Não faz sentido Itaú ter participação se não acredita no modelo de negócio, dizem sócios da XP

Benchimol se diz surpreso com campanha do banco; Gabriel Leal projeta fim do Personnalité em três anos

São Paulo

Dois sócios da XP confrontaram publicamente a posição do Itaú como acionista da corretora nesta quinta-feira (25). O Itaú tem 49,9% da XP.

Durante transmissão promovida pelo Money Week, evento para investidores, o fundador e presidente da XP, Guilherme Benchimol, afirmou ter ficado surpreso com a campanha de marketing do Itaú Personalité que questionava a atuação de agentes autônomos e corretoras independentes, como a XP.

"É confuso que alguém tenha comprado a sua ação e não acredite no seu negócio. Se isso fosse verdade de fato, não faria sentido a pessoa continuar como seu acionista", disse Benchimol, em uma alusão à sociedade com o banco Itaú.

"Eu entendo que eles tenham ficado chateados e estão tentando vir com algum plano que possa impedir nosso crescimento. Mas isso é parte da vida. Como concorrente não tenho o que dizer, mas, como acionista, eu acho que as palavras não condizem com os atos", afirmou.

No final da tarde, o sócio diretor da XP, Gabriel Leal, reforçou o questionamento. Afirmou, durante entrevista a jornalistas, que, caso o Itaú esteja desconfortável ou insatisfeito com a atuação da XP no mercado, deveria repensar o investimento que fez na corretora.

“Não sou sócio do Itaú, sou sócio da XP. Minha obrigação fiduciária é sempre entregar o que tem de melhor no mercado para os nossos clientes. E se o Itaú estiver desconfortável ou achar que [o negócio] não faz mais sentido, deveria repensar sua participação”, afirmou Leal.

Campanha divulgada pelo Itaú incitou críticas de corretoras independentes e agentes autônomos de investimentos
Campanha divulgada pelo Itaú incitou críticas de corretoras independentes e agentes autônomos de investimentos - Rodrigo Garrido - 30.jul.2019/Reuters

A rixa entre as instituições financeiras teve início com o lançamento da nova campanha de investimentos do Personnalité, braço de alta renda do Itaú.

Na propaganda, que começou a ser veiculada na terça-feira (23), o ator Marcos Veras aparece na tela em 2019, durante o período de euforia com a alta dos mercados financeiros, e em 2020, após a queda provocada pela pandemia.

“A moda aqui em 2019 é ter conta em corretora. Assessor [financeiro] também tá na moda. Insiste o tempo todo, ‘investe nisso, investe naquilo, não tem risco’. Estou me sentido o rei de Wall Street”, afirma o ator.

O investidor de 2020 afirma: “Aqui em 2020, deu para ver que não tinha risco para ele [assessor financeiro], que ganhava comissão por tipo de investimento. Ainda bem que você deixou seu dinheiro no Personnalité. São especialistas isentos. Aprendeu?”

Segundo o executivo da XP, a migração de recursos diários do Itaú Personnalité para a XP chega a R$ 150 milhões.

“Isso nada mais é do que uma empresa desesperada que não tem mais nenhum diferencial a explorar e não existe outra saída a não ser agredir seus competidores. É uma instituição que não tem proposta de valor para seus clientes. Se em três anos não mudar, é provável que o Personnalité nem exista mais”, disse Leal.

A propaganda foi entendida por diversos agentes de mercado como uma afronta à ética e conduta profissional, e que dá a entender que a oferta de produtos por corretoras independentes e agentes autônomos de investimentos é feita com base no que esses profissionais ganhariam de rebate (comissão).

Segundo Carlos Constantini, diretor-executivo de serviços de gestão de patrimônio do Itaú, a campanha tem o intuito de reforçar pilares do banco, como a experiência de atuação no mercado e a chamada prateleira aberta (oferta de produtos de terceiros a clientes que investem pelo banco).

“O terceiro pilar é a isenção. Temos um ferramental com algoritmos e simulações que permitem a escolha da melhor carteira para o cliente sem nenhum viés”, afirmou Constantini e acrescentou que a remuneração do profissional do banco que monta a carteira de investimentos não depende da escolha de produtos.

De acordo com o diretor do Itaú, os profissionais do banco são remunerados se levarem mais dinheiro à instituição e se o cliente estiver satisfeito com a performance e o aconselhamento de investimentos.

“Mas o mercado tem diferentes formas de remuneração e algumas delas carregam um conflito de interesse inerente. Se ao recomendar o produto A, o profissional ganha um valor e, ao recomendar o produto B, ganha outro, ele vai acabar pendendo para o gera receita maior. É uma verdade inconveniente, mas que precisa ser dita”, afirmou Constantini em transmissão ao vivo promovida pelo Itaú Personnalité nesta quinta-feira (25).

O maior banco privado do país já havia informado, na quarta-feira (24), que a campanha tem como objetivo ressaltar seus atributos positivos e que acredita que “ética independe de modelo e há bons profissionais em todas as configurações, seja um agente autônomo ou um gerente do banco.”

O banco também defendeu o anúncio e afirmou que a corretora também é uma concorrente.

Ainda na quarta-feira, a ABAAI (Associação Brasileira de Agentes Autônomos de Investimentos) também divulgou nota afirmando repudiar a propaganda veiculada pelo Itaú e que defende a transparência nas informações aos seus investidores.

Também em nota, a Ancord (associação das corretoras) afirmou que o papel dos agentes autônomos de investimento é fundamental para o crescimento da base de investidores no mercado de capitais e um elo vital entre investidores e produtos e serviços disponíveis.

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