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Mohamed El-Erian

Investidores devem se preparar para calotes no pós-pandemia

Valor de recuperação dos papéis em breve ganhará importância, e exigirá avaliação mais atenta

Financial Times

O desgaste financeiro causado pela Covid-19 está longe de acabar. Os investidores precisam se preparar para inadimplências que se estenderão bem além dos devedores empresariais e nacionais mais vulneráveis, em um grande acerto de contas que ameaça arrastar para baixo o preço dos títulos.

Ainda há tempo para se adiantar a essa tendência. Em lugar de adquirir ativos por valores chocantemente desacoplados dos fundamentos empresariais e econômicos subjacentes, os investidores deveriam pensar muito mais sobre o valor de recuperação de seus ativos e ajustar suas carteiras de investimento levando isso em conta.

Até agora, a despeito de sinais de crescente desgaste nos balanços empresariais e do setor público, as inadimplências em geral vêm se restringindo a alguns setores que sofreram impacto especial.

Mas a sensação de que o pior não veio a acontecer alimentou a complacência, entre investidores de todas as categorias. Uma nova geração de investidores de varejo emergiu, e ajudou as ações em sua incansável alta.

Contraste o otimismo dos investidores com a circunspecção demonstrada pelas empresas. Enquanto muitos governos centrais estão se concentrando em reabrir economias que passaram por lockdowns a fim de conter a difusão do vírus, a maioria das empresas vem se mantendo cautelosa. Muitas planejam reduzir ainda mais os seus gastos.

Essa cautela vem sendo encorajada pelo ressurgimento das infecções em todo o mundo. Nos Estados Unidos, a maioria dos estados agora optou por suspender ou reverter seus planos de relaxamento do lockdown. E existem todos os motivos para que empresas e investidores caminhem com cautela.

Especialistas em saúde nos alertam que não devemos ser otimistas demais com relação a uma vacina e, a julgar pelas áreas mais afetadas, pessoas demais ainda não estão encarando a ameaça de infecção com seriedade e não estão alinhando seu comportamento aos riscos que as sociedades enfrentam.

Um cenário econômico assim fraco e incerto reduz a disposição e capacidade dos devedores para cumprir suas obrigações contratuais. Isso se aplica especialmente a setores vulneráveis como o de hotelaria e o de varejo, e aos países em desenvolvimento que dispõem de menos reservas financeiras e nos quais há menos espaço para flexibilidade nas políticas econômicas.

Já existem muitos sinais preocupantes: um ritmo recorde de falências de empresas, o avanço das demissões de trabalhadores das pequenas e médias para as grandes empresas; atrasos cada vez maiores nos pagamentos por imóveis comerciais; atrasos cada vez maiores nos pagamentos de aluguéis residenciais e de cartões de crédito; e a postergação do pagamento de dívidas por diversos países em desenvolvimento.

No entanto, tomando por base diversos indicadores de mercado, os investidores estão demonstrando preocupação insuficiente. Alguns continuam a antecipar uma recuperação forte, em forma de V, na qual uma vacina, ou a formação de imunidade por uma grande parcela da população permitam a retomada rápida das atividades econômicas. Outros confiam em novas medidas de apoio dos bancos centrais, governos e organizações internacionais.

Mas as ações de apoio das autoridades econômicas já foram amplas, e incluem extensão de prazo de pagamentos, transferências diretas de dinheiro, abrandamento de termos de contrato, taxas de juros ultrabaixas e aquisições de títulos empresariais. O G20 já chegou a um acordo sobre uma “iniciativa de suspensão do serviço de dívidas” que beneficie os países em desenvolvimento mais pobres.

Embora notáveis, medidas como essas não protegerão os investidores contra o efeito de algumas das perdas de capital, quer estas sejam causadas por falências de empresas, quer pela necessidade dos países em desenvolvimento de novos fundos excepcionais oferecidos por fontes bilaterais ou multilaterais. Muita gente já deixou claro que espera “envolvimento do setor privado”. O significado provável disso será, no mínimo, a suspensão em curto prazo dos pagamentos do principal e do serviço de dívidas.

Já que nem uma recuperação rápida de renda e nem novas medidas de engenharia financeira devem evitar uma alta nas inadimplências, o melhor que se poderá esperar, em número crescente de casos, pode bem ser uma reestruturação ordenada, voluntária e colaborativa de dívidas, como a que o Equador anunciou na semana passada.

As complicadas negociações entre a Argentina e seus credores demonstram que acordos como esses estão longe de ser fáceis, especialmente por conta da falta de coesão entre os credores. Mas a alternativa –calotes escancarados– destrói ainda mais valor, para os devedores e investidores.

Os danos potenciais não se limitam às finanças. Perturbações nos mercados de capital também podem solapar a recuperação econômica já lenta, ao tornar os consumidores ainda mais cautelosos em seus gastos, por se preocuparem com seus empregos, e ao encorajar as empresas a postergar seus planos de investimento até que surjam perspectivas econômicas mais claras.

O desafio que os investidores precisam encarar bem pode mudar, nos próximos meses: em lugar de desfrutarem de uma onda excepcional de liquidez, que elevava virtualmente todos os preços de ativos, eles terão de se acomodar a uma correção individual de preços e a casos individuais complexos de inadimplência.

Assim, não admira que número crescente de gestores de ativos esteja criando fundos com a esperança de empregar uma estratégia dupla de investimento.

A primeira parte envolve esperar por uma correção no mercado e adquirir ações de companhias muito sólidas que estejam sendo vendidas a baixo preço. A segunda parte envolve participar de reestruturações de dívidas, operações de resgate e empréstimos caucionados bem estruturados, quando os países, e algumas empresas quebradas, tentarem se reorganizar e recuperar.

Altas geradas por liquidez são enganosamente atraentes e tendem a resultar na aceitação de riscos excessivos. Desta vez, os investidores de varejo ocupam posição central no processo. Mas já deveríamos estar pensando no próximo passo. Isso requer escrutínio muito mais cuidadoso por parte dos investidores do que vem sendo o caso nos últimos meses.

Financial Times, tradução de Paulo Migliacci

Mohamed El-Erian

Consultor econômico chefe da seguradora Allianz e foi eleito diretor do Queen’s College, na Universidade de Cambridge

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