Participação de estrangeiros na dívida pública é a menor em mais de 10 anos

Entrada líquida em junho não representa reversão de tendência, diz Tesouro

Brasília

Os investidores estrangeiros registraram nova queda de participação na dívida pública brasileira, de 9,11% em maio para 9,09% em junho. A nova mínima do percentual em mais de dez anos é registrada mesmo com entrada líquida do capital externo no mês.

Em valores absolutos, houve uma entrada de R$ 10 bilhões de capital estrangeiro em junho, o primeiro dado positivo após quatro meses seguidos. A entrada é considerada positiva pelos técnicos do Tesouro Nacional, mas eles dizem ser cedo para considerar que o movimento representa uma reversão de tendência do capital externo.

“É um sinal positivo, sem dúvida. Mas é cedo para dizer se há uma reversão e se o capital estrangeiro está voltando para o país”, diz o coordenador de operações da Dívida do Tesouro, Roberto Lobarinhas.

Dados da B3 reforçam o cenário de incerteza sobre o apetite de estrangeiros no país
Dados da B3 reforçam o cenário de incerteza sobre o apetite de estrangeiros no país - Leo Barrilari - 17.mar.2020/Xinhua

O próximo resultado pode registrar uma nova saída líquida, segundo ele. Em julho, teve um grande vencimento de prefixados, então é possível que tenha uma saída líquida de estrangeiros. Então é cedo para avaliar se há uma reversão dessa tendência”, ressaltou.

Dados da B3 reforçam o cenário de incerteza sobre o apetite de estrangeiros no país. Junho teve uma entrada líquida de R$ 343 milhões em capital externo (a primeira do ano), mas julho volta a ter saída líquida, de R$ 4,93 bilhões (dados até o dia 24).

De qualquer forma, os técnicos do Tesouro afirmam que a administração da dívida contou um cenário de mercado mais favorável do que em meses anteriores. Isso foi impulsionado pela reabertura gradual de diversas economias, pelas expectativas com vacinas contra a Covid-19 e pelos novos estímulos econômicos.

“Apesar de volatilidade em patamares elevados, o mês foi marcado por um cenário mais benigno”, disse Lobarinhas. Os dados mostram que as instituições financeiras aumentaram sua posição na dívida.

Segundo o Tesouro, a conjuntura permitiu a primeira operação no mercado externo no ano e a emissão de volumes mais elevados do que em meses anteriores no cenário doméstico. Com isso, o estoque da dívida aumentou 3,27% em relação a maio, para R$ 4,38 trilhões.

As emissões em junho foram concentradas em títulos prefixados mais curtos e os de taxa flutuante, diante da preferência dos investidores por ativos menos arriscados e mais líquidos.

O prazo médio apresentou redução, de 3,96 anos em maio para 3,87 em junho. O custo médio acumulado em doze meses subiu de 8,98% ao ano em maio para 9,04% ao ano em junho.

Por outro lado, o Tesouro entende que continuam prejudicando os números fatores como o baixo nível de atividade econômica e as restrições de liquidez financeira, o que vem gerando incerteza.

Nesse cenário, o CDS (Credit Default Swap, indicador de risco do país), registrou redução de 9,7%, atingindo 257 pontos ao final do mês. O número está acima de pares internacionais monitorados pelo Tesouro, como México (158), Colômbia (161), Chile (86) e Peru (92).

Com relação ao mês de julho, o Tesouro vê um cenário ainda em situação positiva, apesar da cautela diante dos riscos associados à pandemia, especialmente diante da possibilidade da aceleração do contágio em algumas regiões dos Estados Unidos e do Brasil.

Os técnicos destacam como positiva a divulgação de um pacote de ajuda bilionário pelos países da União Europeia, que ajudou a reforçar as perspectivas com relação à recuperação da atividade econômica.

Internamente, a ênfase dada pelo governo à retomada da agenda de reformas (como a entrega da reforma tributária ao Congresso) e a diminuição da volatilidade cambial ajudaram a melhorar o ambiente de negócios, segundo os técnicos.

Também tende a ajudar os números a decisão do Federal Reserve de manter os juros em taxas próximas a zero. “A busca por liquidez nesta crise foi muito grande, então todos esses estímulos na compra de títulos e em manter taxas em níveis baixíssimos estimulam a economia”, afirmou Lobarinhas.

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