Descrição de chapéu The Wall Street Journal

Jeff Bezos, presidente da Amazon, enfrenta teste raro em primeiro depoimento ao Congresso

Acostumado a experiências controladas e roteirizadas, magnata do comércio eletrônico se prepara para uma audiência conflituosa

Sebastian Herrera
The Wall Street Journal

Na assembleia anual dos acionistas da Amazon, em maio, o presidente-executivo da empresa, Jeff Bezos, ofereceu uma resposta conhecida, quando alguém lhe perguntou sobre o escrutínio que a companhia vem sofrendo.

“Queremos que as pessoas saibam a verdade sobre a Amazon e como usamos o nosso tamanho para o bem”, ele disse, antes de delinear iniciativas da empresa quanto ao clima, criação de empregos e apoio a pequenas empresas.

Essa mensagem repetida com frequência, e a tendência de Bezos, em suas aparições públicas e entrevistas, a se apegar a histórias repetidas frequentemente sobre a ascensão da Amazon, devem ser testadas como nunca o foram quando ele fizer o primeiro depoimento de sua vida ao Congresso dos Estados Unidos, na quarta-feira (29).

Jeff Bezos durante evento em Boston em 2019 - Katherine Taylor - 19.jun.2019/Reuters

Nos últimos anos, o homem mais rico do mundo concedeu poucas entrevistas longas a jornalistas e raramente enfrentou questões potencialmente hostis como as que devem ser propostas a ele pelo Subcomitê Antitruste da Câmara dos Deputados. Ele deve depor via videoconferência, em companhia dos presidentes-executivos da Apple, da Alphabet, controladora do Google, e do Facebook.

Bezos, cujo patrimônio líquido disparou para mais de US$ 180 bilhões, comanda a Amazon sem contestação desde que fundou a companhia, um quarto de século atrás. Ele tem a reputação de ser inflexível quando mantém uma opinião forte sobre alguma coisa ou de desafiar ideias que acredite não terem sido consideradas devidamente.

Mas também é conhecido por se manter firme na transmissão da mensagem da empresa. Antigos executivos da Amazon dizem que sua expectativa é de que Bezos se prepare cuidadosamente e mantenha a disciplina na transmissão de diversas mensagens que surgem com frequência nas respostas da empresa a escrutínio e críticas.

Uma é a de que embora a Amazon responda por grande volume das vendas do setor de comércio eletrônico, seu tamanho total no setor de varejo dos Estados Unidos é muito menor. Outra é a “obsessão pelo consumidor” da empresa, um dos 14 princípios que Bezos e sua equipe alardeiam há muito tempo como explicação para o comportamento competitivo da companhia.

A peça principal do depoimento dele “provavelmente será o consumidor”, disse Guru Hariharan, que anos atrás ajudou a desenvolver alguns dos serviços da Amazon a vendedores e hoje dirige a CommerceIQ, uma empresa que trabalha com marcas que vendem na Amazon. “Ele pode argumentar que não se deve aplicar regras demais a um mercado aberto porque isso terminaria prejudicando o consumidor”.

Um porta-voz de Bezos se recusou a comentar para este artigo.

Críticos questionaram se algumas das práticas da Amazon colocam os interesses da empresa acima desse princípio de servir primeiro que tudo ao consumidor, e legisladores vêm esquadrinhando o comportamento da empresa com relação a concorrentes, como parte de um exame mais amplo das grandes companhias de tecnologia, entre as quais a Amazon, desde o ano passado.

A pressão por um depoimento de Bezos cresceu depois que um artigo do The Wall Street Journal detalhou em abril o uso pelos empregados da companhia de dados obtidos por vendedores externos, para ajudar a criar produtos concorrentes com a marca da Amazon.

Em 21 de julho, a Amazon divulgou um relatório escrito parcialmente por seu vice-presidente de serviços ao consumidor, Jeff Wilke, que alardeia o investimento que ela faz nas pequenas empresas, e que a Amazon está gastando mais de US$ 30 bilhões em apoio aos vendedores de pequeno e médio porte em seu site. O relatório também informa que a Amazon trabalha com mais de dois milhões de vendedores, escritores, criadores de conteúdo e desenvolvedores independentes, e com outras empresas nos Estados Unidos.

O deputado David Cicilline (democrata de Rhode Island), o presidente do subcomitê da Câmara, disse que os legisladores nos últimos 12 meses “ouviram alguns depoimentos muito perturbadores sobre as experiências de inovadores e de pequenas empresas com a Amazon”. Perguntado se estava satisfeito com a maneira pela qual a Amazon havia respondido a perguntas sobre o seu uso de dados de vendedores externos, Cicilline respondeu simplesmente que “não”.

“Eles servem como guardiões do acesso a uma imensa parte da economia”, disse Cicilline em entrevista. “Queremos estudar com toda a seriedade as práticas da Amazon”.

Os assessores primários de Bezos na audiência incluem David Zapolsky, o principal advogado da Amazon, e Jay Carney, vice-presidente de relações públicas e políticas públicas da companhia e ex-secretário de imprensa da Casa Branca durante a gestão do presidente Barack Obama.

A companhia, cujas ações registraram mais de 50% de alta este ano e cujo valor de mercado é de cerca de US$ 1,5 trilhão, frequentemente contesta a ideia de que suas práticas de negócios sufocam os competidores. Ao se transformar no segundo maior empregador do setor privado dos Estados Unidos e com isso começar a atrair críticas mais estridentes, a companhia colocou mais ênfase em contar sua história.

Em 2017, a Amazon criou um blog cujo foco são histórias sobre os esforços da empresa e de seu pessoal. A companhia também vem direcionando parte maior de seus esforços publicitários recentes a destacar seu relacionamento com os empregados.

No passado conhecido como um homem reservado e de família, Bezos nos últimos anos tem aparecido mais, embora continue a evitar entrevistas longas à imprensa. Ele usa sua conta no Instagram para comunicar momentos e mensagens pessoais.

A conta inclui conteúdo sobre os esforços do chefe da Amazon para proteger os trabalhadores da empresa e seu compromisso de ser um líder na luta pela prevenção da mudança no clima, que aparece acompanhado por fotos que o mostram em companhia de líderes mundiais e astros da música. De acordo com antigos assessores, Bezos também burila sua imagem por meio de vídeos promocionais, das ações de sua equipe executiva, e dos representantes de relações públicas da empresa.

Muitos sindicatos que tiveram conflitos com a Amazon, entre os quais os Teamsters, o sindicato dos caminhoneiros dos Estados Unidos, vêm pressionando membros do subcomitê legislativo para que suas questões sejam discutidas na audiência.

A Amazon “tem imenso poder para impactar a oferta de produtos em diversas categorias, à custa dos trabalhadores, vendedores e consumidores”, disse Michel Zucker, diretor da Change to Win, uma federação de sindicatos que liderou esforços para pressionar a Amazon. “Esse poder foi reforçado durante a pandemia, e é uma previsão do futuro que os setores online e de varejo geral enfrentarão se as leis e regulamentos não foram aplicados rigorosamente à Amazon”.

Tradução de Paulo Migliacci

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