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Sem controle da epidemia, mercado não se recupera

Relaxamento das medidas, portanto, pode, por um lado, estar atrasando a recuperação da demanda por trabalho, e, por outro, aumentando a oferta de trabalhadores

Daniel Duque

Mestre em economia pela UFRJ, consultor do Banco Mundial, pesquisador no Ibre/FGV e assistente de pesquisa na PUC-RJ

A nova Pnad Covid-19 semanal mostrou uma inédita queda da ocupação na pesquisa, que, desde o início de maio, mostrava estabilidade do número de ocupados no país.

Sem movimentos da força de trabalho (pessoas dispostas a trabalhar e que fizeram algo para isso), tal queda mostra que o mercado ainda não iniciou sua recuperação, apesar do relaxamento das medidas restritivas. De fato, a redução das restrições pode estar contribuindo para a atual piora.

Há hoje evidências preliminares de que parte relevante da resposta do mercado de trabalho à queda da atividade tem se dado pela redução das horas trabalhadas, suavizando o impacto sobre as ocupações.

Uma das primeiras evidências nesse sentido foi apresentada nos microdados do primeiro trimestre da Pnad Contínua: a pesquisa já mostrava, apesar do pequeno aumento da população ocupada e das horas habitualmente trabalhadas, forte queda das horas efetivamente trabalhadas.

As horas trabalhadas não são divulgadas mensalmente pelo IBGE. São disponibilizadas apenas nos microdados trimestrais, o que dificulta a avaliação de sua trajetória em alta frequência.

A Pnad Covid-19, ainda que também não apresente as horas trabalhadas na pesquisa semanal, mostra o percentual de afastamento do trabalho devido ao distanciamento —que tem se reduzido dramaticamente desde a primeira semana de maio, de 19,8% da população ocupada, para 12,5%, na divulgação mais recente.

Como a redução do afastamento do trabalho por distanciamento —em parte consequência do relaxamento das restrições dos governos— poderia afetar a queda da ocupação? Isso pode ser derivado da lenta retomada da economia —e, por consequência, a demanda por trabalho.

O índice de atividade econômica do BC, por exemplo, cresceu em maio em comparação a abril menos do que o esperado pelo mercado, e já há diversas evidências, nos EUA e no Brasil, de que é a pandemia, e não as restrições, a maior responsável pela queda da atividade econômica.

Desse modo, enquanto não houver controle da pandemia, a economia não crescerá a ponto de gerar uma volta robusta da demanda por mão de obra.

O relaxamento das medidas, portanto, pode, por um lado, estar atrasando a recuperação da demanda por trabalho, e, por outro, aumentando a oferta de trabalhadores, fazendo com que aqueles outrora afastados voltem às suas ocupações presenciais.

Assim, para um mesmo valor produzido, essas pessoas voltando acabam podendo tirar espaço de outras para se integrar à atividade econômica, gerando tal queda do número de ocupados.

A situação pode piorar ainda mais com o relaxamento total das medidas de distanciamento, adicionalmente ao progressivo fim do auxílio emergencial. Com isso, a força de trabalho tende a voltar aos seus patamares anteriores à pandemia, reinserindo cerca de 5 milhões de brasileiros de volta à procura por trabalho e fazendo com que a taxa de desocupação venha a se elevar consideravelmente.

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