Mais pobre é amortecedor de choques econômicos da classe alta, diz Nobel de Economia

Esther Duflo afirmou que base da pirâmide não tem acesso a home office ou tratamento médico de qualidade

São Paulo

A vencedora do Nobel de Economia de 2019, Esther Duflo, afirmou nesta quinta-feira (16) que a população mais pobre acaba sendo um “amortecedor” dos impactos econômicos da crise do coronavírus para as classes mais altas.

Segundo Duflo, as diferentes condições de trabalho –que não permitem home office, por exemplo– e a maior dificuldade em acessar o tratamento de qualidade necessário em caso de contaminação pelo Covid-19 são os principais motivos.

“Os mais ricos conseguem continuar trabalhando de casa, então o choque econômico é limitado para eles. Mas os mais pobres precisaram continuar trabalhando presencialmente e, eventualmente, acabam doentes por não conseguirem manter o distanciamento social ou mesmo perdem os empregos porque não exercem uma função que permite o trabalho remoto. Os impactos da pandemia são definitivamente desiguais”, afirmou a economista em transmissão ao vivo na Expert XP, evento promovido pela corretora.

Esther Duflo, ganhadora mais jovem do prêmio Nobel de economia
Esther Duflo, ganhadora mais jovem do prêmio Nobel de economia - Anders Wiklund - 10.dez.2019/Reuters

Ela disse, ainda, que a América Latina começava a obter sucesso na diminuição da desigualdade social depois de anos de trabalho, mas que o processo foi interrompido pela pandemia.

“Algumas pessoas até disseram que a pandemia é como um amante, que o vírus não sabe se você é rico ou pobre, mas, infelizmente, não é assim. Nos Estados Unidos, por exemplo, os latinos e africanos têm três vezes mais chances de serem infectados pelo coronavírus e quatro vezes mais chances de morrerem pela doença do que os brancos não latinos ou africanos.”

Para Duflo, é necessário que os governos tenham respostas e políticas públicas que atendam as necessidades dos mais vulneráveis.

“Sobre a resposta econômica à pandemia, é preciso que nos viremos para os mais pobres para garantir que eles sejam capazes de atravessar a desaceleração da atividade econômica e para assegurar que eles consigam se manter, caso haja um novo lockdown [medidas drásticas de isolamento social] no futuro”, disse.

A economista também afirmou que talvez seja necessário que os países repensem a globalização para a nova realidade do pós-pandemia.

“A interdependência [de uma economia global] é algo que pode ajudar nesse avanço e eu não vejo uma lógica que sinalize algum retrocesso. Estamos aprendendo a diversificar a cadeia global de suprimentos e isso também pode colocar outros países nas negociações internacionais”, disse.

Duflo foi a vencedora mais jovem e a segunda mulher a ganhar o prêmio Nobel de Economia. A economista recebeu o reconhecimento em 2019, junto aos seus colegas Michael Kremer e Abhijit Banerjee, por trabalhos com abordagem experimental para alívio da pobreza em escala mundial.

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