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The Wall Street Journal Coronavírus

Recuperação econômica dos EUA talvez não seja tão fraca quanto muita gente temia

Embora a retomada como um todo possa terminar não tendo um formato de V, ela talvez não venha a ser tão fraca quanto muita gente temia

Greg Ip
Washington | The Wall Street Journal

O primeiro estágio da recuperação econômica dos Estados Unidos parece ter forma de V.

Depois de chegar ao fundo do poço em abril, a atividade econômica continua a crescer no começo de junho, recapturando parte do colapso que ocorreu quando a maior parte do país estava em confinamento para conter a difusão da Covid-19, de acordo com dados de diversas instituições privadas.

Determinar se a recuperação manterá esse ritmo continua difícil, dadas as incertezas sobre futuras medidas de estímulo fiscal e o ressurgimento do contágio, e o arrasto que a perda de empregos causou nas finanças dos consumidores.

Mesmo assim, uma recuperação econômica em forma de L, na qual o nível, de atividade continuaria deprimido, agora parece uma possibilidade remota. E embora a recuperação como um todo possa terminar não tendo um formato de V, ela talvez não venha a ser tão fraca quanto muita gente temia.

Bandeira norte-americana em Nova York, Estados Unidos - Johannes Eisele/AFP

As indicações mais fortes estão nos dados sobre o consumo. Em abril, as vendas do varejo caíram em 16%, a maior queda mensal já registrada.

O governo anunciará os números do comércio em maio na terça-feira, e economistas antecipam uma alta de 7,9%, ou seja, uma recuperação de 40% da perda sofrida em maio. A retomada do consumo propeliu uma alta recorde de 17,7% nas vendas do varejo em maio, ainda que os gastos como um todo continuem em nível inferior ao registrado antes do coronavírus.

Enquanto isso, os padrões semanais de consumo continuam a apontar para crescimento, no começo de junho. As vendas das lojas de departamentos nos sete dias encerrados em 10 de junho foram na verdade superiores às do período em 2019, de acordo com a Facteus, uma empresa de pesquisa que analisa transações de 16 milhões de detentores de cartões de crédito e débito emitidos por bancos.

As lojas de mantimentos, as cadeias de varejo de baixo preço, e as lojas com produtos diversificados reportaram vendas superiores às do período um ano atrás. Os restaurantes e hotéis continuam abaixo dos números do ano passado, mas mostram queda inferior à registrada em abril. Os cinemas, companhias de aviação e parques temáticos continuam a mostrar profunda depressão.

Os dados não foram ponderados com base em localização e registram com mais fidelidade os gastos dos usuários de cartões de débito de renda mais baixa, disse Lorn Davis, vice-presidente de estratégia de produtos da Facteus. Mesmo assim, eles se alinham às informações que reportam vendas surpreendentemente fortes nas lojas de departamento reabertas.

Karen Dynan, economista afiliada ao Instituto Peterson de Economia Internacional, disse antecipar que “a primeira parte da recuperação será rápida —um salto significativo depois de uma queda profunda de atividade, quando as empresas e pessoas puderem se engajar com segurança na reabertura. Não estou muito surpresa ao ver o que parece ser uma recuperação considerável ante os números profundamente deprimidos de abril, mas também considero que o ritmo da recuperação vai se desacelerar depois que as empresas que podem reabrir com facilidade o fizerem”.

De fato, Davis atribuiu parte da alta nas vendas do varejo, até o momento, à demanda reprimida estimulada pelos pagamentos de estímulo, e essa demanda pode não se sustentar. A Homebase, que produz software de controle de tempo para pequenas empresas, informou que as empresas se reabriram rapidamente entre a metade de abril e 1º de junho, mas que o ritmo de reaberturas vem sendo mais lento desde então.

O mercado de trabalho continua a ser a maior incógnita. Os economistas imaginavam que o nível de emprego viria a cair fortemente em maio, porque milhões de trabalhadores apresentaram novos pedidos de benefícios de desemprego, mas, por se concentrarem nas pessoas que perderam seus empregos, eles desconsideraram os milhões de trabalhadores que voltaram a se empregar, com o resultado líquido de uma alta no nível de emprego.

Na sexta-feira (12), o Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, citando dados privados sobre folhas de pagamento, previu novo crescimento do emprego em junho.

Esses desdobramentos positivos ainda deixam a economia em situação desfavorável, como destacam as projeções divulgadas na quarta-feira por representantes do Fed. Eles estimaram um desemprego de 9,3% no quarto trimestre, um número semelhante ao do pico do desemprego na recessão de 2007-2009, e uma queda de 6,5% no Produto Interno Bruto (PIB) de 2020, ante o ano anterior, uma queda mais profunda que a do pior período de 12 meses da recessão precedente.

Mas alguns analistas do setor privado estão começando a encarar a situação com menos pessimismo. Os economistas do banco Goldman Sachs estimam que o consumo já retornou a 90% do nível anterior ao da pandemia, ante 74% no pico da pandemia na metade de abril, e que as exportações de produtos industrializados se estabilizaram em maio, depois de sofrerem quedas profundas em março e abril.

O banco prevê PIB 3,8% mais baixo que o período no ano passado, para o quarto trimestre. Na sexta-feira, o banco JPMorgan mencionou o consumo forte ao revisar a queda de PIB que havia projetado para o quarto trimestre de 6,3% para 4,8%.

A natureza sem precedentes do choque significa que é preciso estar preparado para que a economia se saia ou muito melhor ou muito pior do que essas projeções. A pandemia do Covid-19 é o desastre natural mais destrutivo em um século, em termos econômicos.

Desastres naturais deprimem artificialmente a atividade, e quando se abatem o típico é que a atividade retorne rapidamente ao nível anterior, o que gera uma recuperação em forma de V.

Os economistas duvidavam de que isso viesse a acontecer desta vez. Um motivo é que o medo de contágio vai deprimir a atividade até que uma vacina seja desenvolvida, o que deve demorar pelo menos alguns meses. O número crescente de casos em alguns dos estados que reabriram mais cedo abalou os investidores esta semana, porque eles temem que as medidas de lockdown sejam retomadas. Mas o

Goldman Sachs ainda assim afirma que o número de contágios nos estados que reabriram cedo não aumentou significativamente. E mesmo que uma segunda onda de contágios venha a surgir, os estados devem relutar profundamente em adotar novas medidas de confinamento.

A duração desse desastre também significa que muitos empregos jamais voltarão. “As pessoas que perderam o emprego podem se ver muito mais pressionadas em termos financeiros, o que também dificultará a recuperação”, disse Dynan.

O número de pedidos de concordata pessoal na verdade caiu, este ano, de acordo com a Epiq Aacer, que acompanha os dados sobre falências. Mas o número de pedidos só costuma subir alguns meses depois que o desemprego cresce, e a dispensa federal quanto ao pagamento de hipotecas e os benefícios maiores para os desempregados podem retardar os pedidos, disse Chris Kruse, vice-presidente sênior da empresa.

Os números fortes sobre o emprego em maio levaram alguns legisladores a questionar a necessidade de medidas adicionais de estímulo por parte das autoridades federais, mas a resistência a isso parece estar desaparecendo. Mesmo que a recuperação esteja avançando mais rápido do que se esperava, o ponto de partida é tão negativo que parece mais arriscado errar para menos do que errar para mais, quanto ao grau de estímulo.

Tradução de Paulo Migliacci

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