Maio ensaia repetir maldição, mas Bolsa e dólar se recuperam

Ibovespa subiu 8,6% no mês, enquanto moeda americana recuou 1,8%

São Paulo

A maldição de maio não se repetiu em 2020. Após anos de fortes quedas na Bolsa e altas no dólar, o mês foi positivo para o mercado financeiro brasileiro mesmo em meio à pandemia de Covid-19.

Após encostar nos R$ 6 no início deste mês, o dólar teve primeiro maio de queda desde 2009, com recuo de 1,8% no período, a R$ 5,3370. O turismo está a R$ 5,62.

Operador da Bolsa de Valores de Nova York
Operador da Bolsa de Valores de Nova York; em maio, Bolsas acumulam alta em maio - Xinhua/Wang Ying

Este também foi o primeiro mês de queda da moeda em 2020. No ano, o dólar acumula alta de 33%, com o real sendo a moeda que mais se desvaloriza no mundo em 2020.

Em 2009, a moeda americana recuou 9% no mesmo mês, após fortes altas ao fim de 2008, na sequência da quebra do Lehman Brothers.

Desta vez, investidores realizaram ganhos após a forte alta da divisa na primeira metade do mês. Até 13 de maio, ela acumulou alta de 8,5% em relação a abril e foi ao recorde nominal (sem contar a inflação) de R$ 5,90 com a turbulência na política doméstica em meio à pandemia de coronavírus e novos conflitos entre China e Estados Unidos.

Desde a máxima, a moeda recua 9,60% com a aproximação de Legislativo e Executivo e o fim das dúvidas do mercado financeiro sobre a permanência do ministro Paulo Guedes (Economia) no governo de Jair Bolsonaro.

No início do mês, os ecos da saída de Luiz Henrique Mandetta do Ministério da Saúde e de Sergio Moro do Ministério da Justiça levaram investidores a temer a saída de Guedes. A ideia foi abandonada de vez após o vídeo da reunião ministerial de 22 de abril ser divulgado. Nele, o presidente reafirma a autonomia de Guedes.

Já o Ibovespa encerra o segundo mês positivo do ano, com alta de 8,6%, a 87 mil pontos, a maior valorização para o mês de maio desde 2009, quando o Ibovespa saltou 12,5%.

Em abril deste ano, o índice iniciou uma recuperação e subiu 10,25% após a queda de 29,9% em março, mês marcado por seis circuit breakers (paralisação das negociações após quedas de mais de 10% do Ibovespa) da Bolsa. Em 2020, porém, há perda de 24,4%.

"Ao contrário do que diz o famoso ditado 'venda em maio e vá embora' (sell in may and go away, em inglês), o movimento foi positivo e de forte alta das bolsas pelo mundo, mas recomendo aos investidores ficarem atentos aos sinais econômicos que ainda são muito fracos no Brasil", diz Cristiane Fensterseifer, analista da Spiti.

Ela destaca que os impactos da quarentena devem ser vistos nos próximos meses, ccom os resultados das empresas no segundo trimestre. "Há também o risco de novas ondas da doença em alguns países, após as aberturas maiores da economia e volta as atividades e convívio das pessoas", afirma Cristiane.

Em maio, investidores deram sequência às compras, antecipando uma recuperação na atividade econômica à medida que países saem da quarentena, com grandes pacotes de estímulo dos governos e dos Bancos Centrais dos EUA e da Europa.

“O mercado sempre vai tentar prever o que vai acontecer. Nos circuit breakers de março, ele antecipou uma recessão profunda. Agora, a flexibilização do distanciamento social tem um impacto na economia e o mercado viu isso como um excelente sinal”, diz Daniel Jannuzzi, especialista em finanças da Magnetis.

Europa e Estados Unidos retomaram parte das atividades no mês, enquanto o estado de São Paulo inicia um reabertura em junho, com a liberação de shoppings na capital.

Também contribuiu para o viés positivo do mercado de ações no mês a queda maior que o esperado de Selic que foi de 3,75% ao ano para 3% ao ano, o que leva mais investidores à Bolsa e reduz a dívida das empresas no longo prazo.

Outro fator que impulsionou a bolsa foi a alta das matérias-primas que voltaram aos preços do início de março. O minério de ferro subiu 19% em maio e foi a US$ 102

O petróleo do tipo Brent (referência internacional) aumulou alta de 33% no mês, voltando a US$ 37,71 o barril. O WTI (referência nos EUA) saltou 61,6%, a US$ 35,32.

A volta dos conflitos entre China e Estados Unidos, porém, limitaram os ganhos. O governo americano culpa os chineses pela pandemia de coronavírus, ameaçando impor novas restrições comerciais ao país.

Nesta sexta-feira (29), porém, o mercado teve um alívio após Trump não anunciar nenhuma medida econômica contra Pequim em seu discurso ao anunciar o rompimento dos EUA com a OMS (Organização Mundial da Saúde).

O temor de investidores a uma nova investida americana deu lugar a um tom positivo no mercado, levando o Ibovespa a virar para alta de 0,5%, a 87.402 pontos e o dólar para queda de 0,9%, a R$ 5,3370 na sessão.

Trump, contudo, disse que determinou a seu governo que inicie o processo para eliminar o tratamento especial concedido a Hong Kong em resposta aos planos da China de impor uma nova legislação de segurança para o território.

O presidente disse ainda que a China havia quebrado sua palavra sobre a autonomia de Hong Kong e que a ação chinesa contra a região era uma tragédia para o povo de Hong Kong, para a China e para o mundo.

Em Nova York, S&P 500 fechou em alta de 0,5%. No mês, subiu 4,5%. Já Dow Jones encerrou o rpegão estável, com uma valorização de 4,26% em maio. Nasdaq subiu 1,2% no pregão e 6,75% no mês.

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