Mercado teve semana volátil com cenário fiscal no radar de investidores

Bolsa brasileira acumulou alta de 0,17% enquanto o dólar registrou valorização de 3,31%

São Paulo

As discussões sobre a política fiscal brasileira foram o centro das atenções dos investidores nesta semana e deram o tom para os mercados de ações e de câmbio.

No início da semana, as especulações sobre uma possível saída do ministro da Economia, Paulo Guedes, do governo já foram motivos de estresse na Bolsa de Valores brasileira, além do maior receio dos investidores quanto ao aumento de gastos públicos no país.

Reportagem da Folha publicada na segunda-feira (17) mostrou que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tem cobrado uma postura menos resistente ao aumento de gastos, com foco em obras e benefcios sociais.

Funcionário da Bolsa de Valores de Nova York; política fiscal interna deu o tom dos mercados nesta semana
Funcionário da Bolsa de Valores de Nova York; política fiscal interna deu o tom dos mercados nesta semana - Michael Nagle - 17.mar.2020/Xinhua

Segundo relatos, Jair Bolsonaro teria se queixado a deputados aliados de que o ministro precisa ser menos inflexível e intransigente em relação aos recursos orçamentários e que teria de entender que a política econômica precisa estar em sintonia com o projeto de governo.

Apesar de Guedes ter tentado tranquilizar os mercados afirmando que existe uma confiança mútua entre ele e Bolsonaro e que estão alinhados na decisão de que não há chances de furar o teto de gastos, o tema continua no radar de investidores, que seguem incertos sobre a agenda de controle das contas públicas.

Além disso, depois de uma força tarefa do governo, o Congresso decidiu, na quinta-feira, manter o congelamento salarial de servidores públicos até o final de 2021 – impedindo, assim, que algumas categorias conseguissem aumentos salariais mesmo diante de uma crise nas contas públicas. Mas nem mesmo essa reversão foi suficiente para dar fôlego aos mercados.

Apesar de o Ibovespa, principal índice acionário do país, ter revertido o sinal negativo do início da sexta-feira (21) e ter fechado o pregão com leve alta de 0,05%, aos 101.521 pontos, o índice terminou a semana com alta de apenas 0,17% e ainda acumula queda de 12,2% em 2020.

Segundo o analista da Guide Investimentos Luís Sales, a questão fiscal é um dos maiores riscos para a recuperação do país não apenas para este ano, mas também para 2021.

“Essas questões políticas trazem um maior pessimismo no curto prazo e podem voltar para a discussão na semana que vem, incluindo também as questões sobre a prorrogação do auxílio emergencial”, disse.

As preocupações com a política fiscal doméstica também foram responsáveis pela valorização do dólar ante o real.

Na sexta-feira, o dólar subiu 0,91%, a R$ 5,6080, e atingiu a quarta semana consecutiva de alta, com ganho de 3,31%. No ano, a moeda americana acumula alta de 39,7%.

Segundo o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, os temas políticos devem continuar dominando a próxima semana, principalmente às vésperas do encaminhamento do orçamento de 2021 para o Congresso.

“Depois da vitória de Maia [presidente da Câmara dos Deputados] na manutenção do veto derrubado pelo Senado, o governo deve indicar como pretende gastar o que foi economizado”, afirmou o economista na sexta, em relatório.

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