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Amazon negocia ficar com lojas Sears e Penny para usar como centro de logística

Com setor em crise, maior proprietário de shopping centers dos EUA quer espaços que pediram recuperação judicial

Nova York | The Wall Street Journal

O maior proprietário de shopping centers dos Estados Unidos está em negociações com a Amazon.com, empresa que muitos varejistas denunciam como o maior desestabilizador do setor, para ocupar o espaço deixado por lojas de departamentos em dificuldades econômicas.

O Simon Property Group está examinando com a Amazon a possibilidade de transformar algumas das lojas de departamentos âncoras do proprietário em centros de distribuição da Amazon, segundo fontes do jornal The Wall Street Journal. A Amazon normalmente usa esses depósitos para armazenar de tudo, de livros e suéteres a utensílios de cozinha e eletrônicos, até a entrega aos clientes locais.

As negociações se concentraram na conversão de lojas anteriormente ou atualmente ocupadas pela J.C. Penney e pela Sears, disseram as fontes do jornal americano. Essas redes de lojas de departamentos pediram recuperação judicial e, como parte de seus planos, fecharam dezenas de lojas em todo o país. Os shoppings do grupo Simon têm 63 lojas Penney e 11 Sears, de acordo com seu relatório público mais recente, de maio.

Não ficou claro quantas lojas estão sendo consideradas pela Amazon, e é possível que os dois lados não cheguem a um acordo, de acordo com as fontes do The Wall Street Journal.

Centro de distribuição da Amazon nos EUA.
Centro de distribuição da Amazon em Robbinsville, Nova Jersey, nos Estados Unidos - Lucas Jackson/REUTERS

As negociações refletem o cruzamento de duas tendências anteriores à pandemia, mas que foram aceleradas por ela: o declínio dos shoppings e o crescimento do comércio eletrônico.

Os shopping centers estão em dificuldades há anos, à medida que mais clientes ficam em casa e compram pela internet. A disseminação do coronavírus, que forçou os shoppings a fecharem temporariamente e limitou sua frequência mesmo após a reabertura, agravou a situação. Enquanto isso, a Amazon conseguiu enfrentar novos desafios logísticos durante a Covid-19 e recentemente relatou seu melhor trimestre até hoje.

Para a Amazon, um acordo com a Simon seria coerente com seus esforços para acrescentar centros de distribuição próximos de áreas residenciais, para acelerar o crucial "último quilômetro" da entrega.

Mas para a Simon qualquer acordo para ceder o espaço nobre à Amazon indicaria a ruptura com um antigo modelo de negócios dos shopping centers: contar com uma grande loja de departamentos para atrair o tráfego de pessoas para lojas e restaurantes vizinhos.

Esse modelo faliu nos últimos anos, já que muitas lojas de departamentos estão lutando para sobreviver. A Lord & Taylor também pediu concordata no início deste mês, enquanto o grupo Neiman Marcus entrou com o pedido em maio. A Nordstrom fechou 16 lojas nos últimos meses.

Seus espaços normalmente têm cerca de 10 mil metros quadrados e costumam ocupar mais de um andar. Os inquilinos de shoppings menores contavam com o tráfego das lojas de departamentos para transbordar para os comércios vizinhos, e muitos têm cláusulas que lhes permitem reduzir o aluguel ou cancelar o contrato se a loja ficar vazia.

Ter um centro de distribuição da Amazon ainda poderia ativar algumas dessas cláusulas de locação conjunta, mas alguns proprietários dizem que esse cenário seria preferível a manter aquele enorme espaço vago.

Mesmo assim, os outros inquilinos da Simon talvez não comemorem um acordo com a Amazon. Muitos culpam a gigante varejista online por prejudicar gravemente seus negócios. Sua presença como um novo vizinho provavelmente não ajudaria a acalmá-los, especialmente se os novos centros de distribuição da Amazon em shoppings bem localizados ajudarem a torná-la ainda mais competitiva, acelerando seus prazos de entrega.

Os armazéns da Amazon não atrairiam muito tráfego adicional de pedestres para o shopping, embora alguns funcionários pudessem se alimentar e fazer compras no local. É por isso que os proprietários preferiram substituir as lojas de departamentos por outros comércios, academias, teatros ou operadoras de entretenimento. No entanto, muitos desses inquilinos lutam para sobreviver durante a pandemia e não estão em modo de expansão.

A Simon provavelmente alugaria o espaço com um desconto considerável em relação ao que poderia cobrar de outro varejista. Os aluguéis de armazéns normalmente custam cerca de US$ 110 por metro quadrado, enquanto os aluguéis de restaurantes podem ser múltiplos disso. Dependendo de quando as locações foram assinadas e da localização do imóvel, os aluguéis das lojas de departamentos podem ser de apenas US$ 45 o metro quadrado, ou chegar a US$ 210 o metro quadrado.

Mas o crescimento e o saudável balanço da Amazon a tornariam uma locatária confiável num momento em que a maioria das empresas de varejo foi abalada pela pandemia. A Simon, que possui 204 propriedades nos Estados Unidos, enfrentou um maior fechamento de locações de lojas nos últimos anos, que se acelerou durante a Covid-19.

Uma ligação entre a Simon e a Amazon mostraria como o varejo e a logística —especialmente a entrega no último quilômetro crítico— estão convergindo mais rapidamente.

Vários shoppings americanos já estão fazendo negócios com a Amazon, como o aluguel de estacionamentos para as enormes frotas de vans da Amazon. Mas, para a Simon, alugar um local grande e bem situado seria um raro exemplo de uma grande operadora de shopping centers oferecer espaço de varejo de primeira linha para a Amazon.

"Para substituir as lojas de departamentos, os proprietários de shoppings consideraram escolas, consultórios médicos e residências para idosos", disse Camille Renshaw, diretora-executiva da corretora de investimentos imobiliários B+E. "Com a atual pandemia, espaço industrial é o que resta agora."

Muitos varejistas usam suas lojas como minicentros de atendimento para agilizar a entrega de compras online, especialmente desde que a pandemia restringiu as compras em pessoa e a coleta na calçada tornou-se uma nova alternativa. A Amazon provavelmente usará o espaço da loja de departamentos para uma versão menor de seus enormes centros de distribuição, contando com vans para trafegar nas ruas dos bairros periféricos, disseram analistas.

A Simon Property disse que entrou em empreendimentos de logística com alguns inquilinos de varejo para ajudar em suas necessidades de atendimento. O proprietário de shoppings Washington Prime Group também tem um novo negócio que aluga espaço para lojas como a Dick's Sporting Goods para liberação de estoque.

As localizações estratégicas dos shoppings frequentemente os tornam atraentes como centros de distribuição. Muitos estão próximos das principais rodovias e residências. A Amazon já adquiriu os espaços de alguns shoppings falidos e os transformou em centros de distribuição. A FedEx e a DHL fizeram o mesmo.

A Amazon também está em negociação com vários proprietários de shoppings para colocar sua futura rede de supermercados nos espaços da J.C. Penney, de acordo com uma pessoa familiarizada com o assunto. Não foi possível determinar se eles incluem os shoppings da Simon.

A Simon e a Brookfield Property Partners estão fazendo uma oferta conjunta pela J.C. Penney, que pediu concordata em maio. Assumir a rede de lojas de departamentos lhes daria controle sobre o espaço da loja e certos direitos, como fazer alterações na estrutura de estacionamentos, saídas e acesso a áreas comuns e estradas.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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