Descrição de chapéu Financial Times

Empresas apostam em novo modelo 5G para contornar dependência da Huawei

Analistas alertam, porém, que o padrão continua a ter escala pequena e pode ser superestimado

Nic Fildes
Londres | Financial Times

Tareq Amin costumava trabalhar como vendedor da Huawei nos Estados Unidos. Agora, ele tem uma visão sobre como o planeta pode construir redes 5G de altíssima velocidade sem recorrer à tecnologia líder de mercado desenvolvida pela companhia chinesa.

Amin é um dos pioneiros do “OpenRAN”, um movimento nascente que está a ponto de lançar uma rede 5G nacional sem a ajuda da Huawei ou de sua principal concorrente europeia, a Ericsson.

A gigante do comércio eletrônico Rakuten contratou Amin em 2018 depois de ser informada sobre como ele planejava quebrar o domínio dos três grandes fornecedores de equipamento –Huawei, Ericsson e Nokia– sobre o mercado.

Desde então, ele vem trabalhando na primeira rede de acesso por rádio (RAN, na sigla em inglês) do Japão em uma década, e em abril, com uma equipe básica de apenas 10 pessoas, a Rakuten ativou seu novo serviço, cuja velocidade a companhia pretende aumentar para o padrão 5G em outubro. O progresso do projeto vem sendo acompanhado por dezenas de empresas de telecomunicações e organizações governamentais em todo o mundo.

Loja da marca chinesa Huawei em Pequim
Loja da marca chinesa Huawei em Pequim - Nicolas Asouri/AFP

O lançamento da Rakuten é um momento crucial para provar se a tecnologia de redes de fonte aberta é capaz de funcionar em grande escala, e surge diante de um cenário de pressão mundial pelo desenvolvimento de alternativas à tecnologia de telecomunicações da Huawei.

As redes móveis tradicionais dependem de equipamento que combina de forma estreita hardware, como antenas e gabinetes, e software exclusivos oferecido pelos três grandes fornecedores.

Em contraste, Amin vem tentando desempacotar esse arranjo, usando software de fonte aberta a fim de operar a nova rede da Rakuten, que é o primeiro sistema a operar integralmente em padrão OpenRAN no planeta.

Para acalmar as queixas das empresas quanto à disparada que os preços sofrerão caso só restem dois grandes fornecedores no mercado –Ericsson e Nokia–, o governo do Reino Unido apontou para o potencial do padrão OpenRAN e convocou seus aliados a colocá-lo em posição central em sua estratégia industrial.

Com seu sistema, Amin disse que ele poderia colocar uma nova antena de rádio em operação em pouco mais de oito minutos, ante o prazo de cinco a 10 dias requerido para equipamento convencional. O custo de lançamento de uma rede 5G, disse ele, seria 45% mais baixo do que seria o caso com o uso de equipamento tradicional.

“Estamos diante apenas de um primeiro vislumbre do que é possível”, ele disse sobre as redes OpenRAN. “As pessoas ou são muito fanáticas sobre aquilo que estão fazendo ou estão preocupadas a respeito. Isso é normal”.

A Rakuten não está sozinha em pressionar por uma reacomodação no mercado. Em 2018, as operadoras de telecomunicações NTT, Orange, China Mobile e AT&T formaram a aliança OpenRAN, a fim de estudar a ideia, e o Facebook também está estudando a tecnologia, por meio do Telecom Infra Project.

“O trem claramente deixou a estação. Agora é determinar que velocidade ele vai atingir”, disse John Baker, vice-presidente sênior da Mavenir, uma empresa de software de fonte aberta dos Estados Unidos. “Nokia e Ericsson afirmam ser as melhores naquilo que fazem mas, assim que surge concorrência, elas fogem correndo”, ele disse, acrescentando que as duas empresas perderiam seu domínio sobre os equipamentos de rádio em todo o mundo da mesma maneira que haviam perdido seu domínio sobre o mercado mundial de celulares.

Se o padrão OpenRAN se tornar popular, as redes móveis poderão estudar e escolher software e hardware diferente de diversos fornecedores, em lugar de ficarem restritas a tecnologias exclusivas por anos.

Os sistemas abertos permitiriam que fornecedores menores de software, como a Mavenir, Parallel Wireless e Altiostar –na qual a Rakuten investiu– crescessem como concorrentes no mercado. Enquanto isso, fornecedores como a NEC, Fujitsu e Samsung reconquistariam espaço no mercado mundial de hardware de telecomunicações. Em resposta, a Nokia, que vem enfrentando dificuldades, decidiu ela mesma adotar o software de fonte aberta.

O equipamento de acesso via rádio representa até 70% do investimento de capital das empresas de telecomunicações, e por isso o sucesso inicial da Rakuten, com um milhão de clientes assinando até o momento, encorajou outras empresas a ingressar no mercado, como a Dish nos Estados Unidos e a 1&1 Drillisch na Alemanha.

Mas alguns analistas acautelaram que o padrão OpenRAN continua a ter escala pequena e que corre o risco de ser superestimado, por conta do acalorado debate sobre a Huawei. Uma aliança chamada OpenRAN Policy Coalition, composta por empresas de tecnologia americanas e japonesas mas excluindo integrantes chinesas, também está testando sistemas de fonte aberta e fez lobby junto a parlamentares britânicos antes que o governo do Reino Unido revertesse sua decisão, que inicialmente autorizava o uso de equipamentos da Huawei em redes 5G.

O progresso vem acontecendo aos solavancos, especialmente na Europa, de acordo com David Levi, presidente-executivo da Ethernity Network, cujas ações são cotadas no mercado AIM da Bolsa de Valores de Londres. Ele disse que uma empresa o havia encaminhado aos seus fornecedores, a fim de discutir sua tecnologia de aceleração de fluxo de dados, mas que eles haviam demonstrado pouco interesse em levar a ideia adiante.

Amin admitiu que o setor de fonte aberta, ainda incipiente, precisava de mais investimento em áreas como o desenvolvimento de chips, se desejava enfrentar fornecedores com décadas de experiência.

“Existe um motivo para que no passado houvesse 12 fornecedores [de equipamento de telecomunicações] no passado e agora só restem três. É um mercado de margens baixas, difícil, e o capital de risco é escasso”, disse um executivo de telecomunicações.

Financial Times, tradução de Paulo Migliacci

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