Descrição de chapéu The Wall Street Journal

Covid-19 faz economia dos EUA ter perda recorde no 2° trimestre

Queda foi de 9,5%; anualizado, PIB tem retração de 32,9%, maior declínio desde que o governo começou a registrar os dados em 1947

Lucia Mutikani
Washington | The Wall Street Journal

A economia dos Estados Unidos se contraiu em nível recorde no trimestre passado, e o número semanal de pedidos de auxílio-desemprego subiu pela segunda semana consecutiva, em meio a sinais de uma desaceleração na recuperação.

O Departamento do Comércio anunciou que o PIB (Produto Interno Bruto) dos Estados Unidos caiu em 32,9%, em termos anualizados, no segundo trimestre, e sofreu queda de 9,5% em relação ao mesmo período em 2019. Os dois números representam as marcas de maior baixa em séries históricas iniciadas em 1947.

O declínio veio com a imposição de medidas de lockdown por estados de todo o país, para conter o coronavírus; essas restrições terminaram canceladas semanas mais tarde. Os economistas antecipam uma retomada do crescimento econômico no terceiro trimestre, iniciado em 1º de julho.

Outro dado divulgado foi o de que as solicitações de auxílio-desemprego subiram por um total sazonalmente ajustado de 12 mil pedidos, para 1,43 milhão na semana encerrada em 25 de julho, informou o Departamento do Trabalho na quinta-feira (30). Os pedidos de auxílio-desemprego caíram depois de chegar a um pico no final de março, mas continuam elevados em termos históricos.

Uma disparada nos contágios pelos vírus da metade de junho para cá parece estar desacelerando a recuperação em alguns estados, de acordo com alguns dados em tempo real recolhidos pelo setor privado.

“A ressalva essencial é que as coisas não ficarão tão melhores quanto antecipávamos alguns meses atrás”, disse Ian Shepherdson, economista chefe da consultoria Pantheon Macroeconomics, sobre o terceiro trimestre, mencionando a aceleração no número de casos novos de coronavírus.

O índice de transações com cartões de crédito e débito do banco JPMorgan, por exemplo, demonstrou que os gastos subiram em maio e no começo de junho, mas depois se estagnaram e na semana passada se mantiveram inalterados. Dados da Facteus, que rastreia as transações de 15 milhões de portadores de cartões de crédito e débito, também indicam que os gastos em restaurantes estavam crescendo em junho mas a alta estacou, de lá para cá.

O Serviço de Recenseamento dos Estados Unidos também informou em sua mais recente pesquisa quinzenal sobre a situação econômica dos domicílios do país que 51,1% dos domicílios haviam sofrido perda de renda relacionada ao emprego na semana encerrada em 21 de julho, ante 48,8% quatro semanas atrás.

Bandeira norte-americana em Nova York, Estados Unidos - Johannes Eisele/AFP

“O principal foco agora está naquilo que vem acontecendo no terceiro trimestre, em busca de possíveis sinais de desaceleração nos indicadores de alta frequência”, disse Andrew Hunter, economista da Capital Economics.

A contração projetada para o segundo trimestre seria a queda mais severa já registrada, desde que esses dados começaram a ser acompanhados em 1947, e um declínio mais de três vezes superior ao do primeiro trimestre de 1958, quando o PIB caiu em ritmo anualizado de 10%.

O relatório sobre o PIB deve mostrar o efeito pesado dos lockdowns, distanciamento social e outras medidas de combate à expansão do vírus sobre os gastos dos consumidores e das empresas. Os estados recomeçaram a abrir suas economias em maio —o que resultou em uma recuperação parcial no emprego e no consumo—, mas alguns deles voltaram a impor restrições, posteriormente, por conta do aumento no número de contágios.

“Pelo final do [segundo] trimestre, não há questão de que as coisas haviam melhorado substancialmente, mas o início do trimestre foi tão horrível que o trimestre como um todo será péssimo”, disse Shepherdson.

Matt Godden, presidente-executivo da Centerline Logistics, operadora de transporte marítimo de petróleo sediada em Seattle, disse ter visto sinais encorajadores no setor de navegação.

“Se considerarmos os volumes de julho, há alguns sinais decentes de esperança”, como o tráfego ampliado de navios e alguma estabilização nos mercados de energia, ele disse. “Os clientes de contêineres podem ter realizado cortes excessivos”, ele acrescentou, dizendo que alguns deles agora estão tentando elevar sua capacidade de transporte.

O consumo, especialmente o de itens de preço elevado como casas, carros e outras aquisições de uso prolongado, aumentou em junho. Os empregadores também criaram 4,8 milhões de postos de trabalho no mês, ainda que a recuperação do mercado de trabalho possa estar se desacelerando também.

Na quarta-feira (29), a Boeing anunciou que reduziria ainda mais sua produção de jatos comerciais e cortaria ainda mais trabalhadores. Companhias como a Harley-Davidson e o LinkedIn, controlado pela Microsoft, também anunciaram demissões em junho.

O número diário de contágios pelo coronavírus nos Estados Unidos mostrou sinais recentes de estabilização, depois das restrições que voltaram a ser adotadas nos últimos dias, mas a pandemia continua a lançar uma sombra sobre a economia.

O Conference Board, uma organização privada de pesquisa, afirmou na terça-feira que seu índice de confiança do consumidor caiu a 92,6 pontos em julho ante 98,3 em junho, já que os consumidores se tornaram menos otimistas sobre as perspectivas da economia e do mercado de trabalho em curto prazo.

Nadia Montoya perdeu seu emprego como confeiteira em um restaurante em Novato, Califórnia, no final de março, por causa da pandemia. Ela agora está trabalhando em tempo parcial em um supermercado orgânico, e fazendo sobremesas em casa para amigos e vizinhos, a fim de ajudar a cobrir as despesas.

“Coisas que eram relativamente normais para nós —tirar férias, acampar, sair para comer fora com as crianças— mudaram, já que não podemos fazer nada disso porque os estabelecimentos estão fechados e além disso não temos dinheiro”, ela disse. “As coisas estão realmente difíceis agora”.

Empresas também mencionaram as incertezas criadas pela pandemia.

“Há muito caos no mercado. As pessoas não sabem ao certo se os seus estados não vão fechar tudo amanhã”, disse John Flynn, presidente-executivo da Fleet Advantage, uma empresa de locação de caminhões em Fort Lauderdale, Flóri da. “O ano vai ser duro para todo mundo”.

“Todos estão muito, muito cautelosos”, disse Mike Cavanagh, dono da Key Code Media, uma companhia de produção audiovisual em Burbank, Califórnia, acrescentando que ele tem negócios chegando mas seus clientes continuam nervosos com relação à economia. “Acho que a melhor maneira de resumir é dizer que estou indo em frente aos trancos e barrancos”.

O Congresso dos Estados Unidos aprovou trilhõe s de dólares em estímulo para ajudar os domicílios e empresas do país a sobreviver à pandemia, e um novo pacote está em negociação no Capitólio. Um componente importante – pagamentos semanais adicionais de US$ 600 aos beneficiários de auxílio-desemprego – vai expirar no final de julho, mas os legisladores estão discutindo se e como estender essa forma de assistência.

Tradução de Paulo Migliacci

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