Descrição de chapéu Coronavírus

Medo de contágio inibe consumo mesmo sem isolamento social

Estudos na Coreia do Sul e na Escandinávia indicam gastos menores mesmo com regras brandas de circulação

São Paulo

O relaxamento de medidas de distanciamento social pode ser incapaz de eliminar os efeitos econômicos negativos da Covid-19 se a propagação do vírus não estiver sob controle.

Dois estudos recentes que analisaram dados de diferentes países concluíram que, em situações de taxas de contágio elevadas –como ainda é o caso do Brasil–, o impacto recessivo da crise sanitária é alto, mesmo sem quarentenas ou lockdowns.

O artigo "Covid-19 doesn't need lockdowns to destroy jobs: the effect of local outbreaks in Korea" se debruçou sobre a realidade da Coreia do Sul, um dos primeiros países afetados pela pandemia.

No fim de março, os decretos de quarentena praticamente esvaziaram as ruas em São Paulo - Eduardo Knapp-22.mar.20/Folhapress

Escrito pelos economistas Sangmin Aum, Sang Yoon Lee e Yongseok Shin, o trabalho foi publicado como texto para discussão pelo centro de pesquisa americano NBER (National Bureau of Economic Research).

Segundo os autores, apenas o medo do contágio faz com que um aumento de 0,1% nos casos de infecções confirmadas leve a uma queda de dois a três pontos percentuais no nível de emprego local.

Isso ocorre porque, quando o receio de contaminação é alto, a população reduz o tempo fora de casa –mesmo sem ser obrigada a isso–, derrubando a demanda por bens e serviços na economia, o que afeta o retorno dos negócios e aumenta o desemprego.

A tendência de maior reclusão espontânea tem sido identificada em países como a Suécia, uma das poucas nações ocidentais que não adotaram regras rígidas de distanciamento social.

O artigo "Pandemic, Shutdown and Consumer Spending: Lessons from Scandinavian Policy Responses to COVID-19", de pesquisadores da Universidade de Copenhague, comparou consumo na Suécia com o da vizinha Dinamarca, que respondeu ao coronavírus com regras bem mais severas de isolamento.

O estudo ressalta que a lógica de que "severas restrições ajudam a conter o vírus e diminuem o número de mortes, mas causam mais dano econômico" pode não se confirmar, pois, mesmo sem obrigação, "os indivíduos talvez escolham restringir sua atividade econômica com base no risco de saúde".

Seus resultados indicam que é exatamente isso que a população sueca fez. O comportamento mais recluso da população do país explicaria, segundo os economistas, o fato de os 25% de queda do consumo causada inicialmente pela pandemia na Suécia não ter sido muito inferior aos 29% registrados na Dinamarca.

"Isso sugere que a maior parte da contração econômica é causada pelo vírus em si e ocorre independentemente de governos imporem distância social", diz o estudo.

Embora as conclusões desses trabalhos sejam preliminares, podem ajudar a orientar políticas públicas, principalmente em nações atingidas mais tarde pelo vírus.

Se os resultados aferidos na Coreia e na Escandinávia se repetirem em outros países, o recente relaxamento da quarentena em estados do Brasil onde o contágio permanece alto pode, por exemplo, ter efeito limitado sobre a reativação da economia.

O comércio de rua de São Paulo reabre nesta quarta, e os shoppings, na quinta.

Segundo cálculos do Covid-19 Analytics, modelo criado por professores de Economia e Engenharia da PUC-Rio em conjunto com pesquisadores de outras instituições, o Brasil ainda está na etapa de disseminação da doença.

Essa fase é superada apenas quando a taxa de reprodução do vírus –que indica quantas pessoas um infectado contamina– cai abaixo de 1.

Entre as 27 unidades da federação brasileiras, nenhum estava nesse patamar no domingo (7), último dia para o qual há dados atualizados.

O economista Marcelo Fernandes, professor da EESP-FGV associado ao grupo, explica que a metodologia do modelo permite atenuar a instabilidade de novas notificações. Ao atualizar os dados diariamente, os economistas verificam se suas projeções têm sido confirmadas pela série histórica.

"Sem essa correção, que suaviza os sobes e desces da série, os dados seriam de pouca utilidade para políticas públicas", diz Fernandes.

As estimativas do Covid-19 Analytics revelam que a taxa de contágio no Brasil está em trajetória descendente, mas ainda não indica que a epidemia atingiu seu pico no país.

O cenário de São Paulo, que começou a afrouxar recentemente a quarentena em vigor desde meados de março, se assemelha ao da média do país.

Segundo Fernandes, embora os dados mostrem que nem o estado nem o país estejam em uma situação confortável, decisões de políticas públicas se pautam em um conjunto amplo de indicadores.

"Os gestores podem se sentir confortáveis em relaxar a quarentena com base na evolução de outros dados aos quais não temos acesso, como a taxa de utilização de leitos de UTIs", diz.

Portanto, de acordo com Fernandes, não cabe ao grupo de pesquisadores julgar se o ajuste de medidas em estados como São Paulo é correto.

"O que podemos dizer é que a taxa de contágio permanece elevada e pode aumentar no com uma reabertura", diz.

Em situações como essa, estudos como o da Coreia e da Escandinávia mostram que os efeitos da Covid-19 tendem a permanecer elevados pelo temor de contaminação.

Os economistas que analisaram a situação do país asiático conseguiram isolar o efeito recessivo do medo do coronavírus devido a uma peculiaridade no desenvolvimento da epidemia na Coreia.

Desde o surgimento dos primeiros casos, o governo sul-coreano respondeu à crise testando massivamente a população, identificando os infectados e as pessoas com quem eles tiveram contato e isolando apenas esses grupos.

A estratégia se mostrou eficaz, mantendo a taxa de infecção no país baixa.

Mas em uma única região, chamada Daegu-Gyeongbuk (DG), a situação fugiu ao controle devido à contaminação de um número grande de pessoas que participaram de um culto religioso, no qual havia um infectado. Sozinha, essa área concentrou 86,5% do número de contagiados pelo coronavírus no país entre o fim de janeiro e o fim de fevereiro.

Embora tenha permanecido sujeita às mesmas políticas públicas que o restante da Coreia, a região respondeu por parte substancial do aumento do desemprego no país.

No período analisado, o nível de emprego na nação asiática como um todo --que crescia mensalmente a uma taxa de 0,23% desde o início de 2018-- caiu 0,89%. Em DG, o recuo foi mais do que o dobro, atingindo 1,91%.

Essa tendência se repetiu em diferentes setores econômicos e tipos de ocupação.

O contraste entre a região de DG e o restante da Coreia criou uma espécie de laboratório natural. Nessas situações, é possível isolar e mensurar os efeitos de um acontecimento ou de uma política, com um risco baixo de que as conclusões sejam contaminadas por outros fatores.

A análise da Coreia permitiu aos economistas comparar os resultados do país asiático ao de outras nações como Estados Unidos e Inglaterra.

Pesquisas recentes haviam mostrado que, após a adoção de quarentenas nos dois países ocidentais, um aumento de 0,1% na taxa de infecção pela Covid-19 resultava em uma queda entre 5 e 6 pontos percentuais em seus níveis de emprego.

Segundo os economistas coreanos, aproximadamente metade dessa redução –os cerca de 2% a 3% de queda aferidos na Coreia– se deveu apenas ao temor do contágio. A outra metade seria explicada pela queda na atividade causada pelo distanciamento social em si.

Embora o estudo da Escandinávia foque em outra variável –consumo–, traz uma conclusão semelhante.

Os economistas exploraram o fato de que Suécia e Dinamarca foram atingidas pela epidemia exatamente no mesmo momento e registraram comportamentos iniciais similares em suas taxas de mortalidade pelo vírus.

Mas os governos reagiram de forma diferente. Na Dinamarca, foram impostas medidas restritivas. Na Suécia, as autoridades focaram em orientações voluntárias.

O medo do contágio, no entanto, fez com que a população sueca tenha reduzido sua circulação e consumo em intensidade não muito inferior à verificada no país vizinho.

Os números que permitiram a comparação das tendências de consumo em Suécia e Dinamarca foram cedidos pelo Danske Bank, que atua em ambos os países.

Com base em dados como despesas com cartões e saques, foi construída uma medida de gasto por consumidor.

A conclusão dos pesquisadores é que –assim como em Daegu-Gyeongbuk– o medo de contaminação foi a principal força negativa sobre a economia na Suécia, indicando que, com contágio elevado, o consumo pode permanecer deprimido mesmo com distanciamento social relaxado

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