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Governo Bolsonaro

Oportunismo de Bolsonaro vai minando Paulo Guedes

Saídas de secretários são sinais de mudança de rumo e da visão de curto prazo do presidente

São Paulo

A “debandada" de Salim Mattar (Desestatização) e Paulo Uebel (Desburocratização) não é apenas um grande revés contra o discurso de modernização da economia sob Jair Bolsonaro.

São o sintoma de um governo que parece estar se preparando para mudar de rumo, com o presidente antecipando sua campanha à reeleição sob o populismo econômico, via mais gastos e ajudas emergenciais, a fim de reforçar sua popularidade.

A hora para flertar com essa zona “sombria”, na expressão usada por Paulo Guedes na saída de seus auxiliares, não podia ser pior.

O ministro da Economia Paulo Guedes - Adriano Machado/Reuters

A dívida pública brasileira encostará em 100% do PIB no final deste ano e a única âncora a sustentar o seu financiamento com a menor taxa de juros de nossa história é o cumprimento do teto de gastos.

Se ele desmoronar, como uma parte do governo deseja, o risco é o país retomar uma trajetória de descontrole orçamentário e inflacionário —de “caos”, como também disse Guedes sobre o rumo que as saídas de Matar e Uebel podem sinalizar.

Guedes foi muito franco e direto em suas considerações sobre o episódio, revelando o próprio desconforto com o andamento das coisas. Desde o início do governo, diante da inação de Bolsonaro, o ministro já perdeu seis auxiliares comprometidos com seu projeto.

Desta vez, foi a desistência de enviar ao Congresso uma proposta de reforma administrativa e de acelerar as privatizações que levaram às saídas. Se o teto entrar na mira de Bolsonaro, é pouco provável que Guedes queira ficar entre seus escombros.

Mas o embate que havia dentro do governo entre a postura fiscalista de Guedes em contraposição aos militares e a Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional) parece estar pendendo cada vez mais para os que defendem maiores gastos.

“Guedes vai ter que dar um jeito de arrumar mais um dinheirinho”, resumiu recentemente Flávio Bolsonaro sobre o rumo que as coisas vêm tomando, ele próprio um interessado em ampliar a base de apoio do presidente para salvar a pele.

Bolsonaro já disse inúmeras vezes não entender nada de economia, o que talvez torne incompreensível para ele a relação direta que existe entre dívida pública controlada e juros baixos, que permitem uma recuperação mais saudável da economia, mesmo que mais lenta.

Mas o presidente não tem visão de longo prazo e, como sua trajetória mostra, é um oportunista do baixo clero de Brasília, com quem agora se aliou para se proteger de problemas e acusações em troca de mais verbas e espaço em seu governo.

Se Bolsonaro pegar mesmo o atalho da irresponsabilidade fiscal, é esperar para ver se o vaticínio de Guedes se confirma: "Os conselheiros do presidente que o estão aconselhando a pular a cerca e a furar o teto vão levar o presidente para uma zona de impeachment”.

A dúvida é de onde Paulo Guedes vai assistir a isso tudo.

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