Montadoras terão que adequar mão de obra à demanda, diz Anfavea após demissões na Nissan

Com previsão de queda de 40% nas vendas, outras empresas podem optar por reduzir turnos após retomada

Rio de Janeiro

O presidente da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), Luiz Carlos Moraes, disse nesta terça (23) não descartar a possibilidade de que outras montadoras sigam o exemplo da Nissan, que decidiu fechar um turno de sua fábrica de Resende (RJ) e promoveu a primeira demissão em massa no setor após o início da pandemia.

Moraes afirmou que as empresas devem reavaliar o planejamento para a retomada das operações em função da demanda reduzida pela crise, o que pode levar a reduções nos turnos das fábricas, já que as soluções criadas pela MP 936, como redução de jornada ou suspensão de contratos, são temporárias.

"Tem que olhar o que vem de demanda no futuro próximo, se vai precisar de dois turnos, ou de apenas um turno", disse o executivo, em encontro virtual com jornalistas. "O emprego está em risco, sem dúvida, e essa foi a primeira decisão tomada por uma empresa que concluiu que era melhor reduzir o turno."

Nesta segunda (22), a Nissan anunciou a demissão de 398 funcionários​ que estavam afastados havia três meses, mesmo tendo que pagar indenizações previstas pela MP 936. Segundo a empresa, a decisão tem com objetivo "adequar seu negócio à nova situação do mercado automotivo no Brasil".

Desde março de 2017, o complexo industrial da companhia em Resende vinha trabalhado em dois turnos, o que demandou a contratação de 600 novos funcionários. As operações foram suspensas após o início da pandemia e serão retomadas nesta quinta (24) com apenas um turno.

Com estoques elevados e vendas ainda patinando, outras companhias também estão optando pelo turno único na retomada das operações em suas fábricas, o que eleva as expectativas de novas demissões. "O planejamento da capacidade de mão de obra será feita em função da demanda e a demanda vai ser muito baixa", comentou Moraes.

Com base no cenário atual, A Anfavea projeta que as vendas de automóveis fecharão o ano em um volume 40% inferior ao verificado em 2019. Antes da pandemia, a estimativa era de crescimento de 9,4%. Nos primeiros meses da pandemia, a indústria automotiva foi uma das mais afetadas.

Em março, diz o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), as vendas do setor caíram 28%. Em abril, o tombo foi ainda maior: 88,5%. Moraes disse que o número de licenciamentos mostrou recuperação em junho, mas é difícil dizer se houve mais vendas ou se há um acúmulo de vendas realizadas nos meses anteriores.

O setor negocia programas de apoio com o governo em diversas frentes. Na principal delas, busca alternativa para usar R$ 25 bilhões em créditos tributários acumulados ​no passado como garantia para obter empréstimos. Em outra, pede programa de incentivo ao consumo após a pandemia.

"Diferente de outros países que o governo entrou dando incentivo para a renovação de carros, o Brasil até agora não teve nenhuma iniciativa nessa direção", disse ele. "Infelizmente, a gente não vê nenhum motivo, pelo menos por enquanto, para considerar a hipótese de uma recuperação mais rápida."

O setor vem negociando crédito também com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), que ofereceu um pacote de ajuda em conjunto com um sindicato de bancos. Segundo fontes do governo, GM e Fiat já teriam iniciado as conversas.

O valor do pacote para as maiores empresas pode chegar a cerca de R$ 4 bilhões, com o BNDES entrando com 25% do total. Um dos objetivos da Anfavea era liberar o uso dos créditos tributários como garantia a esse empréstimo também, mas o tema ainda está em discussão com o governo.

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