Entenda como ler as estatísticas econômicas no Brasil durante a crise do coronavírus

Dados sobre juros bancários, mercado de trabalho, indicadores de atividade e contas públicas podem indicar algo diferente do óbvio

São Paulo

O final de semana foi marcado pela decisão do governo Jair Bolsonaro de divulgar apenas parcialmente as informações sobre os mortos pelo novo coronavírus.

Já no espectro econômico, dados sobre atividade econômica, emprego, contas públicas e taxas de juros têm apresentado distorções, ainda que não de forma deliberada.

O motivo é a mudança radical no cenário econômico provocada pela pandemia.

A Folha analisou estatísticas referentes aos meses de março, abril e início de maio já divulgadas e ouviu especialistas que mostram como será necessário mudar a forma de interpretar alguns desses números nos próximos meses.

JUROS BANCÁRIOS

Um dado que chama a atenção são os números da pesquisa de crédito do Banco Central. Apesar do aumento do risco de crédito e da dificuldade de acesso de empresas de menor porte a empréstimos, as taxas nas principais linhas para pessoas jurídicas recuaram em abril e no acumulado do ano.

Houve queda tanto no custo de captação dos bancos, influenciado pela redução da taxa básica, como no spread bancário, diferença entre a taxa que os bancos pagam para captar recursos e a que é cobrada nos empréstimos. O spread pode refletir, por exemplo, algumas medidas anunciadas pelo governo para aliviar o custo do crédito.

Gabriel Cabral/Folhapress

Além disso, a taxa divulgada se refere às operações efetivamente realizadas, aquelas em que o cliente aceitou o valor cobrado pelo banco. A mudança no perfil dos tomadores de crédito, com participação maior de grandes empresas, também pode influenciar a média.

O dado mais recente do BC mostra que, em abril, o estoque de crédito no segmento de micro, pequenas e médias empresas ficou estável, número compatível com uma queda nas concessões.

Dados da Febraban (federação dos bancos) mostram que as grandes empresas ficaram com 74% do crédito das contratações realizadas por pessoas jurídicas de 16 de março a 8 de maio. Médias empresas, com 15%, micro e pequenas com 11%.

Um número que ajuda a mostrar esse problema é o Indicador de Facilidade de Acesso ao Crédito extraído das Sondagens Empresariais do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da FGV), que começou a despencar ainda em fevereiro e atingiu em abril o menor valor desde junho de 2016, com ligeira recuperação no início de maio.

A parcela de empresas afirmando que o acesso ao crédito está difícil passou de 35,1% em abril para 33,5% em maio. Os que relatam facilidade passou de 9,8% para 10,1%.

“O governo está tentando aumentar o crédito, o cenário de Selic está favorável e a gente esperava ver um aumento das concessões, mas as empresas estão reclamando bastante, inclusive neste mês de maio, que já era para ter um cenário mais favorável”, afirma a economista do FGV Ibre Renata de Mello Franco.

“As empresas estão com muita dificuldade para conseguir acessar o crédito. Não está chegando na ponta.”

MERCADO DE TRABALHO

A crise também mudou a maneira de se observar os dados do mercado de trabalho. Pela metodologia do IBGE, só são considerados desocupados trabalhadores que procuraram emprego nos 30 dias anteriores ao período de referência da pesquisa e que estavam disponíveis para trabalhar naquela mesma semana.

O distanciamento social e o fechamento temporário de empresas e serviços não essenciais fazem com que muitas pessoas não possam buscar trabalho e não estejam disponíveis para trabalhar imediatamente.

Por isso, especialistas avaliam que a estatística mais relevante nos próximos meses será o nível de ocupação e da força de trabalho.

Os dados mais recentes mostram que 4,9 milhões de brasileiros deixaram de trabalhar no trimestre encerrado em abril em relação aos três meses encerrados em janeiro.

Desses, 900 mil procuraram trabalho, ou seja, engrossaram a estatística do desemprego, cuja taxa chegou a 12,6%.

Os outros 4 milhões são pessoas que ficaram sem ocupação e que não procuraram emprego no período de referência da pesquisa.

“Tivemos uma queda recorde na população ocupada. Ou a pessoa vai se tornar desempregada, se estiver procurando desemprego, ou pode não procurar e sair da força de trabalho e até cair no desalento. Há uma parcela da população, por conta do isolamento, que não está conseguindo procurar trabalho”, afirma a professora da faculdade Fipecafi (FEA-USP) Luciana Machado.

Outro fator que segurou o desemprego é a possibilidade de suspensão de contratos e redução de jornada durante a pandemia.

Os dados do governo sobre emprego formal mostraram a perda de 1,1 milhão de vagas com carteira em março e abril. Há também 8,1 milhões de trabalhadores que tiveram contrato de trabalho suspenso ou jornada e salário reduzidos. Isso mostra que a crise do coronavírus já afetou um em cada quatro trabalhadores com carteira assinada, mais de 9 milhões de pessoas.

“O programa de redução de jornada é muito potente. Por causa desse programa, o nosso desemprego não vai crescer na mesma intensidade vista nos EUA. Eles saíram de uma taxa de 4% para 14% em um mês. E a procura por trabalho diminui. A figura do desalentado aumentou muito”, afirma a economista Margarida Gutierrez, professora de Macroeconomia do Coppead/UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

INDICADORES DE ATIVIDADE E JUROS

Gutierrez afirma que, em um momento de mudanças rápidas no cenário econômico e elevada incerteza, a defasagem na divulgação dos dados aumenta a importância da análise de indicadores antecedentes. Entre eles, as sondagens e índices de confiança de empresários e consumidores, além dos dados de risco país, juros futuros e câmbio.

“Os indicadores de nível de atividade hoje são de menor relevância. O PIB [Produto Interno Bruto] está olhando para trás. Os indicadores da indústria, do comércio e serviços, já estavam despencando. A gente já sabe que o PIB vai cair. O problema está em visualizar uma possibilidade de recuperação, o que depende principalmente da questão da saúde”, afirma Gutierrez.

A boa notícia da redução na taxa básica de juros (Selic) pelo Banco Central, para 3% ao ano, por exemplo, não é necessariamente um sinal de que a economia terá um forte impulso para se recuperar, segundo ela, que destaca a importância de se olhar toda a curca de juros.

“Quando os juros futuros começam a subir, mesmo com a Selic caindo, significa que isso não vai surtir o efeito esperado no custo de crédito. Se esses indicadores descem junto com a Selic, é um bom sinal. Se começam a subir, principalmente os juros mais longos, significa elevação de prêmio de risco. Com elevação de prêmio de risco, os empresários não tomam decisão nem de produzir, nem de contratar a ainda menos de investir”, afirma a economista.

O professor João Luiz Mascolo, do Insper, afirma que os primeiros indicadores a sinalizar uma melhora no ambiente econômico devem ser aqueles do mercado financeiro, como Bolsa de Valores, juros e taxa de câmbio, seguidos pelos dados de atividade, como as pesquisas mensais do IBGE. Ele avalia que os indicadores de confiança vão demorar mais a se recuperar.

“O empresário não vai dizer que está confiante antes de ver uma melhora de fato. O mercado financeiro trabalha com expectativa, então os indicadores financeiros podem antecipar alguma recuperação.”

CONTAS PÚBLICAS

Outra questão sensível para o país neste momento são as contas públicas. As divulgações mais recentes do Tesouro Nacional mostraram queda na dívida mobiliária, mas esse dado trata apenas da dívida em títulos públicos e a queda está relacionada à dificuldade do governo em encontrar compradores para os papéis e a uma onda de resgates antecipados por investidores.

O indicador mais importante para o endividamento do país continua sendo a dívida bruta do governo, que deve ultrapassar 90% do PIB (Produto Interno Bruto) neste ano. O patamar recorde, no entanto, também deve ser relativizado, pois todos os países estão se endividando para tentar manter suas economias funcionando durante a pandemia.

Para analistas, o fundamental será manter esses gastos sob controle e evitar um aumento forte dos juros, dois fatores que limitam o crescimento da dívida nos próximos anos, além de garantir que o país volte a crescer para que a relação entre dívida e PIB possa voltar a cair e possa fazer novamente superávits para reduzir o endividamento.

“Nessa pandemia, o país vai gastar mais ou menos a economia que foi feita para dez anos com a Reforma Previdência. Em termos de ajuste fiscal, você voltou para o zero. Vamos ter de olhar menos para o estoque e mais para a dinâmica da relação entre dívida e PIB, se está crescendo ou caindo, e isso depende do resultado primário”, diz João Luiz Mascolo, do Insper.

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