Descrição de chapéu Financial Times

Libra virou 'neurótica e imprevisível', diz analista do Bank of America

Moeda não se recupera aos níveis pré-brexit, perde cerca de um quinto de seu valor e tem forte oscilação durante pandemia

Londres | Financial Times

Na prática, a libra esterlina se transformou em uma moeda de mercado emergente, dizem analistas do Bank of America, segundo os quais o brexit fez dela um espelho da economia “pequena e em queda” do Reino Unido.

Nos quatro anos transcorridos desde que o Reino Unido votou por sair da União Europeia, as condições operacionais da libra e as grandes oscilações em sua taxa de câmbio a tornam mais comparável ao peso mexicano do que ao dólar dos Estados Unidos, de acordo com Kamal Sharma, um analista de câmbio do Bank of America. Ele disse que a movimentação da moeda desde a votação do brexit, em junho de 2016, se tornou “neurótica, na melhor das hipóteses, e imprevisível, na pior”.

Os analistas do banco apontaram que a diferença entre as cotações em que os investidores estão dispostos a comprar e a vender libras continuam mais altas do que no caso das demais grandes moedas, mesmo depois que o mercado em geral se acomodou, na esteira do pânico relacionado ao coronavírus que surgiu em março.

A volatilidade implícita da moeda, um indicador que mede as expectativas dos investidores quanto à escala de futuras movimentações de preço, também continuou a ser mais alta no caso da libra do que no de outras moedas de grandes economias. O Bank of America afirmou que isso expunha uma falta de clareza quanto às perspectivas da moeda.

Caso um acordo sobre o futuro do relacionamento entre o Reino Unido e a União Europeia não seja obtido nos próximos seis meses, as consequências para a libra seriam “desastrosas”, disse Vasileios Gkionakis, diretor mundial de estratégia de câmbio do banco Lombard Odier. A libra pode cair para US$ 1,10 ou menos, ele disse, de US$ 1,25, enquanto o euro avançaria na direção da paridade, ante sua cotação atual de 0,90 libra.

Tradicionalmente, a libra é parte do chamado G5 do câmbio, em companhia do dólar americano, do euro, do iene e do franco suíço, como uma das moedas mais negociadas, e portanto mais seguras, do planeta.

Mas desde a votação do brexit, as incertezas quanto ao relacionamento entre o Reino Unido e a União Europeia fizeram com que os investidores se disponham menos a definir posições sobre a moeda, o que resultou em uma redução de liquidez. Isso significa que a libra já não pode ser analisada sob a mesma estrutura que as demais grandes moedas, disse Sharma.

A libra não se recuperou para os níveis que detinha antes de o Reino Unido votar pela saída do bloco comercial, perdendo cerca de um quinto de seu valor. E desde o início da pandemia, ela vem oscilando violentamente. No pico da crise, os investidores estavam se preparando para tamanha oscilação na libra que apenas o real brasileiro registrou alta maior em sua volatilidade implícita.

A libra caiu à sua marca mais baixa em décadas diante do dólar, na metade de março, antes de se recuperar depois que o Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, e outros bancos centrais intervieram para desaquecer o dólar.

Mas as negociações intermitentes com a União Europeia prejudicaram o sentimento com relação à libra. A possibilidade de que o Banco da Inglaterra adote taxas de juros negativas também restringiu a recuperação da moeda —da mesma forma que a disparada no déficit fiscal do país causada pelo imenso aumento de gastos decidido a fim de aliviar os piores efeitos do coronavírus.

Forças adversas continuam a se acumular diante da libra, disse Sharma, tendo em vista o prazo que se esgota no final do ano para concluir o acordo sobre o relacionamento comercial entre o Reino Unido e a União Europeia, e o persistente déficit britânico em conta corrente.

Tradução de Paulo Migliacci

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