Descrição de chapéu The Wall Street Journal

Poder das Big Tech é atacado em audiência antitruste no Congresso dos EUA

CEOs da Amazon, Facebook, Apple e Google enfrentaram críticas dos dois partidos

Ryan Tracy
Washington | The Wall Street Journal

Os executivos da Amazon.com, Facebook, Apple e Google enfrentaram críticas implacáveis em uma audiência no Congresso dos Estados Unidos nesta quarta-feira (29), com democratas e republicanos desafiando suas práticas de negócios.

A sessão, realizada por videoconferência por causa da pandemia de coronavírus, expôs uma profunda frustração com algumas das empresas de maior sucesso do país, em um momento em que os americanos confiam nelas mais que nunca.

Também salientou a ameaça que as empresas enfrentam nas investigações efetuadas atualmente pelas autoridades antitruste. Os legisladores citaram e-mails internos das empresas e entrevistas com testemunhas como evidências de que as plataformas abusam indevidamente de sua posição predominante.

O tom das perguntas, dirigidas a Jeff Bezos da Amazon, Mark Zuckerberg do Facebook, Tim Cook da Apple e Sundar Pichai do Google, foi quase sempre hostil. O deputado democrata David Cicilline (Rhode Island), presidente do Subcomitê Antitruste da Câmara, iniciou a audiência declarando: "Nossos fundadores não se curvaram diante de um rei. Também não devemos nos curvar diante dos imperadores da economia online".

Os executivos defenderam as práticas de suas empresas --conhecidas como Big Tech, as "grandes tecnológicas"-- e disseram que enfrentam forte concorrência, que os obriga a servir aos clientes e a inovar.
Em suas declarações iniciais ao subcomitê da Câmara, Bezos, Pichai, Cook e Zuckerberg falaram sobre o papel de suas companhias em impulsionar a concorrência.

Zuckerberg enfrentou uma série de perguntas sobre a estratégia de aquisição do Facebook. Pichai defendeu o Google de diversas acusações, desde tirar vantagem de sua máquina de buscas, que domina a internet, até seu trabalho na China.

Legisladores de ambos os partidos acusaram Bezos de praticar bullying contra vendedores independentes no marketplace da Amazon, citando relatos em The Wall Street Journal de que seus funcionários usaram dados de vendedores para lançar produtos concorrentes.

A Apple ouviu menos perguntas que as outras empresas, com Cook defendendo as políticas de sua App Store.

Os republicanos pareciam mais céticos em relação a uma repressão antitruste, com o principal membro republicano do subcomitê, deputado James Sensenbrenner (Wisconsin), dizendo que não apoiaria uma mudança nas leis de concorrência para lidar com grandes plataformas tecnológicas.

"Nos Estados Unidos, você deve ser recompensado pelo sucesso", disse ele.

Logo de apps do Google, Apple, Facebook e Amazon - Damien Meyer/AFP

Os parlamentares republicanos dirigiram uma série de perguntas ao Google e, em menor grau, ao Facebook, por supostos maus tratos a conservadores nas redes sociais. "A grande tecnologia quer pegar os conservadores", disse o deputado Jim Jordan (Ohio). "Se isso não acabar, tem que haver consequências."

O presidente Trump também falou sobre o assunto no Twitter na quarta: "Se o Congresso não fizer justiça com as Big Tech, o que deveria ter feito anos atrás, eu mesmo farei com decretos executivos".

Os CEOs rejeitaram as acusações, dizendo que se esforçam para permanecer politicamente neutros e se concentrar em servir os consumidores, sem negar o acesso aos concorrentes.

Bezos, em sua primeira audiência no Congresso, contou aos legisladores sobre seus pais e sua decisão de deixar um emprego em Wall Street para iniciar a Amazon em uma garagem em Seattle.

"O mercado de varejo do qual participamos é extraordinariamente grande e competitivo", disse ele, abordando preocupações mais amplas sobre o poder da Amazon. "Há espaço no varejo para vários vencedores."

A deputada democrata Pramila Jayapal (Washington), em cujo distrito fica a sede da Amazon, perguntou a Bezos se os funcionários da companhia violaram uma política interna contra o acesso a dados de vendedores independentes.

"Não posso garantir que essa política nunca tenha sido violada", disse Bezos. Ele enfatizou que a Amazon quer que vendedores terceirizados tenham sucesso e que lucra quando os consumidores têm mais opções.

Quando outro legislador reproduziu uma gravação de áudio de uma vendedora da Amazon dizendo que seus negócios despencaram após uma ação da Amazon, ele disse: "Estou surpreso com isso. Não é a abordagem sistemática que adotamos, posso lhe garantir".

Zuckerberg disse que novas empresas estão surgindo o tempo todo. "A história mostra que, se não continuarmos inovando, alguém substituirá todas as empresas que estão aqui hoje", afirmou.

Ele acrescentou que o Facebook enfrenta uma ampla concorrência, apontando que compete com a Amazon e o Google por dinheiro de publicidade e com a Apple em mensagens privadas.

Cook abordou as preocupações dos desenvolvedores de aplicativos sobre taxas excessivas e autopreferência na popular App Store.

"Se a Apple é um porteiro, o que fizemos foi abrir mais o portão", disse Cook. "Queremos ter todos os aplicativos que pudermos na loja, não mantê-los fora."

O Google recebeu mais críticas no início da audiência. Cicilline acusou o gigante das buscas de abusar de sua posição como portal de entrada na web, dizendo que mudou "de uma catraca para o resto da web para um jardim murado". Ele citou um memorando interno que, segundo disse, mostrava funcionários do Google discutindo como outros sites tinham "tráfego demais".

Pichai disse que não estava familiarizado com o documento específico, mas apontou a concorrência nas buscas on-line, como pesquisas por itens específicos em sites de viagens ou varejo, setor conhecido como "busca pesquisa vertical".

"Quando olhamos para a busca vertical, ela valida a concorrência encontrada", disse Pichai.

Vários republicanos criticaram o Google por abandonar parte do trabalho com o Pentágono e repetiram preocupações entre alguns membros do governo Trump sobre o trabalho da empresa na China.

"Parece realmente pôr em questão seu compromisso com nosso país e nossos valores", disse o deputado republicano Matt Gaetz (Flórida).

Pichai disse que a empresa não trabalha com os militares chineses. "Em comparação com nossos pares, é de natureza muito, muito limitada", disse ele sobre o trabalho da empresa na China.

O presidente da Comissão Judiciária da Câmara, deputado democrata Jerrold Nadler (Nova York), questionou Zuckerberg, citando documentos dele que descreviam o Instagram como uma ameaça, antes que o Facebook o adquirisse em 2012.

"Esse é exatamente o tipo de aquisição anticompetitiva que as leis antitruste foram projetadas para impedir", disse Nadler.

"Acho que a FTC tinha todos esses documentos" quando analisou a aquisição quanto ao cumprimento das leis antitruste, respondeu Zuckerberg, referindo-se à sigla em inglês da Comissão Federal de Comércio.

Algumas autoridades da FTC em 2012 pensaram que o negócio levantava preocupações antitruste, mas temiam que não vencessem uma ação antitruste no tribunal se eles processassem para bloquear o negócio, informou o Journal no ano passado.

O deputado democrata Hank Johnson (Geórgia) pressionou a Apple sobre se trata igualmente os desenvolvedores de aplicativos, dizendo que ela tem funcionários dedicados e acordos especiais de preços para alguns desenvolvedores de grande porte. Cook discordou: "Tratamos todos os desenvolvedores da mesma forma".

A audiência foi marcada por parlamentares que interromperam as testemunhas antes de terminarem suas respostas. O vídeo de Bezos caiu no início da sessão, fazendo Cicilline pedir um recesso. No início, em vez de pedir às testemunhas que se levantassem e jurassem dizer a verdade, Cicilline fez um pedido diferente: "Liguem seus microfones e levantem as mãos direitas".

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves


Raio-x

Apple

Presidente da Apple, Tim Cook
Presidente da Apple, Tim Cook - Angela Weiss - 28.out.2019/AFP

US$ 1 bilhão (R$ 5,2 bilhões)
É o valor estimado da fortuna de Tim Cook, segundo a Bloomberg

US$ 1,6 trilhão (R$ 8,27 trilhões)
É o valor de mercado da Apple

US$ 260,2 bilhões (R$ 1,3 trilhão)
Foi o faturamento da empresa em 2019

US$ 91,8 bilhões (R$ 474.88 bilhões)
Foi o faturamento da empresa no primeiro trimestre de 2020

Amazon

Presidente da Amazon, Jeff Bezos
Presidente da Amazon, Jeff Bezos - Jorg Carstensen - 19.jan.2019/AFP

US$ 180,2 bilhões (R$ 932,17 bilhões)
É o valor estimado da fortuna de Jeff Bezos, segundo a Bloomberg

US$ 1,5 trilhão (R$ 7,75 trilhões)
É o valor de mercado da Amazon

US$ 280,5 bilhões (R$ 1,4 trilhão)
Foi o faturamento da companhia em 2019

US$ 75,5 bilhões (R$ 390,56 bilhões)
Foi o faturamento da companhia no primeiro trimestre de 2020

Google

Presidente do Google, Sundar Pichai
Presidente do Google, Sundar Pichai - Comitê Judiciário Americano via Reuters

US$ 1 bilhão (R$ 5,2 bilhões)
É o valor estimado da fortuna de Sundar Pichai, segundo a Bloomberg

US$ 1 trilhão (R$ 5,2 trilhões)
É o valor de mercado do Google

US$ 131,8 bilhões (R$ 681,8 bilhões)
Foi o faturamento da companhia em 2019

US$ 33,7 bilhões (R$ 174,33 bilhões)
Foi o faturamento da companhia no primeiro trimestre de 2020

Facebook

Presidente do Facebook, Mark Zuckerberg
Presidente do Facebook, Mark Zuckerberg - Andrew Caballero-Reynolds/AFP

US$ 88,7 bilhões (R$ 458,84 bilhões)
É o valor estimado da fortuna de Mark Zuckerberg, segundo a Bloomberg

US$ 665 bilhões (R$ 3,4 trilhões)
É o valor de mercado do Facebook

US$ 70,7 bilhões (R$ 365,73 bilhões)
Foi o faturamento da companhia em 2019

US$ 17,7 bilhões (R$ 91,56 bilhões)
Foi o faturamento da companhia no primeiro trimestre de 2020

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