Pandemia faz consumidor reduzir valor da fatura do cartão de crédito

Com compras no supermercado mais espaçadas, valor médio por transação ficou maior

São Paulo

Gastos com Uber, almoço fora de casa e também o cafezinho depois do almoço, happy hour e os passeios de final de semana desapareceram dos cartões de crédito depois da imposição de medidas de isolamento social e a crise econômica causada pela pandemia de Covid-19.

E levaram a uma redução nos gastos em geral em meio a um esforço das famílias para cortar despesas após perda de renda.

Foi o que aconteceu com Cintia Ramos, 30. Ela, que é sócia da Diaspora.Black —uma empresa de turismo voltada para a cultura negra— viu os gastos do final do mês diminuírem tanto no âmbito pessoal quanto no corporativo ante o atual momento.

A empresária Cintia Ramos, 30, reduziu uso do cartão de crédito em mio à pandemia - Bruno Santos/Folhapress

“Diminuímos o número de posições que alugávamos em uma sala de coworking [modelo de trabalho com o compartilhamento de espaços] e readequamos a oferta para o online. Além disso, sem ir para o trabalho e sem passar pelas lojas nas ruas, também diminuí as compras com brincos, roupas, produtos para o cabelo e Uber”, afirma a empresária.

Dados do Banco Central para abril apontam uma redução de 16,2% nas concessões totais no cartão de crédito para pessoas físicas, para R$ 85,8 bilhões —o menor patamar desde junho de 2018.

Apenas nas concessões à vista, quando o consumidor usa o cartão para as compras do mês e quita integralmente a fatura, a queda foi de 23,5%.

“Vimos uma queda grande no uso do cartão nas primeiras semanas da crise. O volume vem aos poucos se recuperando, porém abaixo ainda do período anterior às medidas de isolamento”, afirma o diretor do Itaú Unibanco, Fernando Amaral.

Ele notou também uma mudança de comportamento: as compras são menos frequentes, mas mais caras: o tíquete médio subiu 6% em relação ao mesmo mês de 2019.

Os mais ricos gastaram 42% menos no cartão em abril, completou o executivo.

Segundo a Abecs (Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços), mesmo que a queda nas transações no varejo superem 50%, as pessoas têm usado menos dinheiro de papel na pandemia. O resultado é que, agora, a entidade prevê que o cartão acelere sua participação no consumo das famílias —que atingiu 43% em 2019.

“Vemos um consumidor mais digital e mais aberto a experimentar compras online e isso deve ter reflexos na indústria também. Com o movimento que temos, não me impressionaria se a expectativa que tínhamos de que os cartões respondessem por 60% do consumo das famílias em 2022 fosse adiantada para 2021”, diz Pedro Coutinho, presidente da Abecs.

Conforme o uso de cartão aumenta, especialistas alertam o risco de inadimplência. Ainda segundo os dados do Banco Central, o índice total de calotes do crédito nos cartões para pessoas físicas atingiu 7,5% em abril —o maior patamar desde junho de 2017.

Essa inadimplência é global: quando o cliente entra no que o BC chama de rotativo não regular (ou seja, não paga nem o mínimo da fatura), a taxa de inadimplência bate 36%.

Já o juro médio de quem atrasa a fatura encerrou abril em 339% ao ano —a linha mais cara do sistema financeiro.

Segundo o diretor de meios de pagamentos do Banco do Brasil, Edson Costa, ainda que o banco ainda não sinta nenhuma pressão negativa para a inadimplência do cartão, a mudança no comportamento de consumo e na utilização dos cartões já é vista e ainda pode mudar os indicadores.

Ele aponta que o banco investiu em renegociação da fatura para evitar que clientes se tornem inadimplentes.

A maior consciência acerca dos gastos do cartão também começou a fazer parte da rotina do administrador Rodrigo de Jesus, 32. Ele afirma que começou a se preparar para reduzir os gastos mesmo antes de a pandemia chegar no Brasil e que agora, já com a fatura menor, adotou um controle das compras que faz.

“Eu comecei a ter o costume de registrar o histórico de preços das coisas que eu compro, por exemplo. Também comecei a trocar o débito pelo crédito, tanto pela segurança quanto para ter mais prazo para o pagamento das minhas compras”, afirma.

O administrador Rodrigo de Jesus, 32, reduziu seus gastos com alimentação fora de casa em 70% durante a quarentena - Bruno Santos/Folhapress

O movimento também acontece entre os usuários dos bancos digitais. Segundo estimativa do C6 Bank, o volume financeiro transacionado nos cartões de débito e crédito de seus clientes de alta renda teve uma queda de 25% em abril conta fevereiro, antes do começo da quarentena. Na baixa renda, o recuo foi de 9%. Assim como o visto pelo Itaú, porém, quando o consumidor faz uma compra, ela é mais cara.

“Também vemos um aumento no tíquete médio de 24% na alta renda e de 16% na baixa renda”, diz Maxnaun Gutierrez, chefe da área de pessoa física e produtos do C6 Bank.

Ele resume com a leitura já relatada por outros indicadores, como o de vendas no varejo: as pessoas gastam principalmente no supermercado. E, com a pandemia, elas saem menos vezes e fazem compras maiores.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.