Mourão diz que ainda não tem como estabelecer meta de redução do desmatamento

Pelo segundo dia seguido vice participou de videoconferência com executivos sobre avanço de devastação na Amazônia

Brasília

Cobrado por um grupo de empresários brasileiros por metas de redução de desmatamento na Amazônia, o vice-presidente Hamilton Mourão afirmou nesta sexta-feira (10) que hoje não tem meios para estabelecer um número para esse objetivo.

"Todos eles colocam a questão de que a gente tem que ter uma meta. A meta de desmatamento qual é? Nós temos que reduzir o desmatamento ao mínimo aceitável; e obviamente as pessoas também entenderem que não podem mais desmatar", disse Mourão, após participar de uma videoconferência com executivos de empresas como Suzano, Marfrig, Natura e Vale, entre outras.

A jornalistas, Mourão disse que não tem como se comprometer com uma meta no momento e que está trabalhando num planejamento de longo prazo para poder apresentar objetivos semestrais de diminuição da destruição da floresta até 2022.

"Hoje é uma leviandade eu chegar e dizer: 'vou cortar 50% do desmatamento'. Eu não tenho meios para dizer isso hoje. Eu prefiro que a gente consiga terminar o nosso planejamento e eu dizer que daqui a 2022, a cada semestre, eu vou reduzir em X% até chegarmos no ponto aceitável. É algo factível, e não eu ficar fazendo promessa que eu não vou cumprir. Não faz parte da minha maneira de agir".

O vice-presidente Hamilton Mourão durante cerimônia no Palácio do Planalto - Adriano Machado - 9.jul.2020/Reuters

Os empresários pediram o encontro com Mourão porque estão apreensivos com eventuais prejuízos econômicos que os danos à imagem internacional do Brasil podem criar. A preocupação é que o avanço do desmatamento e declarações do ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) têm passado a percepção no exterior de que o governo Jair Bolsonaro não está comprometido com uma agenda de preservação ambiental.

A teleconferência de Mourão com os empresários ocorreu em mais um dia de dado negativo para o Brasil na área. O desmatamento na Amazônia teve mais um mês de alta em relação ao ano anterior, o 14º seguido, e é o maior desde 2016, segundo dados do Deter, programa do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

A destruição da floresta cresceu cerca de 10% em relação ao mesmo mês de 2019 e atingiu o maior valor de km² destruídos da série histórica recente, que começou em 2015. Junho registrou mais de 1.000 km² destruídos.

Na quinta-feira (9), o vice-presidente participou de uma videoconferência com o mesmo tema, mas na qual do outro lado estavam representantes de fundos de investimento e de pensão da Europa e do Japão. A persistência do avanço do desmatamento, avisaram, pode levá-los a reconsiderar a alocação de recursos no Brasil, o que preocupa o Palácio do Planalto.

No Diário Oficial da União desta sexta, foi publicado um decreto que prorroga até 6 de novembro a operação Verde Brasil 2, que emprega Forças Armadas na GLO (Garantida da Lei e da Ordem) na Amazônia Legal, para a realização de ações preventivas e repressivas contra delitos ambientais, direcionada ao desmatamento ilegal, além do combate a focos de incêndio.

Mourão disse nesta sexta que não vê a possibilidade, no "curto prazo", de as forças armadas deixarem de atuar em ações ambientais na Amazônia. De acordo com ele, para que isso aconteça antes órgãos como o Ibama e o ICMBio precisam ter seus quadros recompostos.

"Eu não vejo no curto prazo operar sem o apoio das forças armadas. Para fazer isso eu preciso recompor as agências ambientais", disse.

De acordo com ele, o déficit de pessoal hoje nessas estruturas é de 50%, sendo que apenas um terço do efetivo é de agentes que trabalham diretamente no campo. "E os que estão na rua não estão só na Amazônia".

Na manhã desta sexta, Mourão argumentou que o recorde de desmatamento registrado em junho na região se deve ao início tardio do trabalho de combate às derrubadas.

"Começou tarde. O começo em maio [dos trabalhos de combate ao desmatamento] vai nos dar uma melhor situação em relação a queimadas, mas não a desmatamento", disse Mourão, após uma reunião remota com integrantes da Associação PanAmazônia, rede que une instituições e empresas da Amazônia continental —nove estados da Amazônia brasileira, mais Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname, e Venezuela.

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