Cada vez menos pessoas compram seu primeiro iPhone, mas Apple não está preocupada

Empresa passa a ganhar mais dinheiro com quem usa seus dispositivos, e não com a venda deles

Christopher Mims
Nova York | The Wall Street Journal

Durante a maior parte da última década, a história da Apple foi a história do iPhone. No entanto, nesse período, a Apple aprendeu um ótimo truque: como convencer cerca de 1 bilhão de proprietários do smartphone a gastar com um número estrategicamente crescente de produtos e serviços, além do iPhone.

A empresa do iPhone tornou-se a empresa de aparelhos, dispositivos vestíveis, serviços, acessórios, pagamentos, finanças e experiências.

Essa abordagem de faturamento diversificado é crucial, porque há cada vez menos pessoas no planeta Terra que ainda precisam adotar o ecossistema da Apple, mas ainda querem e podem pagar por seus produtos.

Obviamente, a Apple continuará procurando novos compradores de iPhone e, como muitas vezes sinalizou o presidente-executivo, Tim Cook, acabará precisando de um sucessor para o iPhone. Enquanto isso, a companhia também terá que ficar do lado certo dos reguladores e de seus próprios parceiros desenvolvedores, enquanto cresce cada vez mais.

O número de pessoas que compram seu primeiro iPhone diminuiu a cada ano desde seu pico em 2016, quando havia 129 milhões deles, de acordo com cálculos do analista independente da Apple Neil Cybart, fundador da Above Avalon.

Em 2019, o número foi 48 milhões e continua diminuindo. Mas durante a última temporada de fim de ano a Apple registrou uma receita trimestral recorde.

Isso pode ser explicado em duas estatísticas. Primeiro, trimestre após trimestre, a Apple continua relatando um crescimento maior da receita de serviços, que atingiu US$ 13,3 bilhões –ou 23% de sua receita total– no trimestre encerrado em 28 de março.

Isso inclui assinaturas do iCloud, Apple Music e TV, comissões sobre vendas de aplicativos, pagamento do Google para ser o mecanismo de pesquisa padrão do Safari e coisas similares. Esse é um dinheiro que a Apple ganha de pessoas que estão usando os dispositivos, e não os comprando.

Na véspera da Conferência Mundial de Desenvolvedores da Apple (WWDC), que a empresa realizará como um evento totalmente virtual pela primeira vez nesta semana, o lucrativo relacionamento da Apple com sua comunidade de desenvolvedores nunca foi tão vital –ou mais tempestuoso.

Com uma economia global acidentada, menos pessoas estarão comprando telefones, diz Patrick Moorhead, presidente da empresa de pesquisa de tecnologia Moor Insights & Strategy. A Apple observou em seu último relatório de lucros que as pessoas já estão mantendo seus iPhones por um tempo maior, e a empresa aplicando preços mais baixos para convencer seus clientes a renová-los.

Analistas da Goldman Sachs projetaram que os compradores de iPhone provavelmente escolherão modelos mais baratos, reduzindo ainda mais o importante preço médio dos iPhones vendidos pela Apple.
Esse golpe pode ser atenuado, desde que todos os usuários de iPhone continuem gastando em outras coisas: assinaturas de AirPods e Apple Music --especialmente porque os acessórios e serviços da Apple têm margens de lucro maiores que as do hardware de última geração.

A segunda estatística que explica o crescimento contínuo da Apple é o número de dispositivos Apple ativos no mundo. Todos os anos, esse número aumenta em cerca de 100 milhões. Isso inclui iPhones, iPads, Macs, Apple Watches, boxes Apple TV e até os alto-falantes HomePod, que vendem pouco, mas não os AirPods, que não podem se conectar à internet de forma independente.

Em 2016, havia 1 bilhão de equipamentos Apple ativos. Hoje a marca reporta 1,5 bilhão. Cerca de dois terços são iPhones, diz Cybart.

Dos cerca de 1 bilhão de usuários de iPhones, aproximadamente a metade possui apenas um iPhone e nenhum outro dispositivo da Apple, avalia Cybart. Esse grupo de pessoas, geralmente proprietários recentes de iPhones fora dos Estados Unidos, representa um terreno fértil para a Apple continuar aumentando sua receita de serviços e as vendas de dispositivos além do iPhone.

Na divulgação de lucros mais recente, o diretor financeiro da Apple, Luca Maestri, disse que a empresa vendeu US$ 6,3 bilhões em "vestíveis, casa e acessórios" –que incluem AirPods, o Watch e o HomePod– e que 75% das vendas do Watch nesse trimestre foram para primeiros compradores. Segundo a Apple, essa categoria hoje é tão grande quanto "uma empresa da Fortune 140", o que significa que gera cerca de US$ 22,5 bilhões em receitas anuais.

Conseguir que os proprietários de iPhones comprem produtos da Apple de maior valor –por exemplo, um laptop– exige que a empresa faça algo que não faz há muito tempo: priorizar o Mac. No mercado de PCs, a Apple "realmente não ganhou participação de mercado desde o MacBook Air", diz Moorhead.

Se na WWDC deste ano a Apple anunciar que está transferindo parte dos MacBooks para seus próprios chips com arquitetura ARM, e não mais da Intel, poderia ser uma maneira de usar a integração vertical para tornar seus notebooks mais atraentes para potenciais ex-usuários do Windows.

Economizando no processador central –Moorhead estima que isso poderia significar US$ 150 por notebook–, a Apple poderia acrescentar recursos como conectividade celular, melhor resolução gráfica ou até novos sensores e processadores hoje encontrados apenas nos iPhones.

A Apple também poderia dar a esses notebooks a capacidade de executar uma vasta biblioteca de aplicativos existentes para iPad. A Apple poderia finalmente aumentar sua participação de aproximadamente 7% nas vendas globais de PCs, disse Moorhead.

Embora a empresa não o admita, ela age como quem sabe que sua reserva de novos clientes está diminuindo. Veja o iPhone SE, lançado em meados de abril. Custa a metade do preço habitual de um iPhone novo, mas possui alguns componentes internos dos modelos mais recentes da Apple. Ele é voltado para novos clientes em mercados emergentes, embora também possa atrair os proprietários de iPhone que relutam em trocar de aparelho.

Antes do atual choque econômico, a classe média global deveria crescer em 160 milhões de pessoas por ano até 2030, de acordo com o Instituto Brookings. Mais de 3 bilhões de pessoas já se qualificam, com rendimentos geograficamente ajustados entre US$ 11 e US$ 110 por dia.

A maioria não pode pagar pelo iPhone 11, a principal oferta da Apple, que custa US$ 700 nos EUA, muito menos pelo modelo topo de linha de US$ 1.450.

Na Índia, por exemplo, um smartphone médio custa US$ 180. O iPhone SE de US$ 400 não é tão barato, mas pode ser mais acessível para dezenas de milhões de pessoas a mais.

A maior responsabilidade da estratégia atual da Apple é que, mesmo que a empresa hoje dependa menos de faturar com a venda de cada iPhone, o iPhone continue no centro.

Se o iPhone perder participação de mercado, o motor do sucesso da Apple poderá falhar e parar, ou até entrar em reversão. Isso poderá acontecer se for interrompido por alguma nova tecnologia de um concorrente ou porque milhões de pessoas não podem mais pagar por um iPhone devido à economia global, mesmo ao preço de um SE.

O modelo de negócios em evolução da Apple apresenta outra vulnerabilidade potencialmente crítica: uma lista crescente de oponentes –incluindo reguladores da União Europeia e empresas de tecnologia como Spotify– alegam que a Apple usa seu predomínio para cobrar preços injustos e reprimir a concorrência.

Embora a Apple nunca tenha dominado a participação no mercado global de smartphones, domina seu próprio ecossistema de dispositivos. Quanto mais ela tenta impulsionar o crescimento por alavancagem, mais abusiva pode parecer.

Mesmo com seu tamanho enorme, a Apple descobriu como continuar crescendo, integrando-se verticalmente, tentando-nos com mais dispositivos, acessórios e aplicativos e vendendo um grande número de telefones, embora com uma margem menor. Mas não pode fazer isso sozinha: a galinha dos ovos de ouro depende da cooperação de parceiros de software e conteúdo, reguladores –e mais de 1 bilhão de clientes fiéis.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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