Acreditaram na mentira do empreendedorismo, diz líder do Entregadores Antifascistas

Paulo Lima, conhecido como Galo de Luta no Twitter, defende vínculo empregatício a motoristas de apps

São Paulo

Paulo Roberto da Silva Lima, 31, conhecido como "Galo de Luta" no Twitter, mudou a rotina nas últimas semanas. Desde que emergiu como um dos principais mobilizadores do movimento de entregadores de aplicativos, Galo faz lives com Criolo e Guilherme Boulos, é citado por parlamentares nas redes sociais e encaixa entrevistas à imprensa nas pausas do trabalho.

"Tentaram até me fazer virar coach, mas não é minha praia, é contra minha ideologia", afirmou à Folha.

Paulo Lima, o Galo, líder dos Entregadores Antifascistas. Com 30 mil seguidores no Twitter, ele defende café, almoço, jantar e CLT
Paulo Lima, o Galo, líder dos Entregadores Antifascistas. Com 30 mil seguidores no Twitter, ele defende café, almoço, jantar e CLT - Danilo Verpa/Folhapress

Político de rua, Galo criou o movimento Entregadores Antifascistas no Brasil, que surgiu durante o protesto convocado por movimentos negros, torcidas organizadas e opositores ao governo no início de junho.

Com mais de 30 mil seguidores no Twitter, Galo ajudou a colocar de pé a hashtag Breque dos Apps. A paralisação que reuniu milhares de motoboys e ciclistas em capitais no dia 1º ficou conhecida por esse nome.

O entregador diz não querer tomar protagonismo nos protestos, que, segundo ele, surgiram de forma natural. De modo geral, os motoristas pleiteiam taxas maiores pagas pelos aplicativos (como iFood, Uber Eats, Rappi, Loggi e James), assistência eficaz durante a pandemia de Covid-19, fim dos bloqueios considerados injustificados e do esquema de pontuação, que diminui a nota de quem recusa entregas.

Galo e os Antifascistas defendem a CLT.

"Qual foi a mentira que contaram para eles? 'Vocês são empreendedores, são quase igual a gente, são ricos, podem ficar ricos se trabalharem muito para a gente'", afirma, referindo-se ao modelo de parceria que as empresas estabelecem com os entregadores.

Com a segunda paralisação marcada para o dia 25 —embora haja conflito porque o sindicato dos motoristas defende o dia 14—, o entregador diz que se precisar recuar sua bandeira para aderir à greve, ele recua.

Quando iniciou a revolta dos entregadores? No dia 21 de março, meu aniversário de 31 anos, meu pneu furou e não tive como dar sequência no pedido da Uber. Pedi para enviarem outro entregador e a Uber disse que não tinha e que eu poderia cancelar o pedido. Questionei se seria bloqueado, a Uber disse que não. Cancelei e fui bloqueado. Ali comecei a dar sequência na luta.

Como você começou? Fiz um vídeo e, pelo Intercept, viralizou mais. Aí fiz um abaixo-assinado que bateu 100 mil assinaturas. Fui para a rua tentar convencer os companheiros nos bolsões de moto, mas eles tinham resistência.

Por quê? Acreditaram mesmo na ideia do empreendedorismo, boa parte era bolsonarista, e eu estava falando de alimentação. Chegava para abordar e eles diziam: “Ô, Galo, o aplicativo não tá bom pra você? Então desliga e vai pra Cuba”. Eu dizia: “pô, companheiro, tô numa luta por alimentação”, e eles respondiam: “Alimentação? Você tá nos tirando para mendigo? A gente quer ganhar melhor e não é só para comprar comida”. Aí fui aos companheiros de bicicleta, e eles aceitaram muito mais a ideia.

Que ideia de empreendedorismo? Qual foi a mentira que contaram para eles? "Vocês são empreendedores, são quase igual a gente, são ricos, podem ficar ricos se trabalharem muito para a gente". Só em 2019, quando fui procurar emprego de motoboy, vi que não tinha mais. O aplicativo cercou o mercado.

Me toquei que o mundo mudou. Não era mais um motoboy, eu era um entregador.

Como define o Entregadores Antifascistas? Dois dias antes da manifestação do Largo da Batata [protesto antirracista e antifascita], teve uma manifestação na av. Paulista, onde 30 entregadores quiseram fechar [a via]. A situação começou a esquentar e tomei a frente para poder dialogar com a polícia. Conseguimos controlar e chamei as pessoas para o Largo da Batata.

No meio da manifestação, abriu um espaço e fomos passando com as bicicletas, o pessoal começou a bater palma e, nessa hora, o companheiro se sentiu com autoestima.

Qual o pleito de vocês? CLT. A gente quer que os aplicativos garantam café da manhã, almoço, jantar, lanche da tarde e da madrugada, para quem trabalha nesse período. A partir disso, vamos conseguir fazer os aplicativos garantirem vínculo empregatício.

Os entregadores mais ligados ao sindicato também defendem vínculo. Vários que protestam, no entanto, defendem melhores taxas. Como encara outros grupos? Quando a greve surgiu, e surgiu de forma natural, nosso grupo entrou para apoiá-los. Muitos têm ranço da palavra antifascista, mas se eles definirem como pauta taxas maiores, taxa mínima, fim dos bloqueios e auxílio aos entregadores que se acidentarem, vamos apoiar isso.

O sindicato defende nova paralisação no dia 14, não quer se aliar a bandeiras políticas. Outra grande parte determinou que será no dia 25. Há união para o novo protesto? Unidos completamente eu acho que não estamos. Se o pessoal não quer CLT, beleza, essa é a nossa luta, estamos na greve para dar apoio. Nós e o Sindimoto não temos nada a ver. O conselho da greve definiu dia 12, o sindicato determinou dia 14, e agora ficou no dia 25.

Está havendo certa disputa, mas se tem alguém que não quer disputar isso somos nós. Deixei claro várias vezes que se não quiserem apoio, podemos nos retirar. A gente não levou bandeira para a greve.

Você é mencionado por parlamentares de esquerda, fez live com o Criolo, tem 30 mil seguidores. A rotina mudou? Mudou, mano, apanho de tudo que é lado, dos companheiros, dos aplicativos... Já fui chamado de ator contratado para difundir ideias comunistas nas motos. Outros dizem que se precisar usar violência, vou usar. A maior de todas é que sou financiado pelo PT.

Claro que os companheiros ficam preocupados. Mas sabem que a gente conseguiu colocar o #BrequeDosaApps no Trending Topics do Twitter.

Está sendo convidado a outras atividades pagas? Tentaram me fazer virar coach, mas não é minha praia, é contra minha ideologia [risos]. Entendo meus companheiros que não gostam de mim, eles acham que vou virar político, mas quero ser político de rua até o fim da vida, não quero me candidatar a um cargo público. Sou artista, do hip hop, mas ser artista e pobre é uma coisa muito difícil.

Posso falar políticos de rua que respeito? Jesus Cristo, Gandhi, Luther King, Malcolm X, Tupac Amaro, Emiliano Zapata, Zumbi dos Palmares, Joana D’Arc, Rosa Luxemburgo.

O que aconteceu com o entregador durante a pandemia? Foi aumento de mão de obra? Os números que tenho são: antigamente tínhamos 30 mil CLT motoboys, hoje acho que são 5.000. Todo mundo foi para o aplicativo. Os aplicativos triplicaram o número de trabalhadores nas ruas. Uma empresa que não tem responsabilidade nenhuma com os trabalhadores pode ter quantos quiser, certo? Então rapaziada está ganhando menos. Rapaziada, não, machismo da minha parte.

O sistema de pontuação tem sido muito criticado. Pode citar os problemas? Bater ponto sem ser registrado. Para trabalhar em Moema, por exemplo, você precisa de 600 pontos, que você tem que fazer no dia anterior. Se tiver 1.200 pontos, pode ir para a Paulista.

Você acaba ficando preso a um aplicativo. Você fez 400 pontos num dia, aí sua moto quebrou, você vai para casa, gasta dinheiro. No outro dia, não acessa o lugar onde trabalhava porque não tem pontuação suficiente.

Outro pleito dos entregadores é o fim dos bloqueios chamados de injustificados. Quando você recusa pedido, entra no chamado bloqueio por 30 minutos. Por exemplo, quando fazemos paralisação, os aplicativos bloqueiam por um tempo. Você fica online, não aparece bloqueado, mas não recebe pedido. É temporário. Não estou ligando mais o aplicativo.

Tem outro problema: se você cancelar um pedido, fica com a dívida. Consegue apelar, mas tem que provar muito bem provado. Se o cliente cancelar comida, você tem que perder dia inteiro na central de um aplicativo para entregar, aí chega lá e tem um monte de entregador com fome para poder tirar a dívida.

Galo usa bag com símbolo do movimento, que tem 40 lideranças no Brasil e braços em outros países da América Latina
Galo usa bag com símbolo do movimento, que tem 40 lideranças no Brasil e braços em outros países da América Latina - Danilo Verpa/Folhapress

Qual a média feita por um trabalhador da entrega em São Paulo? Depende, já fiquei quatro horas parado num pedido para ganhar R$ 7. Um mês bom é quando chove muito e tem alagamento em São Paulo, aí dá R$ 120 por dia trabalhando 12 horas, seis vezes por semana. Mas isso você tira prestação da moto, plano de celular, manutenção, alimentação, seguro. Não aguentei pagar.

O que me revoltava era trabalhar carregando comida nas costas de barriga vazia. Porque eles dão comida de graça para os clientes.

Como assim? Eles fazem promoção: estrogonofe de camarão a R$ 1 para roubar cliente um do outro. Ifood rouba cliente da Uber, Uber rouba cliente da Rappi.

Como tem sido o acesso a itens de higiene? Não é fácil. Isso está documentado em um filme chamado Pandelivery, que nos acompanha desde o início da pandemia e será lançado em julho. Nele, tem entregador infectado com Covid que foi bloqueado. O que as pessoas têm que entender é o que valor de mercado dessas empresas, dos unicórnios [empresas que valem mais de US$ 1 bilhão no mercado financeiro], foi baseado no não vínculo empregatício.

RAIO X

Paulistano, trabalhou como motoboy de 2012 a 2015, com retorno ao setor em 2019, como entregador de aplicativos. Tem ensino médio incompleto. É político de rua, compositor e cantor de hip hop.

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