Bares, café e restaurantes desligam aplicativos em apoio a entregadores

Estabelecimentos fizeram entrega própria e ofereceram descontos para o cliente que retirasse o pedido no local

São Paulo

Em apoio aos protestos promovidos por entregadores de aplicativos nesta quarta-feira (1º), bares, cafés e restaurantes desativaram sua presença nos apps e promoveram ações para diminuir possíveis perdas com a queda das entregas.

Além de descontos para clientes que optavam por retirar o pedido no local, alguns estabelecimentos também fizeram entregas no entorno, com carros próprios.

Para muitos desses estabelecimentos, o delivery tem sido a principal fonte de receita desde março, quando governos estaduais e municipais fecharam serviços não essenciais para tentar deter o avanço do coronavírus. Segundo estimativa da Abrasel (Associação de Bares e Restaurantes), 40% dos bares e restaurantes do estado de São Paulo podem fechar as portas em definitivo até o término da crise causada pela Covid-19.

Programada para acontecer há um mês, a paralisação de motoristas dos aplicativos de entrega durou mais de sete horas nesta quarta. O protesto teve abrangência nacional e reivindicava taxas de entregas mais justas e ajuda com itens básicos de proteção durante a pandemia de coronavírus.

Mesmo sem um sistema de delivery próprio, a cozinheira Roberta Julião, 34, dona do café Da Feira ao Baile, decidiu não vender seus doces e tortas por meio de aplicativo. Nesta quarta-feira, a marca só trabalhou com a retirada feita por clientes.

“É uma decisão difícil fechar o aplicativo porque é a única coisa que está dando faturamento neste momento. Mas, se os entregadores querem fazer barulho, quanto maior a adesão, mais fácil de eles conseguirem algo”, diz.

Além da redução nos pedidos durante o horário de almoço (que caíram de cerca de 60 para 30), Roberta Julião também teve de transferir a produção de sua cozinha industrial, em Pinheiros, para o espaço do café, nos Jardins, que estava fechado –onde conseguiria atender melhor os clientes que foram buscar a comida. Sem ter que pagar taxas às empresas de entrega, a cozinheira pôde dar 15% de desconto nos pedidos retirados ali.

A Torteria, que tem unidades em Pinheiros, Higienópolis e no Morumbi, também avisou clientes por redes sociais que permaneceria com aplicativos desligados nesta quarta.

“Sem motoboy a gente não estaria funcionando. Queremos enfatizar a importância desse trabalho no instante em que os restaurantes estão passando pelo seu pior momento. Mas é uma discussão que precisa ser colocada”, diz Fernando Martins, 37, proprietário. A casa fez atendimento por retirada nesta quarta, oferecendo desconto de 10% nas compras.

Segundo o presidente da ANR (Associação Nacional de Restaurantes), Cristiano Melles, é preciso que haja equilíbrio na relação de taxas pagas e cobradas entre estabelecimentos, aplicativos e motoristas.

“Com as altas taxas que os aplicativos cobram dos restaurantes, não faz sentido na nossa cabeça que não haja uma condição mínima de trabalho para os motoboys. As vendas foram menores, mas eles são importantes no processo e o pleito está dentro da normalidade”, disse.

Ele afirma que os estabelecimentos pagam uma média de 20% a 25% do que vendem aos apps. “É muito caro, principalmente para um setor que não consegue ter uma rentabilidade maior do que 8%”, afirmou Melles.

Telma Shiraishi, 50, chef do japonês Aizomê, no Jardim Paulista, também decidiu desligar aplicativos como forma de apoiar a greve. “Os entregadores são uma extensão do nosso trabalho. A situação é complexa, tem muitos lados envolvidos. Mas a ideia é conscientizar, chamar atenção para essa questão”, diz a chef.

Sem o uso de app, a operação da casa caiu a um quarto do normal. Além de incentivar os clientes a retirarem na casa, o restaurante também atendeu algumas entregas com carro próprio, com escala menor. “Muitos entregadores estão carregando comida, mas não conseguem parar para comer”, diz Shiraishi. Com o início da pandemia, a casa disponibilizou aos motoboys uma pia externa para higienização, água potável e cerca de 20 marmitas por dia para aqueles que não conseguiram fazer refeições.

Em março, bares e restaurantes também já haviam reivindicado a flexibilização de custos nos aplicativos de entrega –que ganham um percentual sobre todas as vendas feitas.

O presidente da Abrasel, Percival Maricato, disse que a entidade não poderia se posicionar contra o protesto.

“Lamentamos a época do protesto, que aconteceu em um momento que delivery nunca foi tão importante. A gente acaba amargando certo prejuízo, mas nem por isso nos posicionamos contra o protesto da categoria [de entregadores]. Os aplicativos precisam melhorar”, afirmou.

Ele afirmou que a associação discute com os aplicativos o acesso aos de dados dos clientes para a personalização de promoções próprias dos restaurantes e também a possibilidade de formar uma cooperativa regional entre restaurantes e motoqueiros, visando uma interação fora dos aplicativos de entrega.

“Cada vez orientamos mais a divulgação de entrega própria ou retirada no estabelecimento. Também já falamos sobre a criação de cooperativas no médio prazo. Os aplicativos são bem-vindos para complementarem o setor, mas não podemos ficar completamente dependentes deles”, disse Maricato.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.