Descrição de chapéu The Wall Street Journal

Como Zuckerberg se aliou a Trump para tentar barrar o TikTok

Executivo conversa com senadores sobre a gigante chinesa e discute tema em jantares com Donald Trump

Nova York | The Wall Street Journal

Quando o presidente-executivo do Facebook, Mark Zuckerberg, fez um discurso sobre a liberdade de expressão em Washington, também tinha outra intenção: alertar sobre a ameaça das empresas de tecnologia chinesas e, mais especificamente, o aplicativo de compartilhamento de vídeos TikTok.

No discurso, uma frase apontava para o rival em ascensão da big tech. Zuckerberg disse aos alunos de Georgetown que o TikTok não compartilha o compromisso do Facebook com a liberdade de expressão e representa um risco para os valores e a supremacia tecnológica dos Estados Unidos.

Zuckerberg martelou essa mensagem nos bastidores em reuniões com autoridades e legisladores durante a viagem que fez em outubro de 2019 e em outra visita a Washington semanas antes, de acordo com as fontes do jornal The Wall Street Journal.

Em um jantar privado na Casa Branca no final de outubro, Zuckerberg argumentou ao presidente Donald Trump que a ascensão das empresas chinesas de internet ameaçava a economia americana e deveria ser uma preocupação maior do que controlar o Facebook, disseram algumas dessas pessoas.

O presidente-executivo do Facebook Mark Zuckerberg durante depoimento em Washington, Estados Unidos - Chip Somodevilla - 11.abr.2018/Getty Images/AFP

Zuckerberg discutiu especificamente o TikTok em reuniões com vários senadores, de acordo com pessoas familiarizadas com as reuniões. No final de outubro, os senadores Tom Cotton (republicano, de Arkansas) —que se encontrou com Zuckerberg em setembro— e Chuck Schumer (democrata, de Nova York) escreveram uma carta a autoridades de inteligência pedindo um inquérito sobre o TikTok.

O governo iniciou uma revisão da segurança nacional da empresa logo depois e, na primavera, Trump começou a ameaçar banir totalmente o aplicativo. Neste mês ele assinou uma ordem executiva exigindo que o proprietário chinês da TikTok, a ByteDance Ltd., se desfaça de suas operações nos Estados Unidos.

Poucas empresas de tecnologia têm tanto a ganhar quanto o Facebook com as dificuldades da TikTok, e a gigante das redes sociais tem atuado ativamente para levantar preocupações sobre o aplicativo popular e seus proprietários.

Além da ação pessoal e das declarações públicas de Zuckerberg sobre a concorrência chinesa, o Facebook criou um grupo de defesa, chamado American Edge, que começou a veicular anúncios exaltando as empresas de tecnologia dos EUA por suas contribuições para o poderio econômico, a segurança nacional e a influência cultural do país.

E o Facebook em geral, no primeiro semestre deste ano, gastou mais em lobby do que qualquer outra empresa, de acordo com dados do Center for Responsive Politics (Centro para Políticas Reativas). Em 2018, em comparação, ficou em oitavo lugar entre as empresas, segundo dados do centro.

Não foi possível determinar exatamente que papel os comentários de Zuckerberg tiveram na maneira como o governo lidou com o TikTok. Uma porta-voz do senador Cotton disse que seu gabinete não comenta as reuniões do legislador.

Questionado sobre o jantar, um porta-voz da Casa Branca disse que o governo "está comprometido em proteger a população americana de todas as ameaças cibernéticas à infraestrutura crítica, de saúde e segurança pública, e nossa segurança econômica e nacional".

O porta-voz do Facebook Andy Stone disse que Zuckerberg não se lembra de ter falado sobre o TikTok durante o jantar.

Os comentários do presidente-executivo em Washington sobre o aplicativo chinês foram vinculados à campanha do Facebook para conter as ameaças regulatórias e antitruste, enfatizando a importância do Facebook para o predomínio tecnológico dos EUA, disse ele.

"Nossa visão da China é clara: devemos competir", disse Stone em um comunicado por escrito. "À medida que as empresas e a influência chinesas vêm crescendo, também aumenta o risco de uma internet global baseada em seus valores, em oposição aos nossos."

Em uma reunião com funcionários neste mês, Zuckerberg disse que a ordem executiva contra o TikTok é indesejável, porque o dano global de tal ato poderia superar qualquer ganho em curto prazo para o Facebook. As observações foram relatadas anteriormente pelo BuzzFeed News.

O TikTok conquistou mais de 100 milhões de usuários nos Estados Unidos e se tornou a maior ameaça ao domínio do Facebook nas redes sociais. Ao misturar vídeos de dança e cenas engraçadas, o aplicativo se tornou uma sensação entre os jovens de todo o mundo.

"O TikTok deixou de ser quase nada para um grande ator nos principais mercados ocidentais nos últimos dois anos", disse Brian Wieser, presidente global de inteligência de negócios da GroupM, uma unidade da WPP PLC.

Embora o Facebook já tenha adquirido startups como o TikTok, que considerava potenciais ameaças, o exame das autoridades antitruste torna esses negócios mais preocupantes para as grandes empresas de tecnologia, por isso elas podem recorrer a outras medidas defensivas, disse Wieser. "Você poderia de fato aceitar mais regulamentação ou coisas que limitariam as oportunidades para as iniciantes", disse ele.

O Instagram, do Facebook, lançou neste mês seu próprio recurso de compartilhamento de vídeo, chamado Reels, e está tentando atrair criadores do TikTok pagando para alguns usuários postarem vídeos exclusivamente no novo serviço.

O destino do TikTok está indefinido. Com o prazo do governo Trump se aproximando, a Microsoft disse que está negociando para comprar as operações da TikTok nos Estados Unidos, e pelo menos dois outros grupos estariam rodeando, que seriam Twitter e Oracle.

É possível que o TikTok acabe ficando para uma dessas empresas, tornando o comprador imediatamente um poderoso rival do Facebook nos Estados Unidos.

A defesa do Facebook irritou pessoas no TikTok, de acordo com fontes do The Wall Street Journal. No mês passado, o presidente-executivo Kevin Mayer acusou publicamente o Facebook de tentar esmagar deslealmente a concorrência.

"No TikTok, apreciamos a competição", disse ele em um post de blog. "Mas vamos concentrar nossas energias na concorrência leal e aberta a serviço de nossos consumidores, em vez de criticar ataques de nosso concorrente —ou seja, o Facebook— disfarçados de patriotismo e projetados para acabar com nossa presença nos Estados Unidos."

Os argumentos de Zuckerberg sobre o TikTok mostram uma inversão em sua postura em relação à China.
Em 2010 ele disse que pretendia aprender mandarim e fez várias viagens muito divulgadas à China ao longo dos anos, enquanto o Facebook explorava a possibilidade de voltar ao país mais populoso do mundo, onde está proibido desde 2009.

Essas medidas tornaram Zuckerberg popular entre muitos na China, mas a opinião pública local se voltou contra ele por causa de seus comentários recentes, incluindo uma audiência no Congresso dos EUA em julho sobre concorrência, na qual ele disse que está "bem documentado que o governo chinês rouba tecnologia de empresas americanas".

O Global Times, publicação ligada ao Partido Comunista Chinês, disse nesta semana que Zuckerberg já foi considerado "o genro do povo", mas que suas ações recentes sugerem que ele está disposto "a deixar de lado a moralidade para obter lucro".

Zuckerberg viu que o sucesso do TikTok era iminente. Quando seu aplicativo predecessor nos Estados Unidos, Musical.ly, começou a ganhar fama entre os adolescentes americanos, em 2017, o Facebook considerou adquiri-lo, informou o The Wall Street Journal. Em vez disso, a Bytedance comprou Musical.ly e mais tarde o rebatizou como TikTok.

No discurso de outubro em Georgetown, Zuckerberg descreveu o TikTok como incompatível com os valores americanos: "No TikTok, o aplicativo chinês que está crescendo rapidamente em todo o mundo, as menções a protestos são censuradas, mesmo nos Estados Unidos. Essa é a internet que queremos?", disse Zuckerberg.

Dias depois, ele reiterou suas preocupações sobre a China durante o jantar na Casa Branca com Trump, o genro do presidente, Jared Kushner, e o membro do conselho do Facebook Peter Thiel, que é um apoiador de Trump, segundo pessoas informadas sobre a conversa.

A equipe de Zuckerberg também entrou em contato com congressistas que são duros com a China, de acordo com fontes internas. Ele perguntou por que a TikTok deveria ter permissão para operar nos Estados Unidos, quando muitas empresas americanas, incluindo a sua própria, não podem operar na China.

Em novembro, o senador republicano Josh Hawley, do Missouri, que também se encontrou com Zuckerberg em setembro, disse em audiência que o TikTok ameaça a privacidade das crianças americanas. "Para o Facebook, o medo é perder participação no mercado de redes sociais", disse ele. "Para nós todos, o medo é um pouco diferente."

Kelli Ford, porta-voz de Hawley, disse que as preocupações do senador com o TikTok são anteriores à reunião com Zuckerberg. "O Facebook recentemente deu o alarme sobre a tecnologia baseada na China como uma tática de publicidade para ampliar sua própria reputação", disse ela.

O Facebook não quis comentar a declaração de Ford.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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