Petrobras confirma que problema em gasolina de aviação pode causar avarias, dizem pilotos

Anac já recebeu 92 relatos de danos; suspensão de vendas provocou desabastecimento em aeroportos brasileiros

Rio de Janeiro

A Aopa (Associação dos Pilotos e Proprietários de Aeronaves) diz que a Petrobras confirmou em testes que o problema de qualidade detectado em um lote de gasolina de aviação pode causar avarias em peças de borracha e plástico, como as que levaram a suspensão de voos em todo o país esta semana.

Até esta quarta (15), a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) já havia recebido 92 relatos de danos em sistemas de combustíveis em aeronaves que abasteceram em 46 aeroportos de 14 estados. As vendas do combustível foram suspensas no sábado (11) e pelo menos 51 aeroportos chegaram a ficar sem o produto.

Os problemas começaram a ser relatados em junho e, no sábado a Aopa recomendou a suspensão de voos. A crise não atinge grandes aeronaves usadas pela aviação comercial, que usam outro combustível. Mas colocou em alerta cerca de 12 mil aviões e helicópteros de pequeno porte, usados para aviação executiva, pulverização de defensivos agrícolas ou transporte médico.

A Petrobras já havia informado que detectou diferenças na composição do combustível e estava analisando a possível ligação com as avarias nas aeronaves. Nesta quarta (15) a Aopa Brasil (Associação dos Pilotos e Proprietários de Aeronaves) disse que a empresa informou que o combustível suspeito veio com níveis mais baixos do que o normal de compostos aromáticos, que são parte de sua composição.

"Estudos feitos até aqui pela Petrobras demonstram que avgas [gasolina de aviação] com índices de compostos aromáticos menores do que os normais podem causar deterioração de componentes elastométricos e poliméricos [como borracha e PVC]", disse a Aopa, em nota.

Segundo a entidade, a informação foi dada em reunião com executivos da área de comercialização de combustíveis da estatal. Procurada, a empresa não confirmou, reforçando apenas que estuda "a hipótese da variação da composição química ter impactado os materiais de vedação e revestimento de tanques de combustíveis de aeronaves de pequeno porte".

A Petrobras disse à Aopa que o lote suspeito foi comprado de "fornecedor de reputação, de quem a empresa continuamento recebe produtos". Em nota, a empresa já havia informado que o roduto foi comprado em uma refinaria nos Estados Unidos e é o mesmo vendido a clientes naquele país.

No sábado, depois que primeiras análises no produto identificaram problemas, a Petrobras anunciou a suspensão preventiva das vendas, sendo seguida pelas distribuidoras que entregam o combustível aos postos nos aeroportos, o que levou a problemas de abastecimento pelo país.

Na quarta, a BR Distribuidora informou que estaria retomando as vendas, depois que a Petrobras ofereceu informações suficientes para a identificação do lote suspeito. "Essas informações permitiram que a BR, em conjunto com suas revendas, fizesse o rastreamento dos locais onde aquele lote está armazenado e iniciasse o processo de completo recolhimento."

A empresa vai recolher toda a gasolina de aviação que esteve armazenada junto com o lote indicado pela estatal. Novos lotes do produto já chegaram ao país e estão sendo fornecidos a partir da base de Cubatão. Desde 2018, o Brasil importa 100% da gasolina de aviação que consome.

A Aopa quer ainda que a Petrobras apresente um mapeamento de todas as áreas que receberam o lote e datas sobre início das vendas. A associação, que havia recomendado a suspensão de voos, diz que ainda não há dados para afirmar que existem regiões imunes. "As operações devem ser evitadas e não realizadas caso haja qualquer indício de problemas".

Uma comissão conjunta entre Anac e ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis) foi criada para investigar o problema.

"Essa identificação [do problema] deverá revelar a causa e os efeitos de tantos problemas ocorridos de maneira simultânea em todo o Brasil, que já ocasionaram incontáveis impactos diretos (danos técnicos, interrupção do uso de aeronaves, etc) além dos danos que ainda poderão vir a ser identificados na medida em que as investigações evoluam", escreveu a Aopa.

Em seu último posicionamento sobre o assunto, a Petrobras repete que o produto "atende a todos os requisitos de qualidade especificados pela ANP para a comercialização no Brasil" e que a qualidade é reanalisada em seus laboratórios antes da venda ao mercado.

"O lote analisado pela Petrobras não apresenta adulteração, apenas uma composição diferente das cargas anteriores em relação aos tipos de hidrocarbonetos", afirma a empresa, dizendo que não há comprovação de que o produto é responsável pelas avarias.

A estatal diz ainda que está em contato com o fornecedor para analisar providências e que dispõe de produto importado adicional para venda imediata, garantindo o abastecimento do mercado.

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