, mas ainda assim se opõe a paralisações compulsórias.

Simon Mongey e Alex Weinberg, economistas da Universidade de Chicago, divulgaram um estudo no mês passado sobre os americanos cujos empregos requerem que estejam fisicamente próximos de outras pessoas, ou não permitem que trabalhem em casa. Eles constataram que a presença de pessoas não brancas, de baixa renda, nascidas fora dos Estados Unidos e desprovidas de diplomas universitários era desproporcional entre esses trabalhadores.

Os americanos negros e de origem latina têm menos capacidade de enfrentar desemprego prolongado do que os brancos, porque entraram na crise com rendas menores e patrimônio menor. O domicílio negro mediano tinha patrimônio de pouco menos de US$ 18 mil em 2016, de acordo com estatísticas do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, enquanto o domicílio hispânico mediano tinha patrimônio de pouco menos de US$ 21 mil. O domicílio branco mediano tinha patrimônio quase 10 vezes maior: US$ 171 mil.

Em 2018, o domicílio hispânico típico teve renda equivalente a 75% da renda de um domicílio branco, de acordo com dados de recenseamento. O domicílio negro típico tinha renda equivalente a 60% da renda de um domicílio branco típico, e sua renda ainda não havia retornado ao patamar anterior à crise financeira de 2008.

Cálculos realizados pelo Centro de Pesquisa Econômica e Política determinaram que muitos americanos negros e latinos tinham representação desproporcional entre os trabalhadores “essenciais” do combate à pandemia, como balconistas de varejo e motoristas de entregas. No país, cerca de 20% dos trabalhadores negros eram empregados pelo setor de saúde no ano passado, ante 12,5% dos brancos, de acordo com números do Birô de Estatísticas do Trabalho.

“Poderiam surgir efeitos imensos e devastadores sobre a renda, relacionados à depressão que está evoluindo”, disse William Darity Jr., um dos principais estudiosos da discriminação econômica nos Estados Unidos e economista da Escola Sanford de Política Pública, na Universidade Duke. A desigualdade, ele disse, “vem sendo horrenda nos últimos anos, e só posso imaginar que as disparidades vão piorar”.

Tradução de Paulo Migliacci

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