Centenário de Celso Furtado reforça novo debate sobre papel do Estado na economia

Autor de Formação Econômica do Brasil defendia industrialização contra atraso no desenvolvimento

São Paulo

O centenário de nascimento do economista Celso Furtado, autor do clássico "Formação Econômica do Brasil" (1959), que se comemora neste domingo (26), levanta discussões sobre a presença do Estado na economia, como um país em desenvolvimento pode superar os atrasos tecnológicos em relação às grandes economistas desenvolvidas, além do cada vez mais atual debate sobre a desigualdade de renda.

“Meu primeiro interesse foi a ciência política. Daí fui para as ciências sociais em geral, e daí é que fui para a economia. Se você não tem ideias claras e evidentes sobre a economia na sociedade, fica sempre um pouco no superficial. Para entender a vida da sociedade é preciso saber como é que se mata a fome, primeiro”, afirmou Furtado em suas memórias.

Assim, justificava a decisão de não seguir a carreira de advogado, como o pai, depois de se formar em Direito. “No último ano de faculdade, já estava mesmo quase que só com a Economia. Já tinha me desinteressado pelo Direito, que me parecia ser algo para legitimar o que existia.”

Celso Furtado fala em seminário em 1989; pesquisador multidisciplinar, dizia que a economia não tem todas as respostas para o desenvolvimento
Celso Furtado fala em seminário em 1989; pesquisador multidisciplinar, dizia que a economia não tem todas as respostas para o desenvolvimento - Luiz Carlos Murauskas/Folhapress

Nelson Marconi, professor da Eaesp-FGV (Escola da Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas), afirma que uma das ideias centrais de “Formação Econômica do Brasil” é a discussão sobre a necessidade de o país se industrializar, ter uma estratégia para romper o atraso no processo de desenvolvimento.

Segundo ele, esse é um tema ainda mais atual no momento em que o país passa por um processo de desindustrialização, iniciado ainda na década passada, acentuado na última recessão (2014-2016) e explicitado, mais recentemente, pela limitação na produção de insumos necessários para o enfrentamento da atual pandemia.

Apesar de as propostas de Furtado para alcançar essa industrialização não serem as mesmas que se aplicam ao cenário atual —ele propunha, por exemplo, taxas de câmbio múltiplas e uma forte política de substituição de importações—, isso não invalida suas ideias principais, segundo Marconi.

“Quando a gente traz para os dias de hoje essa discussão, se tivéssemos avançado mais no processo de industrialização, e não regredido, estaríamos enfrentando melhor essa pandemia. A gente precisaria voltar a se industrializar para poder crescer com mais autonomia, mas a gente regrediu, nossa economia está se primarizando”, afirma Marconi, ao destacar a dependência do país das exportações de commodities, como na época em que o clássico de Furtado foi escrito.

A questão das desigualdades regionais é outro tema atual, segundo o economista Celso Mangueira, presidente Corecon (Conselho Regional de Economia) da Paraíba, que tem organizado diversos eventos na terra natal do homenageado.

Furtado participou da criação da Sudene (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste), que presidiu durante os governo JK, Jânio Quadros e João Goulart, antes de se tornar, na gestão desse último presidente, o primeiro ministro do Planejamento do Brasil.

“Acima de tudo, ele é considerado um dos grandes intérpretes do nosso país. ‘Formação Econômica’ foi traduzido em mais de dez idiomas, adotado em diversas universidades, não só no curso de Economia, mas também em outras ciências sociais. O livro traduz a evolução econômica do nosso país, caracterizando um país subdesenvolvido, dependente das economias centrais. Isso desemboca em sua preocupação maior, que é usar todo seu conhecimento para enfrentar a questão da desigualdade na região Nordeste, onde ele viveu na sua infância e adolescência”, afirma Mangueira.

Tido como um dos fundadores e principais expoentes do desenvolvimentismo na América Latina, Furtado é frequentemente associado ao pensamento de esquerda, apesar de ter se filiado ao PMDB em seu retorno ao país após a Anistia e ter sido ministro da Cultura no governo José Sarney (1985-1990), político que havia apoiado o governo militar.

“Ele tinha uma tendência um pouco mais à esquerda, mas não era um homem de esquerda. Estudou [Karl] Marx, mas não tinha admiração por Marx. Com [John Maynard] Keynes também tinha suas restrições. Fazia uma crítica da desigualdade. Defendia o desenvolvimento, a industrialização. A presença do Estado em áreas em que a iniciativa privada não tivesse condições de mobilizar recursos para as nossas necessidades em termos de infraestrutura, mas de uma forma radical. Tinha preocupação com a questão das contas públicas, do equilíbrio fiscal”, afirma Mangueira.

Ainda assim, Furtado tinha grandes divergências com economistas brasileiros liberais, como os ex-ministros Roberto Campos (1917-2001) e Mário Henrique Simonsen (1935-1997), o que é lembrado pelo economista Edmar Bacha, ex-presidente do BNDES e um dos autores do Plano Real, em homenagem feita pela ABL (Academia Brasileira de Letras), para a qual Furtado foi eleito em agosto de 1997.

Bacha conviveu com o economista por cerca de um ano, nos EUA, durante parte do exílio de Furtado após o Golpe Militar de 1964.

Segundo Bacha, Furtado não acreditava no sucesso do plano econômico do governo Castelo Branco, que acabaria por pavimentar o caminho para o “milagre” dos anos 1970.

“Celso Furtado parece não acreditar em uma reviravolta no plano político, assim como não acredita no sucesso da política econômica. Ele acha que a ideia do Roberto Campos é repetir o êxito do Estado associado com os EUA, tipo o Canadá, o que julga não ser factível”, afirma Bacha ao citar uma carta que escreveu na época.

O economista Andre Tosi Furtado, professor da Unicamp e filho de Celso Furtado, destaca a importância da passagem de seu pai, em 1949, pela recém-criada Cepal (Comissão Econômica para a América Latina, órgão das Nações Unidas).

“Meu pai não pode ser entendido sem pensar a América Latina e esse grupo que reinterpretou a economia da região. O pensamento de Celso Furtado e da Cepal deve ser visto como uma variante da visão crítica da economia política aplicada aos países periféricos. Repensar a teoria econômica diante da realidade desses países”, afirmou o professor durante palestra parte das comemorações do centenário na última semana.

Uma dessas críticas se refere ao pensamento dominante de que esses países estavam no mesmo caminho das economias centrais, apenas um pouco atrasados em seu nível de desenvolvimento. Para Furtado, estavam em trajetórias diferentes e caberia ao Estado, por exemplo, atuar para colocá-los no rumo de desenvolvimento.

Tosi Furtado destaca também o pensamento multidisciplinar do pai, que acreditava que a economia não tem todas as respostas e é dependente de outras disciplinas sociais.

“A economia não chegaria a ser para mim mais do que um instrumental que me permitiria, com maior eficácia, tratar problemas que me vinham da observação da história ou da vida dos homens em sociedade. Nunca pude compreender a existência de um problema estritamente econômico”, afirmou o pai no texto “Autoretrato Intelectual”.​

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