Descrição de chapéu The New York Times

Apostadores entediados por coronavírus trocam esporte por mercado financeiro

Movimento das apostas esportivas caiu em 60% em março, ante fevereiro

Nova York | The New York Times

Quando o tênis de mesa russo ou beisebol sul-coreano não bastam para aplacar o desejo, alguns apostadores estão tentando a sorte no mercado de ações. E isso basta para movimentar o mercado, dizem analistas.

Steven Young sempre esteve envolvido com o esporte –como treinador, praticante ou espectador. E se estava assistindo a um jogo, bem, colocar algum dinheiro no resultado sempre tornou a partida mais interessante para um professor que vive nas cercanias de Filadélfia. Ele sempre fez apostas de valor pequeno, combinadas à constante reformulação de seus times nas ligas de fantasia.

Mas quando chegou a pandemia do coronavírus, todos os esportes que ele acompanhava pararam. E por isso ele se voltou a um dos poucos recursos que restavam para quem estava em busca de ação: a bolsa de valores.

Forçado a dar aulas online quando as escolas de seu distrito suspenderam as atividades, o professor de saúde e educação física tinha tudo de que precisava para entrar no mercado. “Porque tinha tempo, flexibilidade e oportunidade –já que as ações caíram tanto–, senti que o momento era oportuno”, ele disse.

Steven Young, um apostador esportivo que agora investe no mercado financeiro, sentado com sua roupa de treinador em um gramado
Steven Young, 30, treinador e praticante de esporte agora investe no mercado financeiro - Michelle Gustafson/The New York Times

Young, 30, tem apenas US$ 2,5 mil investidos, o que faz dele um peixe pequeno entre as baleias. Mas alguns analistas de Wall Street veem as pessoas que costumavam apostar em esportes como importantes para a recente alta do mercado, que já quase recuperou as perdas sofridas durante o ano.
“Não tenho qualquer dúvida de que isso tenha sido uma influência”, disse Julian Emanuel, estrategista chefe de ações e derivativos da corretora BTIG. “Nenhuma dúvida”.

Milhões de pequenos investidores abriram contas em corretoras nos últimos meses, um dilúvio de novos participantes diferente de qualquer coisa que o mercado tenha visto em muitos anos, enquanto as ordens de confinamento paralisavam setores econômicos inteiros e causavam uma disparada no desemprego.

Não está claro que proporção desses novos investidores costumava apostar em esportes, mas alguns estão se comportando como apostadores agressivos. Houve um salto no número de aplicações de baixo valor no mercado de opções de ações, onde apostas quanto à direção que os preços dos títulos vão seguir podem gerar ganhos animadores e perdas devastadoras. E o número de transações que fazem pouco sentido economicamente, como comprar ações de valor praticamente zero de companhias quase falidas, disparou.

Mesmo com investimentos modestos, esses novatos podem ajudar a movimentar os preços das ações, que tipicamente são ajustados pelas decisões de apenas uma pequena proporção dos acionistas de uma companhia. Nas operações cotidianas, a maioria dos investidores do mercado de ações não se movimenta, enquanto uma pequena minoria de compradores e vendedores estabelece os preços. Assim, até mesmo um influxo modesto de especuladores hiperativos pode ter efeito significativo.

“Os investidores estão nos perguntando cada vez mais sobre a participação de investidores individuais no mercado de ações e opções”, escreveram analistas do banco Goldman Sachs em uma nota de pesquisa publicada no mês passado. “Nossos dados sugerem que os investidores individuais agora representam de fato uma proporção considerável do volume diário de operações”.

Rosto de homem refletido em vidro com número de cotações da Bolsa
Apostas despencaram desde que o surto do coronavírus paralisou os campeonatos das grandes ligas esportivas - Mark Abramson/The New York Times

Jim Bianco, presidente da Bianco Research, uma empresa que pesquisa sobre o mercado financeiro, disse que os apostadores são um segmento pequeno mas importante desses recém-chegados, em companhia dos aficionados dos videogames.

“É um grupo tão grande quanto a comunidade dos investidores institucionais?”, questionou Bianco, se referindo aos investidores em fundos mútuos, fundos negociados em bolsa e aos investidores profissionais. “Provavelmente não”. Mas, ele acrescentou, “o número [de novos investidores] é suficiente para fazer diferença”.

Os apostadores em esportes que perderam seu passatempo dispõem de recursos consideráveis. No ano passado, apostadores realizaram mais de US$ 13 bilhões em apostas esportivas legais nos Estados Unidos, de acordo com a Eilers & Krejcik Gaming, uma empresa de consultoria e pesquisa, e há estimativas que indicam que o valor das apostas ilegais é 10 vezes mais alto.

Mas . O movimento das apostas em esportes caiu em 60% em março, ante fevereiro, segundo a empresa. E pode ter caído até 80% mais em abril.

“Basicamente, eu precisava de alguma coisa na qual tentar apostar, para ganhar algum dinheiro”, disse Sean Moore, 23, eletricista aeronáutico que vive em Suisun City, Califórnia. Com investimento inicial de cerca de US$ 1 mil, ele passou por todos os altos e baixos do mercado em apenas algumas semanas.

As apostas de Moore em companhias de aviação e operadoras de cassinos registraram alta de cerca de 60% em uma semana. “Eu dizia a todo mundo que as pessoas deviam apostar em ações. Deviam começar a participar –há dinheiro fácil a ganhar, e já”, ele disse.

Mas então uma aposta que ele fez na operadora de cassinos MGM –sob a premissa de que Las Vegas seria reaberta e as restrições causadas pelo coronavírus seriam suspensas– fracassou. “Não foi positiva como eu imaginei que seria”, ele disse. “Achei que haveria uma alta imensa, com a reabertura”.

Moore decidiu operar com ações depois de ver um vídeo de Dave Portnoy, o presidente do Barstool Sports, um site de apostas e notícias esportivas ruidoso, irreverentemente juvenil e muito popular.

Quando o coronavírus forçou o fechamento do escritório central do Barstool em Manhattan, Portnoy –cuja experiência no mercado de ações era praticamente zero– se reinventou como “ ”. Com investimento inicial de US$ 3 milhões, ele começou a comprar e vender ações, de seu apartamento, e transmitir os resultados via streaming para seus leais seguidores.

“Eu costumo perceber com facilidade que tipo de conteúdo vai diverti-los”, disse Portnoy, cujas sessões de streaming combinam pronunciamentos confiantes sobre o mercado e uma linguagem irreverente, repleta de palavrões.

No começo, os resultados não foram assim tão bons: Portnoy perdeu mais de US$ 1,5 milhão em apostas repetidas de que o mercado cairia. Ele colocou mais de US$ 2 milhões adicionais no mercado e passou a apostar na alta; terminou por recuperar as perdas iniciais e avançar para resultados positivos.

As oscilações de curto prazo fazem das apostas em ações uma atividade parecida com as apostas em esportes. “Mesma adrenalina”, ele disse.

No caso de Moore, Portnoy foi uma influência considerável; no de Seth Serrano, a influência veio de seu irmão. Ações substituíram o esporte como principal assunto de conversa entre eles. Os dois passaram a acompanhar os movimentos do mercado, e a disparar mensagens de texto rápidas um ao outro.

“É engraçado –falamos sobre isso do mesmo jeito que falamos sobre apostas”, disse Serrano, 39, que vive em Edison, Nova Jersey.

Apostador modesto –ele arrisca apenas US$ 1 ou US$ 2 em cada jogo–, a carteira total de apostas de Serrano é de apenas US$ 200. Ele admite sem problemas que não fazia ideia do que estava fazendo, ao começar, mas gravitou naturalmente na direção de uma estratégia clássica do mercado de ações: adquirir papéis em queda na esperança de vendê-los depois da recuperação – “comprar na baixa”, como se diz no mercado.

“Não sei o que metade dessas empresas fazem”, disse Serrano, revisando sua lista de investimentos para avaliar as apostas, que incluem Ford Motor, algumas companhias farmacêuticas, e um fundo negociado em bolsa um tanto obscuro, que acompanha os movimentos do mercado de potassa, usada como fertilizante.

Ele também tem interesse em uma empresa que conhece bem: a DraftKings, serviço de apostas esportivas que usava anteriormente. A companhia abriu seu capital em abril, e Serrano calculou que suas ações disparariam quando os esportes voltassem. Não precisou esperar muito tempo: a DraftKings registrou alta de 245% em suas ações este ano, mesmo na ausência de esportes em que apostar. “Estou, basicamente, apostando nas minhas apostas”, disse Serrano.

A última vez que os Estados Unidos demonstraram apetite sério pela especulação no mercado de ações foi no frenesi das ações de tecnologia no final da década de 1990. Desde então, os investidores têm preferido opções mais seguras, como o investimento de longo prazo em fundos de índices, uma aposta cuja premissa é a de que tentar derrotar o mercado é perda de tempo.

Isso começou a mudar no ano passado, quando uma guerra de preços entre corretoras de valores irrompeu com muita força. A Robinhood, que conta com centenas de milhões de dólares em fundos de empresas de capital para empreendimentos, vem oferecendo transações online com comissão zero já há algum tempo. Suas concorrentes estabelecidas foram forçadas a baixar preços até que, por fim, em outubro, as gigantes do setor - Charles Schwab, TD Ameritrade, E-Trade, Fidelity e Vanguard –começaram a zerar as tarifas.

Quando os preços das ações despencaram por causa da pandemia, novos investidores se apressaram a entrar no mercado.

A TD Ameritrade reportou um recorde de 608 mil contas novas de investimento no primeiro trimestre deste ano, mais que o triplo do número de contas novas abertas no período em 2019. A Schwab também bateu recordes –com 609 mil novas contas, 280 mil das quais abertas em março. A E-Trade conquistou 363 mil contas novas, mais que o dobro do total do período em 2019, e também um recorde. E no começo de maio a Robinhood anunciou ter conquistado mais de três milhões de contas novas, até agora este ano.

Houve uma disparada no número de pequenos investidores que usam operações com opções para realizar apostas puras quanto à cotação que uma ação terá em um momento determinado, disse Matt Maley, vice-presidente de finanças da Miller Tabak, uma empresa de gestão de patrimônio.

“Esse é mais um sinal de que [o movimento] é dinheiro dos apostadores”, ele disse.

Jonny Tran, advogado em Fort Collins, Colorado, entrou com força no mercado de opções e se deu bem em algumas transações, entre as quais uma opção de venda na qual ele apostou US$ 400 e cujo valor disparou para US$ 7 mil depois de uma queda no preço das ações da fabricante de chips Broadcom.

“Foi só um palpite”, disse Tran, que tentou saciar seu apetite por apostas em esportes no exterior, colocando dinheiro em partidas de beisebol na Coreia do Sul e tênis de mesa na Rússia.

Durante a brutal onda de vendas da quinta-feira, que causou queda de 5,9% no índice S&P 500, Tran se saiu bastante bem, graças às suas apostas com relação ao Snapchat e o índice em geral.

“Ganhei uns US$ 600 ontem, o que foi bacana”, disse Tran na sexta-feira. Mas a queda acentuada chamou sua atenção, e ele está pensando em moderar suas apostas, por enquanto.

Na sexta-feira, ele estava fora do mercado. “Vou ficar de fora por algum tempo”, disse Tran.

Os apostadores enfatizam que estão jogando no mercado como entretenimento. Muitos deles têm contas de investimento para aposentadoria nas quais apostam em índices, o tipo de investimento que domina o planejamento de aposentadorias, e dizem que só apostam dinheiro que possam perder.

“Eles não imaginam que essas apostas em ações vão permitir que se aposentem”, disse Josh Brown, presidente-executivo da empresa de gestão de patrimônio Ritholtz Wealth Management, que vem acompanhando a alta nas atividades de pequenos investidores este ano. “Eles estão se divertindo e aprendendo sobre o mercado, e acho que isso é ótimo”.

Young começou investindo em cotas de fundos de índices, mas se tornou mais ousado ao adquirir mais conhecimento. Ele agora acompanha canais de investimento no YouTube e tem lido as notícias financeiras da revista Barron’s e do The Wall Street Journal.

“Será interessante”, ele disse, “determinar o quanto o esporte vai continuar me interessando, quando os jogos voltarem”.

The New York Times, tradução de Paulo Migliacci

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