Fundador da rede Ricardo Eletro é preso em SP por sonegação fiscal de R$ 390 mi

Ricardo Nunes, ex-acionista da empresa, é investigado pelo não pagamento de ICMS em Minas Gerais

São Paulo

O empresário Ricardo Nunes, fundador e ex-controlador da Máquina de Vendas, dona da rede Ricardo Eletro, foi preso na manhã desta quarta-feira (8) em São Paulo em uma operação que investiga sonegação fiscal de R$ 387 milhões de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) em Minas Gerais.

Apelidada de "Direto com o Dono", a operação prendeu também Laura Nunes, filha do empresário, em Belo Horizonte. Ela foi solta em seguida pelo juiz José Venâncio de Miranda Neto porque "colaborou plenamente com o bom andamento das investigações", segundo decisão do magistrado.

Pedro Magalhães, diretor financeiro da Máquina de Vendas, teve mandado de prisão decretado, não foi localizado em sua casa, em Santo André, e é considerado foragido.

A advogada de Magalhães, Debora Pimentel, afirmou que ele havia se mudado e, por isso, não estava no endereço em que os agentes foram procurá-lo. Ela afirma que o executivo está à disposição da Justiça. O juiz Miranda Neto revogou o pedido de prisão temporária de Magalhães "mediante a condição de comparecimento para prestar esclarecimentos à polícia civil e Ministério Público até dia 10".

A força-tarefa investiga a sonegação de ICMS em Minas Gerais ao longo de cinco anos, entre 2014 e 2019, por empresas controladas nesse período por Ricardo Nunes. A operação foi comandada pelo Ministério Público de Minas Gerais, pela Secretaria da Fazenda mineira e pela polícia civil do estado.

O empresário Ricardo Nunes durante anúncio da fusão da Ricardo Eletro e da Insinuante, em 2010 - Luiz Carlos Murauskas - 29.mar.10/Folhapress

No ano passado, a Máquina de Vendas foi a 22º maior varejista do país segundo o ranking elaborado pelo Ibevar (Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado), com receita anual estimada em R$ 5,5 bilhões. No mesmo ranking, em 2011, ela estava em 5º lugar.

A companhia está em recuperação extrajudicial desde o ano passado, e tem como seus principais credores bancos, fornecedores e a gestora de fundos Starboard.

A empresa e outras companhias ligadas a Nunes recolhiam o ICMS embutido no preço dos produtos, mas não repassava ao Estado, segundo investigação do Ministério Público de Minas Gerais.

A Justiça de Minas Gerais determinou também o sequestro de imóveis de Ricardo Nunes avaliados em aproximadamente R$ 60 milhões, para pagamento da dívida tributária.

Ao todo, a força-tarefa da operação "Direto com o Dono" cumpriu nesta quarta quatorze mandados de busca e apreensão em Belo Horizonte, Contagem (MG), Nova Lima (MG), São Paulo e Santo André.

Um segurança de uma das casas em que os policiais cumpriam mandado de prisão foi detido por tentar impedir a entrada dos agentes, segundo o governo mineiro.

O Ministério Público de Minas Gerais diz que a investigação ganhou força após decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), de dezembro de 2019, "que definiu como crime a apropriação de ICMS cobrado de consumidores em geral e não repassados ao Estado".

Em 2011, Ricardo Nunes já havia sido condenado pela Justiça Federal a três anos e quatro meses de prisão pelo crime de corrupção ativa por ter pago propina em 2008 a um auditor fiscal da Receita Federal para que a Ricardo Eletro não fosse autuada por sonegação de impostos em Minas Gerais.

O esquema envolvia a contabilização de vendas por valores inferiores ao cobrado dos consumidores.

Procurada, a Ricardo Eletro afirma que Nunes e seus familiares deixaram de ser acionistas da Máquina de Vendas no ano passado. Hoje, a empresa é controlada pela MV Participações, que teve Nunes como diretor até 9 de outubro de 2019.

Pedro Henrique Torres Bianchi foi escolhido na mesma data diretor da MV Participações. O executivo diz em seu perfil no LinkedIn, que é presidente da Máquina de Vendas desde janeiro.

Questionada sobre seus atuais controladores, a Máquina de Vendas não respondeu. "A Ricardo Eletro pertence a um fundo de investimento em participação, que vem trabalhando para superar as crises financeiras que assolam a companhia desde 2017, sendo inclusive objeto de recuperação extrajudicial devidamente homologada perante a Justiça, em 2019", disse a companhia em nota.

Segundo a Ricardo Eletro, a operação desta quinta "faz parte de processos anteriores a gestão atual da companhia e dizem respeito a supostos atos praticados por Ricardo Nunes e familiares" que não teriam ligação com a companhia.

Pessoas familiarizadas com a empresa, no entanto, afirmam que Nunes mantém influência na diretoria atual da Máquina de Vendas.

"Em relação à dívida com o Estado de MG, a Ricardo Eletro reconhece parcialmente as dívidas e, antes da pandemia, estava em discussão avançada com o Estado para pagamento dos tributos passados", afima a empresa.

A reportagem não conseguiu localizar as defesas do empresário Ricardo Nunes e de sua filha Laura Nunes.

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