Descrição de chapéu

Atalho do WhatsApp para checar fake news no Google é insuficiente

Ainda em testes, recurso permite apenas que textos sejam checados e deixa de fora conteúdo multimídia

São Paulo

“Moro sai como um marreco que tem as penas todas chamuscadas. (*)”... (continua).

Quem usa o novo recurso do WhatsApp —que fornece um atalho para pesquisa no Google em mensagens muito compartilhadas— no texto acima encontra nos resultados tanto o site onde foi publicado originalmente, em abril deste ano, quanto a página da Wikipédia de Lula, o que soa irônico.

A Folha provou a nova ferramenta em teste no Brasil, disponível na versão mais recente do aplicativo e no WhatsApp web. Trata-se de um ícone de lupa clicável que aparece ao lado de textos com mais de cinco compartilhamentos –aqueles com seta dupla.

Ao clicar, abre-se uma janela: “Deseja pesquisar sobre esse assunto na internet? A mensagem será carregada para o Google”. É preciso pressionar, então, em “Pesquisar na internet”. O recurso aparece apenas para textos e não contempla áudios, vídeos e fotos.

Durante o teste, a reportagem experimentou, em geral, três situações. Em uma delas, positiva, o buscador traz checagens feitas por sites profissionais que combatem fake news --mensagens sobre Covid-19 foram recorrentes.

Há, no entanto, dois outros tipos de resultados que preocupam. No primeiro, o Google avisa: “Pode não haver correspondências para sua pesquisa”. Significa conteúdo que provavelmente circule apenas no WhatsApp, difícil de ser monitorado.

No segundo, como o do exemplo que abre este texto, o resultado no Google é o link de uma publicação idêntica à mensagem no WhatsApp, o que pode levar o usuário a “atestar” a veracidade de um conteúdo falso com o mesmo conteúdo falso, apenas em outra plataforma. Nesse caso, usar o Google, que também convive com críticas ao modo como lida com a desinformação, seria somente transportar o problema de lugar.

Isso, porém, está longe de ser a maior angústia. Conteúdos escritos representam uma fração pequena do que é compartilhado em grupos de WhatsApp, tanto que estão fora do monitoramento de Pablo Ortellado, professor da USP referência no estudo de desinformação no Brasil.

Seria crucial que fotos, vídeos e áudios compartilhados mais de cinco vezes também pudessem ser checados, embora a implementação dessa tecnologia seja de fato mais difícil.

Novo recurso doWhatsApp está em teste no Brasil e mais seis países
Novo recurso doWhatsApp está em teste no Brasil e mais seis países - Dado Ruvic/Reuters

A rastreabilidade de um conteúdo em um ecossistema fechado como o do WhatsApp está em discussão no projeto de lei das fake news e seria uma possibilidade, mas é polêmica. Pablo Bello, diretor de políticas públicas do WhatsApp para América Latina, comparou a proposta a “colocar uma tornozeleira eletrônica em todos os brasileiros”.

O recurso de lupa está disponível por enquanto para uma quantidade limitada de usuários no Brasil e na Espanha, Irlanda, Itália, México, Reino Unido e Estados Unidos. Algumas instabilidades podem ser detectadas.

O ícone de lupa, por exemplo, deixou de ser exibido no celular utilizado pela Folha. Não que aparecesse muito, pois boa parte das mensagens são multimídias, e não textuais, como apontou Ortellado.

Há outros incrementos a serem feitos. As mudanças no WhatsApp costumam ser sutis, os ícones discretos e os usuários não são avisados de novidades da forma como deveriam.

Mesmo assim, a disponibilização, pela primeira vez, de um recurso para checagem de informação em ferramenta externa é um passo do WhatsApp contra a desinformação, embora outros ainda sejam precisos.

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