Academias avaliam que reabertura com restrições em SP não é rentável

Empresas querem mais horas por dia para operar, mas veem retorno dos alunos com otimismo

São Paulo

A reabertura das academias de ginástica na cidade de São Paulo, sob uma série de restrições impostas pela pandemia, não será rentável num primeiro momento, avaliam grandes empresas do setor.

O segmento retomou atividades a partir desta segunda-feira (13), com restrições como operar a apenas 30% da capacidade, limite de funcionamento de seis horas diárias e necessidade de agendamento prévio pelos clientes, que devem manter distância mínima de 2 metros entre si e usar máscaras todo o tempo.

Vestiários e bebedouros não poderão ser utilizados e clientes em grupos de risco não devem frequentar os espaços por enquanto.

Diante das limitações, há empresas que optaram por esperar mais tempo para abrir, como a Competition, que planeja retomar suas operações apenas no dia 27, na expectativa de que até lá algumas das regras já tenham sido relaxadas pelo poder público.

Entre as mudanças que deverão ser permanentes para o setor após a pandemia, os empresários avaliam que a oferta de produtos digitais é um caminho sem volta. O setor também deve passar nos próximos anos por um movimento de consolidação, com as cinco maiores empresas – SmartFit, Bodytech, Selfit, Blue Fit e Cia Athlética – ampliando sua fatia de 25% do mercado. Por fim, as companhias devem mudar de forma permanente sua estrutura de custos, diante de uma receita agora incerta.

A Just Fit, com 35 unidades no estado de São Paulo e 20 na capital, é uma das empresas que optou por reabrir já nesta segunda-feira, após permanecer fechada desde 19 de março. A operação retoma com 30% a 40% dos funcionários de volta da suspensão de contratos viabilizada pela MP 936.

“Inicialmente, a reabertura não é rentável, mas vamos acompanhar de acordo com o retorno dos clientes”, afirma Paulo Rebello, diretor de operações da Just Fit.

Segundo ele, o setor tenta negociar com a prefeitura uma flexibilização das limitações de capacidade e de horário de funcionamento, considerados muito restritas em relação aos protocolos de abertura adotados em outros estados. “Defendemos pelo menos 50% da capacidade, o que ajudaria a viabilizar o negócio, assegurando o isolamento. E ao menos dez horas de abertura, para conseguirmos atender adequadamente o nosso público.”

Rebello afirma, porém, que o retorno de clientes surpreendeu positivamente neste primeiro dia de reabertura. “De cada 100 lugares disponíveis, 80 estão sendo preenchidos nesse momento”, afirma. Segundo ele, em Araraquara, onde a reabertura aconteceu há três semanas, esse índice chega a 88%. “Estamos bastante otimistas, porque imaginávamos que esse número não ia chegar nem a 50%.”

O retorno é um alento para uma empresa que chegou a ter unidades com 60% de cancelamentos de matrículas e uma inadimplência que dobrou de 6% para 12%. Conforme Rebello, o plano de inauguração de oito unidades da Just Fit para esse ano foi congelado e a empresa deve esperar para ver como será o movimento no verão de 2021 para redesenhar seu plano de expansão.

A Bodytech planeja reabrir na quarta-feira (15) suas 12 unidades na capital paulista, de um total de 102 em todo o Brasil. Luiz Urquiza, diretor-executivo da empresa, também é crítico quanto à limitação de apenas seis horas de funcionamento por dia.

“Essa restrição não nos parece fazer muito sentido, à medida em que, se o objetivo é poder atender o maior número de pessoas, com o menor risco de ter ocupação elevada, sem dúvida alargar o horário de funcionamento seria o ideal”, afirma.

Rodízio de academias

Para minimizar o efeito da restrição, a Bodytech está adotando horários alternados entre as unidades e permitindo a seus alunos frequentar outras lojas, de forma a completar na prática 12 horas de disponibilidade para os clientes.

Para Urquiza, a viabilidade econômica da operação de reabertura vai depender principalmente de renegociar aluguéis, o principal custo fixo das unidades. Nas academias de shopping, em geral o valor do aluguel tem um percentual variável em relação ao faturamento, o que deve possibilitar um ajuste natural. Já nas unidades de rua, será preciso negociar.

Conforme o executivo, a experiência das cidades que já reabriram suas academias mostra uma retomada dos alunos de 40% no primeiro mês, 55% no segundo e até 70% no terceiro. “Em São Paulo, pela limitação de horário, pode ser que isso não se comporte dessa maneira”, diz Urquiza. “Com as seis horas, ao final de um mês, talvez estejamos em 25% a 30%.”

O diretor-executivo afirma que os cancelamentos da Bodytech chegaram a 10% das matrículas e houve outros 20% de trancamentos. Assim, com os meses fechados, a perda de alunos e retomada gradual, ele projeta que a empresa perca de 40% a 50% do faturamento este ano, após gerar uma receita de R$ 490 milhões em 2019.

A Competition é uma das companhias que optou por não reabrir nesse primeiro momento. Segundo Flavia Brunoro, diretora operacional da rede de academias com quatro unidades e uma escola de natação em São Paulo, a operação de fato não seria rentável sob as restrições atuais, mas esse não foi o principal fator na decisão de não abrir.

“Os pontos principais para nós foram a limitação de uso dos vestiários e o horário restrito. Esperamos que isso possa ser revisto até dia 27”, afirma. “Mas, se não acontecer, vamos avaliar e seguir em frente.”

Segundo a executiva, uma pesquisa da empresa com 1,5 mil alunos mostrou que 50% deles pretendia voltar à academia imediatamente e 75% em até 30 dias após a reabertura. “Estamos muito otimistas de que os alunos vão voltar”, diz ela.

Conforme a Acad (Associação Brasileira de Academias), o setor soma 30 mil academias em todo o Brasil, com São Paulo concentrado 30% do mercado. O faturamento anual é estimado em cerca de US$ 2 bilhões (R$ 10,8 bilhões), segundo dados da Ihrsa, citados pela entidade brasileira.

“A estimativa dos sindicatos é de que 20% a 30% das empresas do setor acabem fechando devido à pandemia, principalmente pequenas e médias”, diz Richard Bilton, diretor da Acad.

Uma pesquisa realizada em junho pela EVO W12, empresa de gestão de negócios do setor de academias, mostrou que o fechamento de academias nos meses de abril a maio foi três vezes maior do que o verificado em 2019. O levantamento apontou ainda para a possibilidade de fechamento de 110 mil postos de trabalho no setor em 2020, após perda de 42 mil empregos no ano passado.

Ainda conforme o estudo, no período analisado, houve uma queda de 77% nas vendas de novos planos, na comparação com os meses anteriores à crise. Foi registrada ainda uma redução significativa no número de clientes ativos, com queda de 35% na média nacional. Em estados como Maranhão, Espírito Santo, Piauí e Tocantins, 8 de cada dez alunos deixaram de pagar seus planos.

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