Merkel diz ter 'sérias dúvidas' sobre acordo com Mercosul após encontro com Greta Thunberg

Brasil acumula rejeições entre países membros do bloco; Alemanha era um dos grandes promotores do acordo

Berlim | AFP

A chanceler alemã Angela Merkel expressou pela primeira vez, nesta sexta-feira (21), "sérias dúvidas" sobre o futuro do acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul, diante do avanço do desmatamento e queimadas na Amazônia.

"Temos sérias dúvidas de que o acordo possa ser aplicado conforme planejado, quando vemos a situação na Amazônia", afirmou o porta-voz da chanceler, Stephan Seibert.

O acordo de livre comércio foi assinado no ano passado, mas para ser validado definitivamente ainda deve ser ratificado por todos os parlamentos nacionais, o que ainda não é o caso.

A chanceler alemã Angela Merkel durante encontro com presidente francês Emmanuel Macron em Bormes-les-Mimosas, França - Christophe Simon - 20.ago.202/AFP

O Parlamento austríaco e, muito recentemente, o Parlamento holandês, rejeitaram o acordo na sua forma atual.

Em julho, a ombudsman da União Europeia, Emily O'Reilly, decidiu abrir uma investigação sobre o acordo, atendendo a preocupação de cinco ONGs sobre o estudo de seu impacto ambiental.

Outros países como Bélgica, França, Irlanda e Luxemburgo também expressaram dúvidas.

Após 20 anos de negociações, a UE e os países do Mercosul chegaram, há pouco mais de um ano, a um princípio de acordo comercial. O bloco sul-americano busca sua entrada em vigor o quanto antes.

O acordo se encontra, atualmente, na etapa de tradução para todas as línguas oficiais da União Europeia, após a conclusão de sua revisão jurídica. Esta etapa deve estar concluída até outubro.

Até hoje, a Alemanha era um dos grandes promotores deste acordo. Os comentários feitos por seu governo nesta sexta-feira (21) aumentam o peso das críticas do lado europeu.

O texto é alvo dos ambientalistas, que temem seu impacto no meio ambiente. Para responder a essas críticas, um capítulo abordando, em particular, a "conservação florestal" foi incluído no texto final.

Mas agora, a chanceler alemã teme o aumento de desmatamento e incêndios na Amazônia. "Estamos céticos", disse Stefan Seibert.

"A Amazônia preocupa o mundo todo", acrescentou o porta-voz da chanceler. Esta é a primeira vez que Angela Merkel faz essas críticas ao acordo com o Mercosul.

Essa posição é tomada no dia seguinte a um encontro entre a chanceler e os dirigentes do movimento ambientalista "Fridays for future", em particular Greta Thunberg, em Berlim.

"Angela Merkel aprovou nossas críticas ao acordo com o Mercosul, e não pretende assiná-lo", afirmou no Twitter Luisa Neubauer, figura do movimento na Alemanha, que participou do encontro.

O acordo foi originalmente apoiado pela Alemanha e sua poderosa indústria exportadora, especialmente a indústria automotiva, que viu nele a oportunidade de novos mercados.

Mas as preocupações ecológicas, amplamente compartilhadas pela opinião pública alemã, estão ganhando cada vez mais peso no país, onde as manifestações regularmente reúnem milhares de jovens ativistas.

Queimadas

Em julho, segundo dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), a Amazônia brasileira teve mais um mês com aumento de queimadas em relação ao ano passado, mesmo com a presença do Exército na região.

Foram registrados 6.803 focos de calor no bioma naquele mês, crescimento de 28% em relação ao mesmo período de 2019. Junho também foi marcado pelo crescimento dos incêndios na região, com 20% mais focos na comparação com 2019.

O ano de 2019 ficou marcado pelas grandes queimadas no bioma, que chegaram a escurecer os céus de São Paulo. Desde então, os pesquisadores já alertavam que o cenário de queimadas e desmatamento (que tem ligação com o fogo na floresta) em 2020 é preocupante.

O Brasil tem sido alvo de críticas pela forma como tem lidado com o desmatamento na Amazônia, com pressões vindas de grandes investidores, empresas nacionais e estrangeiras, ex-ministros e grandes bancos.

O acordo entre União Europeia e Mercosul também tem sua conclusão ameaçada pela postura do governo Jair Bolsonaro, que insiste em associar desmatamento e queimadas a pequenos produtores que necessitariam da prática para sobreviver e credita a preocupação ecológica de líderes europeus a interesses comerciais protecionistas daqueles países.

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