Descrição de chapéu The Wall Street Journal

EUA avaliam contatos de ex-funcionário da Nasa com executivo da Boeing sobre missão à Lua

Investigação criminal analisa informações relacionadas a licitações que ex-executivo compartilhou sobre a concorrência para veículo lunar

Andy Pasztor Andrew Tangel Aruna Viswanatha
Washington e Chicago | The Wall Street Journal

Promotores federais abriram uma investigação criminal para saber se uma autoridade graduada da Nasa compartilhou indevidamente informações sobre um projeto de veículo de pouso na Lua com um alto executivo da Boeing, que então atuou sob a orientação dele, segundo pessoas inteiradas da investigação.

O inquérito do tribunal do júri, que ainda não tinha sido divulgado, está sendo conduzido pelo gabinete do procurador-geral dos Estados Unidos para o Distrito de Columbia (Washington) e se concentra na comunicação que ocorreu no início deste ano fora dos canais formais de licitação, disseram essas pessoas. Os promotores, segundo elas, estão investigando os contatos entre Doug Loverro, antes de renunciar ao cargo de chefe dos programas de exploração humana da Nasa em maio, e Jim Chilton, vice-presidente sênior da divisão espacial e de lançamento da Boeing.

Nave Boeing Starliner; a investigação está nas etapas iniciais e não se sabe se resultará em um processo criminal
Nave Boeing Starliner; a investigação está nas etapas iniciais e não se sabe se resultará em um processo criminal - Bill Ingalls - 22.dez.2019/AFP

Loverro, que não fazia parte da equipe oficial de contratação da Nasa, informou a Chilton que a gigante aeroespacial de Chicago estava prestes a ser eliminada da concorrência com base em avaliações técnicas e de custo, segundo algumas pessoas. Em poucos dias, a Boeing apresentou uma proposta diferente, disseram as fontes. A Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço (Nasa na sigla em inglês) determinou formalmente que as mudanças na proposta chegaram tarde demais para ser consideradas, e três outras empresas ganharam contratos em abril, totalizando quase US$ 1 bilhão.

A investigação está nas etapas iniciais, de acordo com pessoas informadas sobre o assunto, e não se sabe se resultará em um processo criminal. Independentemente de como termine, ela aumenta o escrutínio da conduta de Loverro e levanta novas perguntas sobre a tomada de decisões na Boeing e as salvaguardas internas de contratação. Vários funcionários de médio escalão da Boeing, incluindo um advogado, foram removidos da empresa em consequência da polêmica, disseram pessoas familiarizadas com as mudanças de pessoal.

A empresa tomou medidas para melhorar o treinamento de conformidade interna após esse episódio, disse uma pessoa informada sobre a reação da companhia.

A Boeing, que enfrenta outra investigação criminal sobre o desenvolvimento do jato de passageiros 737 MAX, se recusou a comentar a investigação ou falar em nome de Chilton. Um porta-voz da Nasa disse que é "inadequado discutir atos de funcionários", mas acrescentou: "Estamos confiantes em nosso processo de licitação". Uma porta-voz da procuradoria dos EUA não respondeu a pedidos de comentários. Os advogados de Loverro não foram encontrados para comentar o assunto.

Loverro disse aos investigadores que estava tentando ajudar o programa do veículo de pouso lunar e os contribuintes, e não visava algo mal-intencionado, de acordo com pessoas familiarizadas com a investigação, reduzindo a probabilidade de o processo de licitação ser atrasado por potenciais contestações ou apelações sobre o resultado.

As comunicações de Loverro com a Boeing e os atos da empresa após essas comunicações geraram reclamações dentro da Nasa, disseram pessoas a par da investigação. As reclamações geraram uma investigação relatada anteriormente pelo inspetor-geral da agência sobre se a Boeing obteve informação privilegiada ou vantagem na concorrência. Semanas após o anúncio das concessões, Loverro deixou o cargo de administrador-associado sob pressão da diretoria da Nasa.

Em uma mensagem de despedida à equipe, enviada em 19 de maio, Loverro sugeriu que havia ultrapassado sua autoridade ou poderia ter entrado em conflito com as regras de contratação. Ele escreveu que "assumir riscos faz parte da descrição do cargo" de alguém em sua função. Sem entrar em detalhes, a mensagem dizia: "Corri um grande risco no início do ano porque achei necessário cumprir nossa missão".

Depois que Loverro deixou a Nasa, disseram algumas dessas pessoas, os promotores iniciaram investigações para saber se as leis de integridade de aquisições foram violadas, solicitando declarações por escrito e emitindo pelo menos uma intimação. O inquérito civil do inspetor-geral foi suspenso enquanto se aguarda a resolução da investigação criminal, de acordo com pessoas familiarizadas com as duas investigações. Uma porta-voz do inspetor-geral não quis comentar.

Em suas declarações aos investigadores da Nasa e do Departamento de Justiça, Loverro indicou que seu objetivo foi evitar interrupções nos planos do veículo lunar da Nasa, segundo essas pessoas. Os promotores também estão examinando seu contato com outra licitante, disseram as fontes, sem identificar essa parte.

Ambos os contatos com licitantes podem ter violado os procedimentos estabelecidos pela Nasa para isolar as decisões de contratação de influência imprópria, de acordo com essas pessoas, e podem ter refletido os esforços de um recém-chegado às fileiras de liderança da Nasa para acelerar a concorrência.

Loverro é um ex-oficial espacial sênior do Pentágono que desempenhou um papel importante na definição dos objetivos e no projeto geral do programa do veículo de pouso humano da Nasa desde que chegou à agência, em dezembro passado. Ele não tomou as decisões finais de contratação.

No final de abril, a Nasa escolheu as três equipes corporativas para desenvolver veículos destinados a levar astronautas à Lua pela primeira vez em quase 50 anos, contando com uma mistura de startups e empreiteiras estabelecidas para liderar o caminho com soluções técnicas drasticamente diferentes. Totalizando US$ 967 milhões, os contratos pretendem ser um primeiro pagamento de bilhões de dólares em impostos adicionais que a Nasa planeja gastar em protótipos e testes de veículos. Não há indicação de que os vencedores —Space Exploration Technologies Corp., Blue Origin Federation LLC e a unidade Dynetics da Leidos Holdings Inc.— façam parte da investigação do Departamento de Justiça.

Essas três empresas não quiseram comentar ou não puderam ser encontradas.

Para a Boeing, no entanto, o resultado foi amplamente considerado um golpe. Autoridades do setor expressaram surpresa pelo fato de a empresa não ter sido escolhida, apesar de seu papel formidável na exploração espacial humana que remonta a cerca de cinco décadas.

Em sua mensagem de despedida, Loverro escreveu que sua saída da Nasa "não teve nada a ver com seu desempenho como organização nem com os planos que acionamos" para pousar astronautas na Lua em 2024, acrescentando: "Minha partida é por causa de minhas ações pessoais".

A renúncia de Loverro atraiu ampla atenção em parte porque foi tão abrupta —ele apresentou sua renúncia um dia antes de enviar a mensagem de despedida— e em parte porque veio menos de duas semanas antes do lançamento pela SpaceX da primeira cápsula desenvolvida comercialmente para transportar humanos à Estação Espacial Internacional. O Wall Street Journal inicialmente relatou a investigação do inspetor-geral, e o Washington Post posteriormente identificou Chilton como o contato de Loverro na Boeing.

Na investigação do 737 MAX, os promotores federais no Departamento de Justiça vêm reunindo evidências há quase dois anos. Nos últimos meses, eles tentaram formar um caso contra um ex-piloto da Boeing que supervisionou as aprovações regulamentares dos manuais e treinamento de pilotos do MAX antes de deixar a empresa, informou o Journal.

Duas das aeronaves caíram em cinco meses, matando ao todo 346 pessoas e gerando várias investigações sobre as falhas da Boeing em fornecer rápida e totalmente os detalhes do projeto aos reguladores durante a certificação inicial do avião. A Boeing disse que atendeu a todos os requisitos regulamentares ao projetar o MAX e está trabalhando para obter a aprovação das revisões e correções do projeto do avião. O advogado do ex-piloto da Boeing disse que seu cliente não fez nada para prejudicar a segurança ou enganar os reguladores.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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