Fundo Nordea exclui investimento na JBS e avalia ligação de empresas com desmate

Gestora monitora situação do Brasil para decidir se voltará a adquirir títulos da dívida soberana do país

São Paulo e Bruxelas

“Você não pode apenas possuir ações de uma empresa sem saber como eles fazem negócios. Isso está ficando fora de moda", disse à Folha Eric Pedersen, diretor de investimentos responsáveis ​​da Nordea Asset Management.

A gestora de investimentos escandinava excluiu investimentos na empresa brasileira JBS de todos os seus fundos neste mês. A decisão foi tomada pelo Comitê de Investimentos Responsáveis. ​​

As negociações envolviam o risco de desmatamento na cadeia de suprimentos, governança corporativa e medidas contra corrupção, além de saúde e segurança dos funcionários em relação à Covid-19, disse Eric Pedersen, diretor de investimentos responsáveis ​​da Nordea.

Funcionários da JBS em fábrica no Paraná - Ueslei Marcelino - 21.mar.2017/Reuters

"Após um período de negociações com a empresa, não sentimos que estávamos vendo a resposta que procurávamos. Não vimos interesse em dialogar e a falta de controle sobre a Covid-19 [entre funcionários da JBS] alcançou um ponto extremo”, explicou.

Em nota, a JBS respondeu que “não comenta decisões de investidores, mas lamenta não ter sido recentemente procurada pelo referido fundo”. A empresa também afirmou que segue rigorosa política de controle de compra matéria-prima e que implantou robusto protocolo para segurança dos colaboradores em relação à Covid-19.

O executivo disse que os fundos especificamente focados em ESG (ambiente, ação social e governança, na sigla em inglês) já evitavam empresas "com esse tipo de exposição", mas a empresa resolver excluir a JBS também dos outros investimentos "para que a base de clientes mais ampla possa permanecer confortável com o nível de risco de sustentabilidade em seus investimentos".

"Também estamos avaliando outras empresas ligadas a desmatamento na Amazônia, como a Cargill. Em outras regiões, também estamos cortando investimentos em carvão, por causa do risco climático", afirmou.

Os fundos voltados especificamente a empresas com ESG reconhecidas são hoje 30% dos 220 bilhões de euros (cerca de R$ 1,3 trilhão) aplicados pela Nordea, e a tendência é que essa participação aumente, segundo Pedersen.

"Este movimento não é só nosso. É um movimento de muitos outros investidores. Nós vamos ter que avaliar melhor, em mais detalhes, cada empresa em que investimos”, afirma Pedersen.

A gestora foi uma das que enviaram em junho carta a embaixadas brasileiras pedindo providências contra o desmatamento e ameaças a terras indígenas. O fundo também participou de reunião com o vice-presidente Hamilton Mourão no início de julho.

Na raiz da retirada de investimentos da JBS estão relatórios que a apontam como uma das empresas brasileiras com fornecedores responsáveis por desmatamento.

No último dia 15, a Anistia Internacional afirmou que gado criado ilegalmente na Amazônia brasileira havia sido fornecido à companhia em 2019.

Segundo a Anistia, a JBS teria afirmado que "auditorias independentes realizadas nos últimos seis anos pelas empresas de auditoria DNV GL e BDO, líderes globais, revelam que mais de 99,9% das aquisições de gado bovino feitas pela JBS de fazendas localizadas na área amazônica atendem aos critérios socioambientais da empresa. Isso inclui critérios de desmatamento zero".

Afimrou também que "a rastreabilidade de toda a cadeia de fornecimento da carne bovina é um desafio de toda a indústria e uma tarefa complexa".

A DNV GL informou à Folha nesta quarta, porém, que avaliou apenas os fornecedores diretos. "Não avaliamos fornecedores indiretos, pois não havia um sistema de monitoramento em vigor no momento da auditoria. Isso foi observado como não conformidade pela DNV GL. O escopo dos relatórios de avaliação, incluindo o último datado de 2019, abrange compras relacionadas apenas a fornecedores diretos":

Segundo a empresa de auditoria, seus relatórios também não indicam a proporção de gado proveniente de fornecedores diretos e indiretos, e que fontes estimam que o volume de fornecedores indiretos não é insignificante. "A JBS não pode usar o relatório de avaliação como evidência de boas práticas em toda a cadeia de suprimentos", afirmou.

Além da retirada de investimentos da JBS, a Nordea mantém uma quarentena em relação à dívida soberana brasileira desde agosto do ano passado, quando a crise das queimadas na Amazônia gerou ameaças de bloqueios econômicos na Europa.

"Continuamos em quarentena em relação aos fundos da dívida soberana brasileira. Não vamos comprar mais, mas ainda não decidimos vender e banir o investimento. Começamos um processo de diálogo com o governo e isso vai depender de como a situação evolui", afirma Pedersen, que preferiu não adiantar quais condições vão determinar a decisão sobre o futuro desse investimento, mas reforçou que o monitoramento sobre o desmate da Amazônia foi uma das condições apresentadas a Mourão.

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