Descrição de chapéu The Wall Street Journal

Atrasos em empréstimos nos EUA significam que bancos não sabem quem merece crédito

Bancos estão adotando critérios mais rigorosos para créditos e buscando novos dados que possam ajudá-los a definir quem é risco e quem não é

Nova York | The Wall Street Journal

Os bancos dos Estados Unidos reduziram significativamente seus empréstimos aos consumidores do país, durante a crise do coronavírus. Um dos motivos: eles já não sabem quem merece e quem não merece crédito.

Milhões de norte-americanos estão sem trabalho e atrasados no pagamento de suas dívidas. Mas, em muitos casos, os pagamentos perdidos não estão sendo refletidos em suas classificações de crédito, e não são reportados de maneira uniforme nos relatórios sobre o crédito dos devedores.

A confusão deriva de uma cláusula no pacote governamental de estímulo adotado em resposta ao coronavírus. A lei afirma que as instituições financeiras que permitirem que seus devedores atrasem pagamentos não podem reportar esses pagamentos como atrasados às companhias de classificação de crédito. De 1º de março ao final de maio, os americanos atrasaram o pagamento de mais de 100 milhões de contas, de acordo com a TransUnion, uma empresa de classificação de crédito, o que representa um sinal de dificuldades financeiras generalizadas.

Esse ponto cego no sistema de classificação de crédito nublou as perspectivas das instituições financeiras. Por anos, o forte consumo e os empréstimos aos consumidores as ajudaram a registrar lucros recorde. Agora a economia está em desordem e elas estão tentando compreender o que vai acontecer com toda a dívida que os americanos acumularam em períodos melhores.

Bandeira norte-americana em Nova York, Estados Unidos - Johannes Eisele/AFP

As instituições que enfrentam mais dificuldade para determinar que candidatos a empréstimos representam risco maior estão aprovando menos concessões de cartões de crédito, financiamentos de automóveis e outras formas de crédito ao consumidor.

Também estão procurando por novos dados que possam indicar quem está em dificuldade financeira e quanto dinheiro as empresas precisam manter em reserva para cobrir empréstimos não pagos. O Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, afirmou na semana passada que os maiores bancos americanos poderiam se ver sobrecarregados com até US$ 700 bilhões em perdas com empréstimos, em caso de uma desaceleração econômica prolongada.

“Sem informações precisas, a única opção que as empresas têm é reduzir o crédito”, disse Michael Abbott, diretor da área bancária norte-americana na consultoria Acccenture. “Os bancos não sabem quem vai pagar e quem não vai. É como um voo cego durante uma tempestade de crédito”.

Os bancos começaram a adotar critérios mais rigorosos para empréstimos em março, quando surgiu a primeira onda de demissões causadas pelo coronavírus.

Pelo começo de abril, 33% dos bancos que responderam à pesquisa sobre crédito do Fed informaram ter elevado seu patamar mínimo de classificação de crédito para a concessão de cartões de crédito, nos três meses anteriores, ante 14%, em janeiro. Os bancos respondentes adotaram critérios de empréstimo mais rigorosos para todas as categorias de crédito cobertas pela pesquisa.

O número de empréstimos concedidos caiu, como resultado tanto dos critérios mais rigorosos quanto de um declínio na demanda pelos consumidores. Na semana encerrada em 10 de maio, a estimativa é que 79 mil empréstimos pessoais tenham sido concedidos, ante 226 mil na semana encerrada em 22 de março, de acordo com a Equifax. Os financiamentos e o leasing de automóveis caíram a 266 mil no mesmo período, ante 390 mil. A concessão de cartões de crédito para propósitos gerais caiu a 483 mil, ante 856 mil. Em 2019, o volume semanal de concessões de cartões de crédito novos raramente caiu abaixo de 1,2 milhão.

As instituições de empréstimo solicitaram que as companhias de classificação de crédito removessem os nomes de devedores com pagamentos em atraso das listas de pessoas a quem cartões de crédito e outras formas de empréstimo são oferecidas, de acordo com pessoas informadas sobre o assunto. Cerca de 74 milhões de solicitações de cartões de crédito foram enviadas em maio, ante 316 milhões em fevereiro, de acordo com a Mintel Comperemedia. As solicitações de empréstimos pessoal enviadas caíram pela metade, para 84 milhões, no mesmo período.

“Os bancos estão estudando com muito cuidado os seus modelos de concessão de crédito, para determinar se eles precisam ser ajustados de forma a incluir o risco latente”, disse Rob Strand, economista sênior da Associação de Executivos Financeiros Americanos.

Antes da pandemia, atrasos autorizados nos pagamentos não eram grande problema para os bancos. Eles aconteciam raramente nas formas mais comuns de dívida de consumidores e usualmente se confinavam a áreas atingidas por desastres naturais.

Agora, o número de consumidores que têm pagamentos atrasados, ou estão envolvidos em outras formas de postergação de pagamentos, é espantosamente alto nos Estados Unidos, o que leva os bancos a questionar se as classificações e relatórios de crédito dos quais dependem há décadas refletem fielmente o nível real de risco apresentado pelos solicitantes de crédito.

As instituições de empréstimo estão registrando esse tipo de informação nos relatórios de crédito dos devedores de maneiras diferentes. Pagamentos que antes eram registrados como ou “em dia” ou “atrasados” agora estão sendo deixados sem registro, por algumas instituições. Outras estão usando códigos que indicam que os devedores estão em atraso mas que isso foi autorizado. Ainda outras vêm recorrendo aos códigos usados em caso de desastres naturais.

Além disso, as instituições de crédito não têm como diferenciar se o devedor está enfrentando dificuldades financeiras ou simplesmente decidiu aproveitar a opção de atraso autorizado nos pagamentos durante a crise.

Os códigos usados em caso de desastres naturais ou atrasos autorizados “foram criados para situações realmente agudas”, disse Curt Miller, vice-presidente de soluções de risco de crédito na TransUnion. “Se você observa o que aconteceu, a situação é tão ampla e os problemas tão generalizados que não existe coisa alguma no sistema projetada para acomodar, digamos, 100 milhões de contas sob esse status”.

As instituições de crédito estão em busca de dados que as ajudem a compreender que solicitantes de empréstimo são apostas seguras e quem provavelmente encontrará problemas financeiros.

Elas também estão considerando dados sobre o desemprego – por exemplo registros de celulares que mostram visitas a repartições de assistência aos desempregados ou depósitos de benefícios – que possam ajudá-las a compreender como contabilizar futuros prejuízos com empréstimos, de acordo com algumas pessoas familiarizadas com as discussões dos emprestadores a respeito. Alguns bancos estão revisando o fluxo de caixa nas contas correntes a fim de ter uma ideia mais precisa sobre o risco que suas carteiras de empréstimos podem abrigar, disseram essas fontes.

As companhias de classificação de crédito estão discutindo com as instituições de empréstimo sobre dados adicionais que poderiam ajudar a identificar riscos ocultos. As conversações também envolvem como determinar candidatos que ficam abaixo das notas de corte para crédito mas apresentam boa probabilidade de pagar seus empréstimos.

A Fair Isaac, criadora da classificação de crédito FICO, amplamente utilizada, está desenvolvendo um índice que aparecerá ao lado da classificação de crédito do devedor e informará as instituições de crédito sobre a probabilidade de que a pessoa resista bem às dificuldades financeiras durante o período de desaceleração.

“Isso dará [às instituições] um filtro adicional para saber como uma pessoa lidará com uma dificuldade financeira”, disse Will Lansing, presidente-executivo da Fair Isaac. “O aumento no número de pessoas aprovadas será maior que o do número de pessoas rejeitadas”.

A Equifax informou que mais instituições de empréstimo estão solicitando informações sobre como os consumidores estão administrando suas contas bancárias, e para determinar se eles estão pagando em dia contas que não são computadas para suas classificações de crédito, a fim de ajudar a determinar se créditos para eles devem ou não ser aprovados. (As instituições de empréstimo precisam do consentimento dos candidatos a crédito para obter essas informações.)

A Experian está vendendo a instituições de empréstimo um recurso de planejamento de cenários que usa dados econômicos em nível metropolitano, como índices de desemprego e de dívidas domiciliares, que podem ajudar as instituições a prever seu nível de prejuízo com empréstimos.

A TransUnion começou recentemente a vender dados que ajudam as instituições de crédito a determinar se os consumidores foram afetados pela pandemia, entre os quais dados sobre pessoas que receberam autorização para postergar pagamentos e outras formas de assistência. Essas informações não podem ser usadas para negar crédito a alguém.

O coronavírus “tirou dos trilhos os modelos existentes”, disse Miller, da TransUnion.

The Wall Street Journal, tradução de Paulo Migliacci

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