Novos sistemas de seleção dificultam busca por emprego após reabertura

Maior parte do processo de contratação é online, o que deixa recrutrador e candidato cautelosos

São Paulo

Demitido em abril, o gerente de projetos Carlos Eduardo Rezende de Oliveira, 45, passou os últimos quatro meses sem procurar emprego. Diante das indefinições trazida pela pandemia de Covid-19 e o risco de contaminação, ele considerou que o momento era de recolhimento.

"Acho que estava todo o mundo em pânico. Também não dava para dizer 'vou dar as caras no mercado'. Dar as caras para quem? Ninguém estava contratando, as empresas todas paradas, todo o mundo colocando os profissionais em casa, dando férias. Enfim, não tinha para onde correr", diz.

Por quase quatro meses, Oliveira ficou fora do mercado, e também da força de trabalho.

O gerente de projetos Carlos Eduardo Rezende de Oliveira foi demitido da consultoria em que trabalhava no mês de maio, em meio à redução na demanda por trabalho devido à pandemia
O gerente de projetos Carlos Eduardo Rezende de Oliveira foi demitido da consultoria em que trabalhava no mês de maio, em meio à redução na demanda por trabalho devido à pandemia - Zanone Fraissat/Folhapress

Assim como ele, 8,9 milhões de trabalhadores perderam seus empregos no período de abril a junho, segundo o IBGE, o mais agudo da pandemia, e não foram em busca de vagas. Passaram a figurar, para o IBGE, como pessoas fora da força de trabalho.

A partir de junho, empresas de todo o país começaram a receber autorização para reabrir as portas, mas a demanda por produtos e serviços segue em baixa --e as perspectivas de recuperação não são das melhores.

Para quem está voltando a buscar emprego, a reabertura em etapas faz com que esse retorno à força de trabalho seja cercado por dúvidas. Quem está selecionando --ou mesmo contratando-- está usando ferramentas totalmente online para esses processos.

Para aqueles, como Oliveira, acostumados a visitar empresas, conversar com alguém do RH ou com um chefe de setor, as novidades causam estranheza e insegurança.

"No final de julho voltei a fazer cadastros para vagas e já achei tudo muito estranho. As empresas estão usando sistemas informatizados que te eliminam da seleção. Como é que eles sabem, sem nem ter me visto, que eu não sirvo para a vaga a partir de um número de perguntas?", questiona.

Pesquisadores de mercado de trabalho apontam que a redução de quase 9 milhões de pessoas na força de trabalho --formada por ocupados e desocupados-- ocorreu por três razões principais: a crença de que não há emprego, uma vez que as firmas estão fechadas e a economia vai mal, o medo de contaminação por coronavírus e a necessidade de cuidar de outras pessoas da família.

Sem essa queda na força de trabalho, o Brasil estaria vivendo a maior taxa de desemprego desde que o IBGE começou a Pnad Contínua.

No trimestre encerrado em junho, 12,8 milhões de pessoas estavam sem qualquer trabalho no país. Os setores de alojamento e alimentação e de serviços são os que mais fecharam vagas: 2,6 milhões.

Patrícia da Silva
Patrícia da Silva, cabeleireira, foi demitida no início da pandemia e desde então trabalha por conta própria - Gabriel Cabral/Folhapress

A cabeleireira Patrícia da Silva, 33, precisou esperar a reabertura dos salões de beleza na capital paulista para voltar a buscar por trabalho. Como bares e restaurantes, os salões puderam voltar a funcionar no início de julho.

Em março, quando a quarentena teve início, a empresa em que Patrícia trabalhava desligou todos os funcionários contratados com carteira assinada. "Propuseram que todos virassem MEI [microempreendedor individual], mas eu não quis", diz Patrícia.

Para pagar as contas enquanto não encontra novo trabalho fixo, ela vem atendendo por conta própria, de maneira informal, na casa das clientes, além de administrar o que recebeu de FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) e o seguro-desemprego.

"Agora que voltei a procurar, até porque os salões foram os últimos a abrir", afirma.

Na casa do gerente de projetos Carlos Oliveira, a família começou a "apertar os cintos". Com a reserva de emergência, quitou financiamentos e cortou gastos extras. "Tinha poupança para oito meses e achei que não usaria nem metade, mas esse dia chegou", diz.

Trabalhadores como Oliveira e Patrícia não eram considerados desempregados pelo IBGE --até junho, eles não estavam atrás de emprego. Uma vez que eles voltaram a buscar uma colocação, retornam à força de trabalho.

Em entrevista à Folha, o pesquisador Daniel Duque, da área de Economia Aplicada do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da FGV), disse que o fim do pagamento ou a redução no valor do auxílio emergencial pressionará o retorno de trabalhadores ao mercado, elevando o desemprego, atualmente em 13,3%.

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