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Coronavírus

Vírus expõe a fragilidade do contrato social, diz Financial Times

O modo como travamos guerra ao vírus beneficia alguns às custas de outros, afirma o jornal

Em editorial, o jornal Financial Times, de Londres, afirma que os bloqueios criados para controlar o avanço do novo coronavírus atingem os mais jovens e os trabalhadores mais vulneráveis.

"O modo como travamos guerra ao vírus beneficia alguns às custas de outros", afirma.

O jornal defende que, devido à pandemia da Covid-19, os governos terão de aceitar um papel mais ativo na economia e que a redistribuição estará novamente na agenda. "Os privilégios dos idosos e dos ricos serão questionados."

Motociclista faz delivery com criança sem máscara na garupa
Motociclista faz delivery com criança na garupa em Sanna, no Iêmen - Mohamed al-Sayaghi - 10.abr.20/Reuters

Se há um lado bom na pandemia da Covid-19, é que ela injetou um sentido de união em sociedades polarizadas. Mas o vírus, e a paralisação econômica necessária para combatê-lo, também projetam uma luz forte sobre as desigualdades existentes —e até criam novas.

Além de derrotar a doença, o grande teste que todos os países enfrentarão em breve é se os sentimentos atuais de objetivo comum moldarão a sociedade após a crise. Como os líderes ocidentais aprenderam com a Grande Depressão, e depois da Segunda Guerra Mundial, para pedir o sacrifício coletivo é preciso oferecer um contrato social que beneficie a todos.

A crise de hoje está expondo como muitas sociedades ricas estão aquém desse ideal. Assim como a luta para conter a pandemia expôs o despreparo dos sistemas de saúde, a fragilidade de muitas economias é exposta conforme os governos se debatem para evitar falências em massa e enfrentar o desemprego maciço. Apesar dos apelos inspiradores por mobilização nacional, realmente não estamos todos juntos nisso.

Os bloqueios econômicos impõem o maior custo aos que já vivem em pior situação. Da noite para o dia, milhões de empregos e ganha-pães se perderam nos setores de hotéis, lazer e outros relacionados, enquanto os trabalhadores mais instruídos, melhor pagos, muitas vezes enfrentam apenas o incômodo de trabalhar em casa. Pior, os empregados que ganham menos e ainda podem trabalhar com frequência estão arriscando a vida —como cuidadores e profissionais de apoio à saúde, mas também repositores em lojas, motoristas de entregas e faxineiros.

O orçamento de apoio extraordinário do governo, embora necessário, de certa maneira vai piorar as coisas. Os países que permitiram a emergência de um mercado de trabalho irregular e precário estão achando especialmente difícil canalizar a ajuda financeira para os trabalhadores com emprego inseguro. Enquanto isso, o vasto afrouxamento monetário pelos bancos centrais ajudará os ricos. Por trás disso tudo, os serviços públicos subfinanciados estã o rachando sob o peso das políticas de crise.

O modo como travamos guerra ao vírus beneficia alguns às custas de outros. As vítimas do coronavírus são majoritariamente pessoas idosas. Mas as maiores vítimas dos bloqueios são os jovens e ativos, que são solicitados a suspender seus estudos e dispensar uma renda preciosa. Os sacrifícios são inevitáveis, mas cada sociedade deve mostrar como vai oferecer recompensa aos que suportam o maior peso dos esforços nacionais.

Reformas radicais —reverter a direção política predominante das últimas quatro décadas— terão de ser postas sobre a mesa. Os governos terão de aceitar um papel mais ativo na economia. Eles devem ver os serviços públicos como investimentos, e não despesas, e buscar maneiras de tornar os mercados de trabalho menos inseguros. A redistribuição estará novamente na agenda; os privilégios dos idosos e dos ricos serão questionados. Políticas até recentemente consideradas excêntricas, como a renda básica e o imposto sobre a riqueza, deverão entrar na mistura.

As medidas rompedoras de tabus que os governos estão adotando para sustentar as empresas e as rendas durante o bloqueio são apropriadamente comparadas ao tipo de economia de guerra que os países ocidentais não experimentavam havia décadas. A analogia ainda vai além.

Os líderes que ganharam a guerra não esperaram pela vitória para planejar o que viria depois. Franklin Roosevelt e Winston Churchill emitiram a Carta Atlântica, que definiu o rumo da ONU, em 1941. O Reino Unido publicou o Relatório Beveridge, seu compromisso com o Estado do bem-estar universal, em 1942.

Em 1944, a Conferência de Bretton Woods forjou a arquitetura financeira do pós-guerra. O mesmo tipo de antevisão é necessária agora. Além da guerra de saúde pública, os verdadeiros líderes se mobilizarão hoje para ganhar a paz.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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