Microsoft diz que negociações com TikTok continuam após conversa com Trump

Presidente executivo da empresa se encontrou com Donald Trump neste domingo

Nova York e São Paulo

A Microsoft anunciou neste domingo (2) que continuará as negociações com o TikTok após conversa entre o seu presidente-executivo, Satya Nadella, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Em um blog da empresa, a companhia afirmou que considera as preocupações de Trump e confirmou que está agilizando as discussões com a ByteDance, dona do aplicativo de vídeos, notificando o governo dos EUA sobre uma possível aquisição de ativos da TikTok no país.

Trump disse na semana passada que não era a favor de um de um acordo com a empresa chinesa, e planejava proibir o app nos Estados Unidos, alegando questões de segurança nacional.

A TikTok diz que tem 100 milhões de usuários nos EUA. Ainda não é rentável, pois gastou muito para adquirir usuários nos últimos anos, mas internamente a companhia projeta receitas de US$ 1 bilhão neste ano e US$ 6 bilhões no próximo, disse uma pessoa informada do assunto ao jornal The Wall Street Journal.

Logo do aplicativo chinês TikTok - Dado Ruvic/Reuters

Neste domingo (2), o jornal havia informado que a Microsoft tinha interrompido as negociações após a conversa entre Nadella e o presidente americano.

Esta é a primeira vez que a companhia confirma que está em negociação com a TikTok nos EUA, Canadá, Austrália e Nova Zelândia após dias de especulação. A empresa estima encerrar as discussões até o dia 15 de setembro deste ano.

As declarações de Trump estimularam a TikTok a fazer novas concessões nos Estados Unidos, incluindo aumentar em 10 mil seus postos de trabalho no país (hoje são 1.500 funcionários) nos próximos três anos, mas não está claro se isso vai modificar a posição do presidente americano.

As duas empresas estão tentando saber com clareza a posição da Casa Branca e se ela está planejando uma ação separada que dificultaria a operação da TikTok nos EUA. Elas planejavam concluir um acordo nesta segunda-feira (3).

Trump disse que preferia proibir totalmente o aplicativo. "No que diz respeito ao TikTok, vamos bani-lo dos Estados Unidos", disse ele. "Bem, eu tenho essa autoridade."

O fundador da Bytedance, Zhang Yiming, também aceitou vender sua participação como parte do negócio para manter o app funcionando nos Estados Unidos, disse uma fonte.

Uma pessoa envolvida na questão afirmou que a Casa Branca estava envolvida nas discussões há semanas e deixou claro desde o início que o resultado desejado era que a TikTok fosse "de propriedade americana".

O presidente Donald Trump usa celular durante reunião na Casa Branca - Saul Loeb - 18.jun.20/AFP

Em uma declaração no sábado (1º), um porta-voz da Casa Branca disse: "O governo tem preocupações de segurança nacional muito sérias sobre a TikTok. Continuamos avaliando as futuras políticas".

No domingo, o secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, disse que havia acordo no governo Trump e entre líderes do Congresso de que a TikTok não poderia operar nos EUA em sua forma atual, citando preocupações de segurança nacional.

"Todo o mundo concorda que ele não pode existir como está", disse Mnuchin.

Divisões na Casa Branca

Os sinais mistos refletem divisões internas na Casa Branca sobre o rumo de ação apropriado, segundo pessoas inteiradas da questão. Mnuchin e o secretário de Estado, Mike Pompeo, seriam a favor da venda do TikTok para a Microsoft, segundo as fontes.

O advogado da Casa Branca, Pat Cipollone, e Matthew Pottinger, vice-assessor de segurança nacional do presidente, estiveram envolvidos na mediação do negócio, segundo autoridades da Casa Branca.

Um dos temores é que haja uma reação do público se o governo obrigar o aplicativo muito popular, conhecido por seus vídeos de dança e de dublagem, a sair dos telefones de milhões de adolescentes.

Em uma reunião na manhã de sexta, autoridades do Tesouro disseram à Comissão de Investimento Estrangeiro nos EUA que um acordo com a Microsoft era iminente, segundo pessoas informadas.

Outros na Casa Branca, mais notadamente o assessor comercial Peter Navarro, pediram que Trump adote uma linha mais dura contra o TikTok.

Navarro não respondeu a pedidos de comentário. Ele disse antes que não acredita que permitir a venda do TikTok a uma empresa americana resolva as questões de segurança nacional em jogo.

Acesso a dados

Autoridades dos EUA manifestaram preocupações de que o TikTok possa transmitir os dados que coleta de americanos ao governo autoritário da China. A TikTok disse que nunca faria isso. As autoridades também temem que o app possa ser usado para disseminar propaganda política chinesa e que os moderadores da plataforma estejam censurando o conteúdo para tranquilizar Pequim.

A empresa também disse que está cada vez mais adaptando suas políticas de conteúdo de acordo com os mercados locais onde atua, incluindo os EUA, e que Pequim não dita as políticas para esses países.

As discussões de alto nível ameaçam torpedear um plano ambicioso da Microsoft de competir com o Facebook nas redes sociais. A gigante do software pretende inicialmente deixar o TikTok operar de forma independente, disse uma pessoa, como fez com o LinkedIn depois que adquiriu a companhia por mais de US$ 26 bilhões em 2016.

Uma venda para a Microsoft, provavelmente por bilhões de dólares, seria uma vitória para a TikTok e a Bytedance.

Zhang participou ativamente das negociações, segundo pessoas inteiradas. O presidente executivo da TikTok nos EUA, Kevin Mayer, que entrou para a companhia em junho, vindo da Walt Disney, não teve atuação central nas discussões, segundo as fontes.

"Quero agradecer aos milhões de americanos que usam o TikTok todos os dias", disse o diretor-geral da companhia em um vídeo postado na plataforma no sábado. "Não pretendemos ir para lugar nenhum."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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