Mercado se diz calejado com mudanças de ministros

Saída de Nelson Teich do Ministério da Saúde tem efeito reduzido nos ativos

São Paulo

A saída de Nelson Teich do comando do Ministério da Saúde nesta sexta-feira (15) teve pouco impacto no mercado financeiro.

Logo após a notícia de seu pedido de demissão, o dólar, que recuava 1% na mínima do pregão, a R$ 5,76, passou a subir 0,36%, e foi a R$ 5,8440. Logo em seguida, porém, a moeda reduziu ganhos.

Após o pronunciamento de Teich sobre sua saída, a cotação voltou a subir e fechou em leve alta de 0,3%, a R$ 5,8410. O turismo está a R$ 6,15. Na sessão, o real foi a moeda emergente que mais perdeu valor ante o dólar.

A Bolsa brasileira, que estava cotada a 78.852 pontos, com leve queda de 0,2%, foi a 77.426, um recuo de 2%. A desvalorização perdeu fôlego no início da tarde, mas volou a se acelerar após a fala do médico e o Ibovespa fechou em queda de 1,84%, a 77.556 pontos, menor patamar desde 24 de abril.

Esta é a terceira saída de um ministro do governo de Jair Bolsonaro em menos de um mês.

“Tínhamos uma tendência de pregão no zero a zero, e, com a saída do ministro, se definiu uma tendência mais negativa. Diferente das outras saídas, dessa vez o mercado não foi pego de surpresa. Não é a primeira vez que vemos troca dos ministros no governo, o que fez o mercado ficar um pouquinho mais calejado”, diz Ilan Arbetman, analista da Ativa.

Na semana, marcada pelos ecos da saída de Sergio Moro, ex-ministro da Justiça, do governo, o Ibovespa acumula queda de 3,4% e o dólar, uma alta de 1,7%, com o recorde nominal (sem contar a inflação) de R$ 5,90 na quarta (13).

“O mercado mexeu muito esta semana inteira por conta do caos político doméstico. A saída de Teich foi só a cereja do bolo. Não precisamos nesse momento de empurrões em direção ao abismo. E é isso o que o governo vem fazendo dia após dia. Teremos impacto dessa saída na semana que vem”, afirma Simone Pasianotto, economista-chefe da Reag Investimentos.

Teich é o segundo ministro a deixar a Saúde em meio à pandemia. Juntamente com o impasse sobre o isolamento social, divergências sobre a aplicação da cloroquina e da hidroxicloroquina em pacientes da Covid-19 foram um dos pontos que levaram à demissão de Luiz Henrique Mandetta, em 16 de abril.

Quando surgiram as primeiras notícias de que Mandetta seria demitido, o mercado reagiu com aversão a risco. O Ibovespa, que subia mais de 8% no pregão de 6 de abril, reduziu alta para 6,5% no fechamento.

No dia 23 de abril, quando a Folha antecipou o pedido de demissão de Moro, o dólar disparou 2% e fechou acima de R$ 5,50 pela primeira vez. A notícia fez o mercado financeiro brasileiro descolar das principais Bolsas globais, levando o Ibovespa a uma queda de 1,25%. No pregão seguinte, o dólar subiu 2,5% e foi a um terceiro recorde nominal (sem contar a inflação) seguido, a R$ 5,66.

“Acredito que, desde a saída do Mandetta, o Ministério da Saúde ficou um pouco de lado e perdeu um pouco da expressividade que tinha no início da pandemia. Seria um acontecimento mais importante caso relacionasse ministros mais diretamente ligados à economia”, diz Igor Cavaca, analista da Warren.

“O nome do Teich não era tão forte quanto o de Moro e o de Mandetta. Muitos o viam como alguém que se submeteria ao Bolsonaro e ele provou que não era bem assim, mas sua representatividade não era tão elevada. A saída do Mandetta foi muito mais representativa”, diz Henrique Esteter, analista da Guide.

A dois dias de completar um mês no cargo, Teich teve seu poder como ministro diminuído pelo presidente. A polêmica sobre o protocolo do uso da cloroquina no combate ao coronavírus, porém, foi considerada a gota d´água para a saída dele.

"Apesar de não chegar a ser uma surpresa, o pedido de demissão de Teich trouxe mais um capítulo para a questão da instabilidade política, aumentando assim a preocupação do investidor. O que será preciso ver agora é se essa decisão irá afetar a relação política do governo com a base que está montando junto com o Centro", diz Rafael Ribeiro, analista Clear Corretora.

Outro ponto que suavizou a aversão ao risco é a aproximação de Bolsonaro com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), apontam analistas.

"Voltamos a namorar. Está tudo bem com o Rodrigo Maia", disse Bolsonaro após se reunir com o deputado na quinta (14).

"A aproximação de Bolsonaro com Maia trouxe um alívio nas tensões e se esse elo ficar fraco mais uma vez deveremos ver o dólar voltar a rondar a casa de R$ 6,00 e o Banco Central terá que entrar ainda mais pesado, já que essa articulação política é vital para a agenda econômica", afirma Ribeiro.

No exterior, Bolsas fecharam no positivo. Em Nova York, Dow Jones subiu 0,3% e S&P 500, 0,4%. A Bolsa de tecnologia Nasdaq teve alta de 0,8%.

Na Europa, as Bolsas fecharam em alta, mas tiveram a pior semana desde março com o aumento das tensões entre Estados Unidos e China e as preocupações de que uma desaceleração econômica global possa durar mais do que se temia.

No Ibovespa, Vale escapou do viés negativo e subiu 0,7%, a R$ 48,05 com alta de 1,4% do minério de ferro na China.

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