Descrição de chapéu The Wall Street Journal

Governo dos EUA inicia testes de voo do Boeing 737 MAX

Voos de certificação antecedem retorno da frota ao serviço comercial

Andy Pasztor
Nova York | The Wall Street Journal

Os órgãos que regulam a segurança aérea nos Estados Unidos iniciariam importantes voos de teste com o jato Boeing 737 MAX nesta segunda-feira (29), em meio a crescentes expectativas de autoridades da indústria e do governo de que os aviões provavelmente voltarão a operar no final deste ano.

No primeiro voo, o pouso foi bem sucedido.

As verificações, que deverão ser conduzidas em conjunto com a Boeing durante três dias, segundo previsão, marcam uma validação preliminar e um muito esperado momento para as soluções técnicas adotadas pela Boeing para recolocar a frota de MAX no ar.

Os aviões estão estacionados há 15 meses, depois de dois acidentes que mataram 346 pessoas, arruinaram a indústria de aviação muito antes da pandemia de coronavírus e aplicaram o mais forte golpe à reputação da fabricante de aeronaves em sua história de 103 anos.

Em um e-mail enviado pela Agência Federal de Aviação (FAA na sigla em inglês) no domingo (28), o órgão disse que a iniciativa "incluirá uma série de manobras de voo e procedimentos de emergência para permitir que a agência avalie" se as diversas modificações realizadas em software e hardware cumprem os critérios de segurança.

O 737 Max, avião mais vendido da Boeing, está proibido de voar desde 2019 - Lindsey Wasson/Reuters

Como era esperado, a FAA salientou que as autoridades do órgão ainda não estão perto de concluir essas avaliações, enquanto a mensagem expôs um punhado de passos adicionais previstos para durar vários meses ainda, alguns envolvendo especialistas externos, autoridades estrangeiras e pedidos de comentários do público.

Após mais de um ano de atrasos, constantes desafios tecnológicos e atritos entre autoridades da FAA e a direção da Boeing, a mensagem de domingo mostrou o caminho mais claro até agora para a ressurreição do MAX.

Os acidentes, que ocorreram com menos de cinco meses de diferença no final de 2018 e início de 2019, provocaram discussões no Congresso americano e em toda a indústria sobre os procedimentos e as salvaguardas da FAA para aprovar a segurança de novos modelos de jato. As mortes também provocaram uma investigação criminal e levaram a modificações substanciais em antigas suposições sobre como os pilotos costumam interagir com a complexa automação nas cabines de comando.

Um porta-voz da Boeing disse: "Continuamos trabalhando diligentemente para que o MAX retorne ao serviço com segurança".

Autoridades da FAA disseram firmemente que não avançarão para autorizar esses testes de voo ou tomarão outras medidas para retificar o MAX até que as perguntas e preocupações do órgão sejam respondidas de maneira satisfatória. Antes dos testes de voo, a Boeing realizou mais de 2.000 horas de voos para confirmar a validade de seu novo software.

A queda mundial de passageiros resultante da pandemia de Covid-19, porém, reduziu acentuadamente o apetite da indústria de empresas aéreas por utilizar os aviões problemáticos, e a Boeing reduziu drasticamente seu ritmo de produção em relação ao nível anterior.

Antes de tomar a decisão na sexta de agendar pilotos de teste para aprovar as alterações no sistema de controle de voo dos jatos, a FAA descartou formalmente uma série de análises técnicas e avaliações de risco da Boeing que levaram meses.

Dias depois da segunda queda de MAX 737, a Boeing lançou uma iniciativa para desenvolver revisões de software do sistema de controle de voo automático chamado MCAS, que foi acionado por erro, ignorou os comandos dos pilotos e colocou as duas aeronaves em queda livre.

Sob pressão da FAA e de reguladores internacionais, a Boeing desde então reviu várias outras funções dos computadores de controle de voo do MAX e o hardware associado, incluindo um acordo para modificar a localização de cabos sob a cabine para evitar curto-circuitos perigosos.

Os voos de teste, planejados para o segundo semestre de 2019, continuaram sendo adiados enquanto especialistas da FAA e da Boeing ampliavam seu trabalho para cobrir uma série de novas questões de segurança e falhas anteriores de computadores.

Mesmo que os testes de voo deem certo, o MAX enfrentará mais testes de pilotagem por um grupo de pilotos internacionais, novas análises de autoridades de treinamento de pilotos, verificações por equipes de segurança externas e amplo trabalho de manutenção antes que os jatos sejam considerados prontos para transportar passageiros.

Algumas dessas revisões poderão apresentar obstáculos inesperados, segundo autoridades do setor e do governo, potencialmente resultando em vários erros de agenda como os que a Boeing já enfrentou.

Enquanto a empresa e a FAA expandiam a análise de diferentes elementos do MAX, às vezes precisaram de mais tempo e esforço do que foi dedicado inicialmente a essas características quando o avião foi certificado em 2017.

Além disso, reguladores canadenses e europeus estão pressionando por outras modificações no software que poderão ser adotadas em um ano ou mais, depois que os aviões voltarem ao serviço. Essas características de segurança, segundo muitas autoridades do setor, ameaçam desgastar a posição histórica da FAA como principal regulador de segurança aérea do mundo.

"Provavelmente haverá diversas mudanças, muitas por questões não técnicas, que consumirão muito tempo", disse Ray Valeika, ex-chefe de manutenção e engenharia da Delta Air Lines, já aposentado.
Nos meses que antecederam a decisão de agendar os voos, autoridades do setor e do governo projetavam que a FAA provavelmente suspenderia oficialmente a ordem de paralisar os aviões no início do outono.

Autoridades de companhias aéreas disseram que preveem que precisarão de aproximadamente dois meses depois dessa medida para preparar os aviões para voar, reintroduzi-los nas frotas e arranjar para que os pilotos façam treinamento extra em simuladores de voo que deverão ser exigidos pela FAA. Com algumas exceções potencialmente importantes, os reguladores internacionais deverão seguir a indicação da FAA e liberar os aviões para voar semanas depois de um anúncio final dos EUA.

Cerca de 800 Boeing MAX 737 estão em solo, com aproximadamente a metade deles sob o controle da fabricante porque ainda não foram entregues aos clientes.

Com milhares de jatos de vários tipos parados ao redor do mundo por causa da pandemia de coronavírus, autoridades da indústria preveem que a maioria das companhias aéreas irá demorar para encaixar os MAX na programação truncada.

Os resultados dos testes de voo provavelmente não serão divulgados imediatamente, e uma declaração formal poderá levar semanas, segundo autoridades do governo e do setor. Ainda neste verão no hemisfério norte, líderes da Câmara e do Senado americanos deverão se dedicar a novos projetos de lei para reformar a certificação de novas aeronaves pela FAA.

O chefe do órgão, Steve Dickson, um ex-militar e piloto aéreo, disse que antes da decisão da agência ele testará pessoalmente o software revisado.

Para aumentar a confiança dos passageiros nos controles de voo remodelados, autoridades aéreas dos EUA levantaram anteriormente a possibilidade de realizar voos de demonstração do MAX com executivos e líderes sindicais a bordo. A FAA também considerou estratégias para explicar as mudanças a reguladores de outros países para garantir um retorno coordenado da frota.

No início deste mês, a Boeing enviou a clientes de companhias aéreas um material de treinamento esboçado, que inclui várias listas de checagem e procedimentos de emergência reescritos, para abrir caminho para o retorno do MAX ao serviço. Na época, a Boeing disse que tinha trabalhado em estreita ligação com autoridades da aviação sobre o esboço, notando que muitos reguladores pediram mudanças diferentes nos procedimentos na cabine.

Tradução Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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