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Trajetória de cinco investidores mostra como pandemia traz mais desafios para aplicações

Folha acompanha, desde janeiro, cinco pessoas e suas decisões de investimento

São Paulo

Com um histórico de juros altos e temor em relação ao descontrole da inflação, a maioria dos brasileiros sempre teve a tradição colocar dinheiro na poupança ou, no máximo, em título de renda fixa. Com a Selic, taxa de básica de juro da economia, despencando, e o IPCA, que mede a inflação oficial, flertando com aumento médio zero, os investidores locais se viram diante do desafio de diversificar as aplicações. Títulos públicos, fundos de investimentos e ações entraram no radar da maioria.

Para acompanhar os efeitos, na prática, dessa nova realidade, a Folha acompanha desde janeiro cinco investidores, em diferentes situações socioeconômicas, para uma série de reportagens sobre investimentos. Esta é a primeira delas.

Por causa da pandemia do coronavírus, o cenário que eles encontraram se tornou ainda mais atípico.

O ano que começou com um “agora vai” do mercado financeiro em relação ao crescimento do Brasil caminha para ser um dos piores da história no mundo, com risco de superar a grande depressão nos anos de 1930.

A Bolsa brasileira, que seguia em alta, passou por fortes quedas, muita volatilidade e teve saída recorde de investimento estrangeiro.

Atualmente, ninguém sabe como governos e empresas sairão do pós-pandemia.

Apesar da turbulência, os entrevistados não fizeram grandes mudanças na carteira. Acompanham e estudam o mercado e estão atentos aos riscos da renda variável e à importância da renda fixa, especialmente na reserva de emergência —idealmente, seis meses de gastos alocados em investimento de liquidez diária (que podem ser resgatados rapidamente).

Confira a seguir os relatos sobre como foi investir de janeiro a abril.

Bruno Nogueira, 25, gerente, amplia carteira de ações

Ao fim de de 2018, quando o Ibovespa subia com o otimismo de investidores acerca do recém-eleito governo de Jair Bolsonaro, Bruno reservou cerca de R$ 7.000 para começar a “brincar” com ações, como diz. Desde então, elevou as posições, priorizando retorno com dividendos das empresas no longo prazo.

Formado em administração, trabalha no LinkedIn na área de gerenciamento dos clientes e sustenta a casa. Sua esposa parou de trabalhar quando teve a filha do casal, hoje com sete meses.

Durante a turbulência do mercado financeiro, em fevereiro e março, não mexeu na carteira. Esperou a volatilidade acalmar e comprou mais ações. “No início de abril, separei cerca de R$ 5.000 para ações. Valor pequeno, para estudar o mercado”, diz.

Bruno Nogueira, 25, investe em ações desde 2018; na crise aproveita para comprar mais papéis - Jardiel Carvalho/Folhapress

Ele diz que o home office há 50 dias poupa a perda de tempo no trânsito e abre espaço na agenda. Como mora em Mauá, na região metropolitana de São Paulo, levava quase quatro horas no trem todos os dias para ir e voltar do escritório, no bairro de Pinheiros.

Com mais tempo, analisa ações e compra o que vê potencial, sem seguir recomendações de casas de análise. Foi assim que escolheu a Via Varejo, que dobrou de valor desde que ele adquiriu os papéis.

Seu plano é aumentar a exposição a ações de 5% para 15% a 20% do patrimônio. Como a situação econômica do país piorou, outro objetivo é ampliar a reserva de emergência de um para três salários.

Danilo Taverna, 25, pesquisador, teve perdas nos fundos

Focado em realizar o sonho da casa própria, Danilo tirou metade do dinheiro da poupança em 2017 e começou a diversificar os investimentos: 10% em fundos multimercado (que combinam diversos ativos de renda variável e fixa) e pós-fixados, e 90% em CDB. Aos poucos, foi aumentando a exposição ao risco. Hoje, tem a disposição oposta: 90% em fundos e 10% em CDB.

Com a queda de 30,4% do Ibovespa, alguns de seus fundos registram rentabilidade negativa. “Fiquei preocupado, mas não me desesperei porque diversifiquei os investimentos e já sabia que poderia ter perda em multimercado. Como tenho 75% do meu patrimônio em renda fixa, não foi uma perda tão grande.”

Danilo é pesquisador da USP, onde está próximo de concluir o mestrado em engenharia naval e oceânica. Até março, a bolsa de estudos da pós-graduação constituía 25% da sua renda.

Danilo Taverna, 25, viu seus fundos multimercado registrarem rentabilidade negativa na crise - Jardiel Carvalho/Folhapress

Além do término da bolsa, Danilo, que já ajuda a mãe a pagar as contas, teve que aumentar a assistência ao tio, que teve o contrato suspenso na crise do coronavírus.

“Ele se cadastrou para receber auxílio do governo, mas não conseguiu ainda”, diz.

Vinícius Fonseca, 25, gerente, observa o mercado na crise

Desde seu primeiro estágio, há dois anos, Vinícius investe. Como mora com a mãe, gerente de banco aposentada, o estudante de engenharia de produção consegue investir metade do salário da Amazon, onde é gerente de contas no varejo de livros.

Ele começou pelo CDB e depois migrou para o Tesouro Direto. “Queria investir, mas não sabia de nada. Comecei a estudar e aprendi que renda fixa era mais seguro,” afirma.

Em 2018, depois de consultar livros, vídeos e podcasts sobre o tema, começou a comprar ações, que compõem 50% de sua carteira. Outros 30% estão em fundos imobiliários e 20%, em Tesouro Selic.

O estudante tem ações de 11 empresas de diferentes setores e cotas em sete fundos imobiliários, dois adquiridos em janeiro. “Com a queda da Selic senti uma valorização mais forte dos meus ativos nos últimos anos e meus custos se mantiveram os mesmos”.

Vinícius Fonseca, 25, aproveitou a baixa da Bolsa para comprar ações da Petrobras e expandir sua carteira - Jardiel Carvalho/Folhapress

Com a baixa da Bolsa, Vinícius aproveitou para adquirir apenas algumas ações da Petrobras ao fim de março. “Não gosto muito dela, mas ficou barata”, diz.

A sua estratégia é de longo prazo, não vendeu nenhuma ação ou cota que comprou.

Valéria Souza, 50, agente de viagens, voltou para poupança

No começo do ano, com o Ibovespa em alta, Valéria se reuniu com amigos para montar um Clube de Investimento e “tentar ganhar uma graninha na Bolsa”, definiu ela.

O clube foi uma estratégia para garantir o investimento. Das demais vezes que tentou investir, acabou usando o dinheiro. A agente de viagens corporativas sustenta sozinha o filho, 25, que tem problemas de saúde, e o neto de 3 anos.

Em fevereiro, porém, o projeto de investimento coletivo não foi para frente. “Fiquei superempolgada em entrar em ações, mas a plataforma de investimento era um site de cassino. Parecia jogo do bicho, um negócio esquisito”, afirma.

Sua única aplicação agora é a poupança, que ela usa como conta-corrente. “É cômico o rendimento”. A poupança rende hoje 2,62% ao ano.

Com a crise do coronavírus, o seu setor foi um dos mais afetados. “Uma das nossas agências será fechada e, como sou a funcionária com menos tempo e menos clientes na casa, não sei o que será”, diz.

Aposentado José de Castro, 60, não consegue guardar

A poupança sempre foi o único investimento de Castro. “Não tenho muito dinheiro lá também, nunca deu para poupar quantias maiores. Só coloco para não ficar na conta e gastar. A poupança é para uma emergência, uma viagenzinha”, afirma.

Ele diz que nem acompanha o rendimento da poupança, porque sabe que é “muito pouco”. “Acho que a poupança sempre perdeu para a inflação. É só ver a alimentação, sobe sempre. O juro baixo é meio incoerente. Não cabe, empresas não estão investindo”, afirmou em janeiro.

Com mais de 36 anos de contribuição, o ex-gerente de lojas, conseguiu se aposentar com o benefício integral.

Nos três primeiros meses do ano, ele disse que não sobrava dinheiro para guardar. “Se sobrasse, adiantaria prestações da moto para quitar o financiamento”.

Agora, as prioridades são outras. Seu pai, 94, tem uma alfaiataria na galeria do rock —fechada desde 20 de março— e seu irmão é músico e está sem tocar nos bares desde março. “Ajudo, levando comida para eles”, afirma.

Entre as contas, o financiamento da moto, que termina em fevereiro de 2021, e o auxílio financeiro para a filha, que mora com a ex-mulher. “Não sobra muita coisa. Mês que vem, como vão adiantar o 13º da aposentadoria, vou ver se consigo guardar um pouquinho”.

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