Descrição de chapéu
Sergio Werlang

Custos imediatos do distanciamento social e seus benefícios

A questão que se põe é: devemos prorrogar ou encerrar o isolamento o quanto antes?

No dia 13, o Ministério da Economia divulgou nota técnica com uma estimativa do custo imediato do distanciamento forçado como foi adotado na média de abril. Na hipótese de o isolamento continuar como no mês passado, a nota informativa (“Impactos Econômicos da Covid-19”) calcula que há uma perda de renda (perda de PIB) de R$ 20 bilhões por semana de confinamento.

O texto do ministério detalha a metodologia, que, pela descrição, parece ser bastante robusta. A nota informativa tenta também estimar efeitos mais duradouros, mas nesse caso há apenas hipóteses de custos alternativos, sem uma conclusão precisa.

O ponto dessas projeções dos impactos mais longos é apenas dizer que o custo total será maior que o imediato. E com certeza isso vai ocorrer, mas no momento esses efeitos são mais difíceis de medir.

A questão que se põe é: esse custo imediato é alto? Devemos prorrogar ou encerrar o isolamento o quanto antes?

Para responder a essa pergunta, temos que estimar em valores monetários o custo da vida, por mais estranho que isso possa parecer.

Aqui vou utilizar duas abordagens para a mensuração, que dão valores muito distintos, para enfatizar o problema. O método mais tradicional de calcular o valor médio da vida de uma pessoa é o “valor estatístico da vida”.

A ideia por trás dessa forma de mensuração é usar as remunerações médias em profissões que são mais arriscadas. As pessoas podem escolher trabalhar em profissões que têm taxas de mortalidade distintas.

Para aceitar um trabalho mais arriscado, um indivíduo requer uma remuneração maior. A partir da estimativa do aumento de salário requerido para trabalhar em uma profissão cuja probabilidade de morte seja maior, mede-se o “valor estatístico da vida”.

Duas observações: 1) valores para uma vida dependem do PIB per capita do país; e 2) normalmente o valor estatístico da vida é bastante elevado, como, aliás, não é surpreendente.

As medidas para o valor no Brasil são pouco estudadas. No entanto, nos EUA isso é muito mais bem estabelecido. O valor usado por Eichenbaum, Rebelo e Trabandt (NBER 26.882) é US$ 9,3 milhões para 2019. O PIB per capita dos EUA em 2019 é de US$ 65 mil. Portanto o valor é 143 vezes o PIB per capita.

Essa proporção pode ser usada aproximadamente no Brasil. O PIB per capita no país (IBGE) em 2019 é R$ 34.533. Segue-se que uma aproximação para o valor estatístico da vida no Brasil é R$ 4,9 milhões (143 vezes o PIB per capita).

Um outro modo de medir o valor de uma vida é uma forma bem mecânica. Imagina-se que uma vida valha apenas sua contribuição média direta para o PIB, ou seja, o suficiente para gerar a renda per capita.

Usando um juro de longo prazo de 4,5% ao ano acima da inflação (NTN-B 2050), R$ 767.400 geram uma renda anual igual ao PIB per capita brasileiro (4,5% de 767.400 são 34.533).

Uma semana a mais de confinamento pode salvar um certo número de vidas. Quantas vidas os R$ 20 bilhões precisam salvar para justificar o prolongamento do isolamento por mais uma semana? Aqui isso depende do valor da vida que nossa sociedade enxerga.

Se estivermos mais próximos da visão norte-americana, teríamos o valor mais elevado, R$ 4,9 milhões, que resulta em 4.081 vidas por semana (20 bilhões/4,9 milhões). Pode-se dizer que os defensores do confinamento têm essa visão. Já se estivermos mais perto de uma noção mecanicista, 26.062 vidas deveriam ser salvas para termos o prolongamento do isolamento (20 bilhões/767.400).

O que isso nos permite concluir? Primeiro, tendo em vista que estamos apenas com dois meses de confinamento em comparação com outros países (China, 2,5 meses) e com os episódios da gripe espanhola nos EUA em 1918 (média de 88 dias), parece que precisamos estender pelo menos mais um mês, até meados para fins de junho.

Segundo, na semana de 11 a 17/5 houve aumento de 4.784 mortes. Portanto, para o grupo que dá valor elevado à vida, temos com certeza que manter o isolamento, até que o número de mortos caia consistentemente abaixo de 4.081 (depois de dois meses de isolamento severíssimo, Espanha e Itália reduziram o número de mortes para perto de 1.200 por semana).

Por outro lado, para aqueles que têm uma visão mais mecanicista, parece que o custo de PIB no Brasil está superior ao potencial de salvar vidas. Assim, defendem que o relaxamento é menos prejudicial como um todo para a sociedade.

Não há certo ou errado aqui. Pode ser que a população brasileira veja-se mais num extremo ou mais noutro. O importante é perceber o que está por trás de nossas decisões.

Sergio Werlang

Foi diretor de política econômica do Banco Central. Assessor da presidência e professor da FGV, é sócio da Tiba Assessoria.

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