Descrição de chapéu
Marcos Nogueira

Bares 'cidadãos' resistem à reabertura no Rio

Para preservar clientes, funcionários e o caixa, botequins cariocas seguem operando apenas com comida para viagem

Ubatuba (SP)

“Cidadão, não: engenheiro civil [pausa] formado [pausa] melhor do que você.” A carteirada de na fiscalização da Vigilância Sanitária, que buscava dissipar aglomerações em bares, é a imagem que o Rio deixou impressa nas mentes brasileiras na última semana.

Na Barra da Tijuca (onde o “Fantástico” gravou a cena), no Leblon e em Copacabana, a boemia se comportou sordidamente. Corjas de bebedores desmascarados desafiaram a lei e pisotearam as regras mais básicas da civilidade –com a complacência dos donos dos botecos, que não optaram por passar a régua geral quando perderam o controle da situação.

Pegou mal para o Rio. E respingou na reputação de toda a categoria de taberneiros da Guanabara. Muito injusto para a cidade que inventou o boteco do português –se lhe disserem que foi Lisboa, Braga ou Porto, não acredite.

A maior parte dos donos de bar reabriu tímida, cautelosa e temerosa de não recuperar a clientela. Uma parcela dos botequins, numa postura cidadã, decidiu por não voltar ainda ao serviço.

Calçadas do Leblon lotadas no primeiro dia de abertura dos bares e restaurantes no Rio
Calçadas do Leblon lotadas no primeiro dia de abertura dos bares e restaurantes no Rio - Reprodução

É o caso do Aconchego Carioca, bar da global Kátia Barbosa –jurada do reality show “Mestre do Sabor”. Desde o início da pandemia da Covid-19, ela precisou fechar permanentemente duas unidades (no Leblon e um quiosque na orla do Leme) e manter apenas com entregas a matriz, na Praça da Bandeira (zona norte).

Kátia não pretende reabrir tão cedo o salão da bodega. “Vamos aguardar essa loucura passar”, diz a empresária. “Não acho que a epidemia esteja controlada ainda.”

Opinião semelhante tem Antonio Laffargue, o Toninho do Bar do Momo, tradicional na Tijuca (também na zona norte). “Nós estamos conseguindo pagar as contas com o delivery”, afirma. “Vamos manter assim para preservar nossos funcionários e clientes.”

A Wursteria, no mesmo bairro, tem uma razão adicional para não voltar à “normalidade”: o custo envolvido na retomada. “A gente demitiu pessoas do atendimento e até levou as mesas para um depósito”, conta o sócio Julio Ferretti.

Outro bar tijucano, o Madrid não vê vantagem em receber fregueses com as normas sanitárias impostas. “Reduzimos bastante os custos fixos e estamos fechando as contas com as entregas”, diz o sócio Felipe Quintans. “Se funcionarmos com metade do salão, teremos prejuízo.”

Fechamento radical foi a solução encontrada pelo Bar do Omar –reduto de jovens esquerdistas no Morro do Pinto, zona portuária do Rio.

“Quando chegaram as primeiras notícias da epidemia na China, nos preparamos para o pior: cortamos todos os custos possíveis e criamos um fundo emergencial para pagar a equipe”, afirma Omar Monteiro Junior, filho do Omar que dá nome ao boteco.

Antes de administrar o negócio do pai, Omar Junior trabalhava com planejamento financeiro. “Dono de boteco não faz planilha”, provoca. “Pois deveria.” Sem receita na pandemia, ele diz que paga até os avulsos que contratava para as noites de samba. “Estão todos desesperados para o bar voltar.”

Omar admite que não teria condições de manter o negócio em suspenso se tivesse as despesas de um ponto no Leblon. Na zona sul, com aluguéis bem superiores aos da Tijuca e do centro, os bares dependem mais das pessoas que circulam na rua. Por isso, a reabertura veio como um respiro após meses de sufoco.

“A cidade já estava toda aberta, até os camelôs estavam liberados”, desabafa Kadu Tomé, dono do Bracarense, no Leblon desde 1961. Ele diz que se reuniu com os funcionários e, de todos, ouviu o desejo de voltar a trabalhar. “Implementamos todos os protocolos exigidos e fomos em frente”. Até agora, não houve por lá problemas como a multidão da praça Cazuza –um ponto peculiar porque aglomera bares, restaurantes e ambulantes com isopores lotados de cerveja.

“Ver o bar aberto depois de três meses foi um alívio que eu nunca tinha imaginado antes”, diz o dono do Bracarense.

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